Home Page Photo

The Big Stupid Review

Archives

01-07-2010
Injustice for All by D. E. Fredd
The Polysyllogistic Curse by Gary J. Shipley
How It's Done by Anjoli Roy
Ghost Dance by Connor Caddigan
Two in a Van by Pavlo Kravchenko
01-04-2010
Uncreated Creatures by Connor Caddigan
Invisible by Anjoli Roy
One of Us by Sonia Ramos Rossi
Storyteller by Alan McCormick
01-01-2010
Idolatry by Robert Smith
P H I L E M A T O P H I L I A by Traci Chee
They Do! by Al Po
10-15-2009
Love Fwd'd On by Chris Vaughan
The The Theft of the Magi by Gregory Anthony Schneider
Sam Edwine Gets That All-Important Publishing Contract, and Decides What the Key Word of His Book Shall Be by Tom Bradley
07-01-2009
Notes on a New Financial Year by Chris Vaughan
The Diddling of the Immensity by Thor Garcia
The Right Woman by Roger Castle
07-01-2009
Mawlawchee by Ben Drinen
06-01-2009
Successful P's by Chris Vaughan
Excerpt from Dear Vito by Mickey Z.
As the Song Goes by Ryan McBride
05-01-2009
Menage a Deux by Hugh Fox
Maybe I'm Stupid by Steven Schutzman
04-01-2009
Americans vs. Aneurysms by Eli Richardson
Application For The Chaparral Writers Society by John-Ivan Palmer
03-01-2009
Swearing: A Bedtime Story by John Grochalski
Excerpt from Dear Vito by Mickey Z.
01-01-2009
Two Pauls by Warren Buckles
Moments by Christopher Hart
12-01-2008
The Waiting by Brian Alan Ellis
Symphony #1: Roger Castleman by John Grochalski
11-01-2008
A Splinter from the Devil's Mirror by Bryn Greenwood
Between You and the Man-Sized Prophylactic with the Zipper by Tom Bradley
Chief by Warren Buckles
09-01-2008
Routine by Felipe de Oliveira
Automatic Transmission by Warren Buckles
08-01-2008
The Axiom of Choice by Jim Chaffee
07-01-2008
A Pleasure Jaunt with One of the Sex Workers Who Don’t Exist in the People’s Republic of China by Tom Bradley
Making the Switch by George Sparling
06-01-2008
The War Prayer by Mark Twain
05-01-2008
About the Dog by Robert Aqunio Dollesin
04-01-2008
The Coup by Peter Schoenau
03-01-2008
Art School by Zach Plague
Consitutional Puppies by JR
02-01-2008
Selection from The Vicious Circulation of Dr. Catastrope by Kane X. Faucher
Party Pooper from Make Me by Eli Richardson
Una Noche Perfecta para Sanguijuelas por Jim Chaffee (tr. Sonia Ramos Rossi)
01-01-2008
A Night in Cameroon by Kelly Jameson
Missile by Jason Jordan
Full TEX Archive
Side Photo for The Big Stupid Review

A Boneca - Parte 3

Por Natalia Emery Trindade

A filha não chorou, por orgulho. A tarde passou tranqüila no silêncio do quarto, quase indolor. A boneca sentiu fome. Aliviou o vazio do estômago abrindo as feridas das pernas, e comendo as casquinhas cicatrizadas. Isso aliviou um pouco sua alma subnutrida.

Quando a tarde morreu, a mãe decretou fim do castigo, e abriu a porta do calabouço, para permitir a entrada da liberdade.

besuro vermelho

- Pode sair.

- Mas, eu ainda não cheguei a 100 vezes.

- Não faz mal, já pode parar, disse a mãe, generosamente.

A mãe parecia exausta e disposta a travar a paz novamente. A boneca sentiua paz chegando, quase a podia tocar com as mãos. Em questões de segundos, elas reatariam laços, e a guerra estaria terminada. A boneca já havia hasteado a bandeira branca. Agora, era preciso muito cuidado, pisar devagar, sem barulho, para não interromper o curso natural das coisas. Temeu o abismo, que poderia separá-las a qualquer instante. Um passo em falso, e seria o fim. Por que sempre tinha que ser assim? O perigo iminente, o precipício sob o próximo passo. Notou o olhar feroz da mãe sobre suas pernas.

- Você abriu as feridas outra vez? Eu não acredito nisso, menina!

A boneca mirou os olhos da mãe, aterrorizada.

- Desculpe, mãe. Foi sem querer. Prometo que não faço nunca mais.

- Isso você já tinha prometido da última vez. Eu vou ensinar você a parar com essa mania nojenta.

E agarrou a boneca pelos cabelos. Levou-a até à cozinha, apanhou algo dentro do armário e empurrou a filha até à varanda.

- Põe já essa perna sobre a mureta.

A filha obedeceu. As feridas abertas exibiam um buraco fresco e pus na periferia. Ela fazia aquilo há tanto tempo, que a inflamação das feridas já vinha desde o ventre materno. A menina não chorava. Ela tinha medo daquela mulher, que um dia lhe disseram ser sua mãe.

A mãe olhou para a perna estendida sobre a mureta da varanda. Estava exausta. Aquelas feridas, expostas para o mundo sobre aquelas pernas duras, eram a impressão de sua própria dor, de seu próprio fracasso.

Abriu a garrafa de álcool e despejou metade do conteúdo sobre a perna. A filha contorceu o rosto. Sofria menos pela ardência das feridas banhadas de álcool, do que pelo desamor e medo que sentia pela mãe.

Então, a mãe, num gesto de resignação, e pressentindo que aquilo jamais cessaria, que aquelas feridas jamais cicatrizariam, despejou o resto do álcool sobre a cabeça e o corpo da boneca. Depois, apanhou a caixinha de fósforo ao lado da churrasqueira e riscou um palito.

Os cabelos de nylon queimaram como palha seca. Os olhos de gude da boneca olharam para a mãe através das chamas, enquanto elas derretiam seu rosto estático e mortal, e devoravam sua pele solta. As labaredas e as feridas da perna confundiram-se no vermelho da dor exposta. O cachorro latiu, assustado com o fogo. Um cheiro de plástico queimado impregnou o ar. O espírito da boneca subiu, como fumaça densa e negra, em direção ao céu.

Pinturas pelo autor

© Natalia Emery Trindade 2006