Archives
- 12-01-2008
- The Waiting by Brian Alan Ellis
- Symphony #1: Roger Castleman by John Grochalski
- 11-01-2008
- A Splinter from the Devil's Mirror by Bryn Greenwood
- Between You and the Man-Sized Prophylactic with the Zipper by Tom Bradley
- Chief by Warren Buckles
- 09-01-2008
- Routine by Felipe de Oliveira
- Automatic Transmission by Warren Buckles
- 08-01-2008
- The Axiom of Choice by Jim Chaffee
- 07-01-2008
- A Pleasure Jaunt with One of the Sex Workers Who Don’t Exist in the People’s Republic of China by Tom Bradley
- Making the Switch by George Sparling
- 06-01-2008
- The War Prayer by Mark Twain
- 05-01-2008
- About the Dog by Robert Aqunio Dollesin
- 04-01-2008
- The Coup by Peter Schoenau
- 03-01-2008
- Art School by Zach Plague
- Consitutional Puppies by JR
- 02-01-2008
- Selection from The Vicious Circulation of Dr. Catastrope by Kane X. Faucher
- Party Pooper from Make Me by Eli Richardson
- Una Noche Perfecta para Sanguijuelas por Jim Chaffee (tr. Sonia Ramos Rossi)
- 01-01-2008
- A Night in Cameroon by Kelly Jameson
- Missile by Jason Jordan
- 12-01-2007
- Nothing by J.R.
- Sacrament by Sonia Ramos Rossi
- 11-01-2007
- Green Mountain Incumbent by D E Fredd
- When Pacino's Hot, I'm Hot by Robert Levin
- 10-01-2007
- The Book of Ancient Wisdom by Hugh Fox
- 09-01-2007
- Dog Days by Robert Levin
- Junk-Pure by Forrest Armstrong
- 08-01-2007
- Beefsteak Mistake, Jake by Kelly Jameson
- Sand by Jim Chaffee
- 07-01-2007
- How to Make a Baby by Robert Levin
- A Rude Little Monkey by Kelly Jameson
- 06-01-2007
- Revolver by Sandra Ramos Rossi
- Brian and Mona by Jim Chaffee
- 05-01-2007
- El Castrator by Thomas Head
- 04-01-2007
- Alone, As Always by Jennifer Gardner
- 03-01-2007
- Polar Regions by Gayla Chaney
- 02-01-2007
- Two Stories of Sex Beyond Erotica: Editor's Introduction by Jim Chaffee
- Photo Finish by Anya Wassenberg
- Mephisto and Me by Lily Edwards
- 01-01-2007
- Management Case Study 17: Down East Chicken by D. E. Fredd
- MoM by David Quinn
- Full TEX Archive

A Boneca - Parte 3
Por Natalia Emery Trindade
A filha não chorou, por orgulho. A tarde passou tranqüila no silêncio do quarto, quase indolor. A boneca sentiu fome. Aliviou o vazio do estômago abrindo as feridas das pernas, e comendo as casquinhas cicatrizadas. Isso aliviou um pouco sua alma subnutrida.
Quando a tarde morreu, a mãe decretou fim do castigo, e abriu a porta do calabouço, para permitir a entrada da liberdade.

- Pode sair.
- Mas, eu ainda não cheguei a 100 vezes.
- Não faz mal, já pode parar, disse a mãe, generosamente.
A mãe parecia exausta e disposta a travar a paz novamente. A boneca sentiua paz chegando, quase a podia tocar com as mãos. Em questões de segundos, elas reatariam laços, e a guerra estaria terminada. A boneca já havia hasteado a bandeira branca. Agora, era preciso muito cuidado, pisar devagar, sem barulho, para não interromper o curso natural das coisas. Temeu o abismo, que poderia separá-las a qualquer instante. Um passo em falso, e seria o fim. Por que sempre tinha que ser assim? O perigo iminente, o precipício sob o próximo passo. Notou o olhar feroz da mãe sobre suas pernas.
- Você abriu as feridas outra vez? Eu não acredito nisso, menina!
A boneca mirou os olhos da mãe, aterrorizada.
- Desculpe, mãe. Foi sem querer. Prometo que não faço nunca mais.
- Isso você já tinha prometido da última vez. Eu vou ensinar você a parar com essa mania nojenta.
E agarrou a boneca pelos cabelos. Levou-a até à cozinha, apanhou algo dentro do armário e empurrou a filha até à varanda.
- Põe já essa perna sobre a mureta.
A filha obedeceu. As feridas abertas exibiam um buraco fresco e pus na periferia. Ela fazia aquilo há tanto tempo, que a inflamação das feridas já vinha desde o ventre materno. A menina não chorava. Ela tinha medo daquela mulher, que um dia lhe disseram ser sua mãe.
A mãe olhou para a perna estendida sobre a mureta da varanda. Estava exausta. Aquelas feridas, expostas para o mundo sobre aquelas pernas duras, eram a impressão de sua própria dor, de seu próprio fracasso.
Abriu a garrafa de álcool e despejou metade do conteúdo sobre a perna. A filha contorceu o rosto. Sofria menos pela ardência das feridas banhadas de álcool, do que pelo desamor e medo que sentia pela mãe.
Então, a mãe, num gesto de resignação, e pressentindo que aquilo jamais cessaria, que aquelas feridas jamais cicatrizariam, despejou o resto do álcool sobre a cabeça e o corpo da boneca. Depois, apanhou a caixinha de fósforo ao lado da churrasqueira e riscou um palito.
Os cabelos de nylon queimaram como palha seca. Os olhos de gude da boneca olharam para a mãe através das chamas, enquanto elas derretiam seu rosto estático e mortal, e devoravam sua pele solta. As labaredas e as feridas da perna confundiram-se no vermelho da dor exposta. O cachorro latiu, assustado com o fogo. Um cheiro de plástico queimado impregnou o ar. O espírito da boneca subiu, como fumaça densa e negra, em direção ao céu.
Pinturas pelo autor
© 2006 Natalia Emery Trindade

