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A Broca Literária

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Um Filme além das Chinelas: A Batalha do Estreito de Hormuz por Jim Chaffee
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02-01-06
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Um Filme além das Chinelas: A Batalha do Estreito de Hormuz

por Jim Chaffee

Enfim, Hollywood produziu o filme de guerra definitivo de nosso tempo. Um filme que coloca o papel dos Estados Unidos como superpotência militar dos últimos 60 anos sob o prisma adequado. Mais que isso. Profetiza a incumbência da nação de salvaguardar a paz e garantir a ordem para o século XXI. Referimo-nos aos atos heróicos da Marinha americana no Golfo de Hormuz em 3 de Julho de 1988.

Produzido por Jerry Bruckheimer e dirigido por Alan Smithee a partir de um script elaborado por Joe Eszterhas, Rush Limbaugh e Glenn Back, com historicidade garantida por Dan Brown, o filme conta com um elenco de estrelas consagradas, todos patriotas de alta estirpe e heróis de guerra. Aliás, cada indivíduo ligado a este projeto é um herói de guerra.

Desde a abertura, com música orquestrada por Pat Boone, herói da Guerra da Coréia (ele se alistou numa junta militar secreta aos 17 anos), contemplamos uma lista VIP de atores americanos cujos serviços prestados seguem além do definível: Jon Voight (Almirante William Crowe), James Woods (Secretário de Defesa Frank Carlucci), Dean Cain (piloto de helicóptero, Tenente Mark Collier), Tom Selleck (Capitão-Tenente Scott Lustig), Kelsey Grammer (Vice Presidente George Bush), Kurt Russell (Presidente Ronald Reagan), Stephen Baldwin (Tenente Clay Zocher), Denzel Washington (Capitão-Tenente Victor G. Guillory), James Caan (Capitão William C. Rogers III (oficial comandante do Vincennes), Dennis Miller (Capitão Richard McKenna (Comandante americano em superfície que dá a ordem de retirada para Rogers)), Ben Stein (Tenente-Coronel Roger Charles (jornalista investigativo e ex-oficial da Marinha)), Fred Thompson (Comandante David Carlson (oficial comandante do USS Sides)), Jonathan Jackson (Suboficial Andrew Anderson), e Angie Harmon e Shannon Doherty como as prostitutas em idade avançada com coração de ouro requisitadas pela tripulação.

O que não veio a público é que todos os indivíduos associados a este filme são veteranos de ações militares americanas, todos altamente condecorados (incluindo Harmon e Doherty). O fato dessas façanhas permanecem confidenciais até hoje é um dado embaraçoso para o Partido Republicano que apoiam, dado que essa informação os livraria da fama de belicistas de escrivaninha*. Todavia, tal qual o ex-presidente Reagan, cujas missões secretas atrás de linhas inimigas na Segunda Guerra continuam em sigilo, o ex-vice Dick Chenney, que serviu com uma unidade SOG no Vietnã, tão secreta, que ainda é considerada ultra-confidencial, e seu ex-chefe na Casa Branca, George W. Bush, que voou em missões de ataque super sigilosas na guerra do Vietnã pela Guarda Aérea Nacional, os feitos destes heróis devem permanecer confidenciais pelo resto da existência. Claro que, Ronald Reagan, como Presidente dos E.U.A., ter conseguido equilibrar o orçamento e sanar a dívida nacional com criteriosos cortes tributários também é um dado secreto, mas que ainda pode virar filme, junto à história de seu engajamento em combates na Segunda Guerra (durante os quais ele foi ferido por um atirador liberal), assim que os republicanos assumirem o controle do governo. Há boatos de que a Fox News vem trabalhando para esta eventualidade.

O filme reconstitui a luta desesperada do cruzador USS Vincennes como parte da força-tarefa americana no Golfo de Hurmuz durante a guerra Irã-Iraque. Após uma batalha intensa contra lanchas torpedeiras iranianas que derrubaram um helicóptero oriundo do Vincennes, a incansável embarcação os perseguiu com bravura, bem ao estilo Hollywood, refutando as ordens do Capitão Richard McKenna ao oficial comandante do navio, Capitão William C.Rogers, para bater em retirada. Rogers foi corajosamente atrás das lanchas, entrando em águas iranianas, nas quais o cruzador foi alvo de ataques covardes desencadeados por uma aeronave comercial supostamente a caminho de Dubai, após decolar do aeroporto Bandar Abas, no Irã.

Tratava-se, obviamente, de um ardil, como o filme deixa claro. Este vôo, denominado vôo 655, era, na verdade, um F-14 Tomcat iraniano com um nefasto sistema de disfarce que o fazia se passar por um Airbus A300B2-203. O fato dele transitar em rota normal seguindo perfis de não-agressão dentro de um corredor aéreo comercial transmitindo um código de aviação civil e não iluminar o Vinccenes com sinais de radar enquanto mantivesse contato pelo radio em inglês com o controle de tráfego aéreo pode até ter enganado os capitães do USS Sides e do USS Elmer Montgomery, mas não o intrépido “Cruzador Robô” regido pelo experiente Capitão Rogers, que, junto com seus homens, manteve a mente fria sob pressão. O atraso de vinte e sete minutos na decolagem do suposto jato de passageiros e sua subida e mergulho repentinos foram as pistas definitivas. O resto é história; o Vinccenes esfacelou aquele F-14 fingido com valentia usando dois mísseis terra-ar SM-2MR. A existência de 290 corpos despencando do céu, a maioria iranianos, mas também um italiano, seis iugoslavos, seis paquistaneses, dez indianos e treze cidadãos dos Emirados Árabes, incluindo sessenta e seis crianças, era um reles truque que a maioria dos cidadãos americanos perceberam na época, continuando a compreender e difundir no presente. O pagamento de reparações ao Irã e demais países por parte dos EUA, incluindo 61,8 milhões pelos cadáveres falsos, é devidamente retratado neste filme. Isto, claro, dentro dos moldes da tradição hollywoodiana, mostrando como os Estados Unidos emitiram o pagamento infame à Corte Internacional de Justiça para evitar um aumento de publicidade que resultasse em julgamento. Mas os cidadãos de nosso país conheciam a verdade, e ela ajudou a eleger George Herbert Walker Bush, que aproveitou para fazer campanha em sua declaração às Nações Unidas, dizendo "Jamais pedirei desculpas em nome dos Estados Unidos da América, jamais. Pouco me importam os fatos." O que faz desse homem um herói, já que "Só a América importa, esteja certa ou errada" é a postura mais íntegra de todo bom americano temente a Deus.

Infelizmente, Reagan, em um dos seus momentos de senilidade, declarou que "Nos arrependemos profundamente por qualquer vida perdida", o que se aproxima de um pedido de desculpas para um Americano de sangue puro. "Mate um ____ em nome de Deus," seria o mote correto (o espaço em branco destinado ao devido estigma, incluindo "japoronga" para alguns países do Extremo Oriente, "cabeça de trapo" nos atuais conflitos do Oriente Médio e "chicano" para a guerra que vem aí).

Para mim, o ponto alto do filme está nas performances de Harmon e Doherty propiciando serviços orais em algum porto do Oriente Médio, sem cobrar, pela causa de nossos rapazes americanos amantes da paz que lutam uma guerra justa contra um inimigo hostil e perigoso. Duas singelas prostitutas com lábios de mel lidando com o mercado árabe de peles masculinas em terras remotas. Nomes excêntricos, aliás: Ophelia Legg e Pookie Snackenberger.

Claro que os patéticos perdedores iranianos chamaram este genocídio justificado de crime internacional, mas com a história enfim contada da maneira certa, talvez seja hora de colocarmos esta importante batalha nos livros de história junto a outras antológicas ações dos Estados Unidos, como a vitória sobre o exército alemão em Leningrado. Mas a verdade é contada quando o bravo capitão do Vincennes, William C. Rogers III, entra para os anais da história na estirpe de lendas como Stephen Decatur, John Paul e Davy Jones assim que é condecorado com a Legião do Mérito por "excepcionais serviços como oficial comandante do USS Vincennes de abril de 1987 a maio de 1989".

O que remete a uma atitude semelhante de um certo cidadão do Texas quando este foi atrás de um larápio que tentava arrombar seu carro estacionado numa rua do centro comercial. O destemido perseguiu o meliante – supostamente desarmado – e descarregou-lhe vários tiros pelas costas, incidente que o tribunal considerou homicídio justificável, uma vez que o perseguidor temia pela própria vida enquanto o perseguido diminuía o ritmo de suas passadas. Eis o genuíno espírito heróico altruísta que caracteriza nossos cidadãos. Regozijemos-nos, portanto. Outro épico hollywoodiano pode estar a caminho.

Agora, além de Cruzadores Robô, os Estados Unidos empregam Aviões Robô, que podem sobrevoar sua rua e explodir a casa do vizinho. Eles tornam a guerra menos repulsiva, já que o piloto-remoto do aparelho pode relaxar em um escritório refrigerado em algum ponto da América enquanto explode inimigos no Afeganistão, Paquistão e França. Após um árduo dia de trabalho pulverizando malfeitores, o nobre guerreiro pode voltar para casa e jantar com a família. Sabiamente, Obama emprega este artifício para aniquilar inimigos em qualquer nação de nossa escolha.

Sabemos, por exemplo, que Osama Bin Laden está morto, eliminado em fevereiro de 2000 por um avião não tripulado Predator. A aeronave atacou três homens que percorriam uma trilha a pé na região fronteiriça entre o Afeganistão e o Paquistão. Um deles, o individuo alto que vestia manto, era Bin Laden. A história oficial, claro, atesta que o homem só foi morto por ser alto e vestir manto na fronteira leste do Afeganistão, sem que uma identificação positiva ocorresse. Dizem também que testes de DNA provaram não ser ele Bin Laden. Mas a verdade é que não nos interessa ver Bin Laden morto, já que a CIA ou alguém está usando uma versão virtual do terrorista para desmantelar planos de ataque ou desentocar antigos companheiros; por isso a história falsa sobre aldeões em busca de metais para vender. Os Estados Unidos, lar da liberdade e bravura, não liquidariam alguém que não merecesse, como bem nos assegurou John Wayne em suas fidelíssimas reconstituições históricas do cinema. Portanto, é mentira. Descanse com a certeza de que Bin Laden morreu tão bem quanto o jato iraniano derrubado na batalha de Hormuz era um F-14. Americanos não pedem desculpas, visto que é, moralmente e por definição, impossível a um americano fazer algo arrependível. Além disso, ninguém mais pode dizer que gente alta com barba grande corre perigo em território asiático (consultar Jane Mayer, “O Predador da Guerra”, The New Yorker, 26/10/2009), pois os pilotos-remotos devem estar cientes do fim de Bin Laden. (exceto se for ultra confidencial) Não espere um filme desse evento, pelo menos não da versão legítima, como também nenhum filme sobre as heróicas façanhas de Reagan durante a Segunda Guerra (ao menos por hora).

Por fim, os americanos podem celebrar esta proeza de nossos marinheiros no Golfo de Hormuz. Claro que os iranianos contam uma versão diferente, como maus perdedores que são. Enquanto os jornais daqui sequer mencionaram o vigésimo aniversário do conflito, os iranianos insistem em relembrá-lo, chamando-o de terrorismo de estado e crime internacional da marinha americana. Em casos extremos, falam até em crimes contra a humanidade, como se a América pudesse cometê-los. Quem pensam que somos? O império do mal? Uns champignons de plutônio fariam bem para o juízo deles.

Aleijadinho, Detalhe do Passo Cruz-as-Costas

Tradução de Luiz Mendes Junior

© 2011 Luiz Mendes Junior