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A Broca Literária

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Sinistro!

por Frodo Oliveira

AVISO: Este conto foi escrito originalmente em “carioquês”

polychrotidae flutuante

O tal do Shakespeare, de quem o professor de literatura inglesa sempre fala na aula, disse que existem mais mistérios entre o céu e a terra do que a gente poderia imaginar. Bom, acho que foi algo parecido. O caso é que ele estava muito certo. Eu nunca fui de acreditar nessas bobagens de sobrenatural, fantasmas, espíritos e afins, mas o que aconteceu com o meu amigo Caniço foi pauleira, coisa sem pé nem cabeça. E só de pensar, fico todo arrepiado, que esse negócio de coincidência nunca foi o meu forte, mesmo.

Caniço estudava na minha sala. Era um cara alto e desengonçado, daí o seu apelido, porque ele parecia mesmo uma vara de bambu. Mas o que o cara tinha de esquisito, tinha de bacana. Era sangue bom mesmo, o Caniço. Pegava onda na altura do posto nove, todos os domingos. A gente se encontrava lá pra surfar, jogar um vôlei e azarar as gatinhas. Em dois anos de faculdade ele nunca havia deixado de comparecer ao encontro da turma do posto nove, como éramos conhecidos lá na praia.

Um belo dia, porém, o Caniço sumiu, não apareceu mais na praia nem na faculdade. No começo, pensamos que ele tinha ficado doente. Sei lá, uma gripe ou dengue... Mas passou-se uma semana e nada do Caniço aparecer. No início da segunda semana tentei ligar pra saber o que tinha acontecido, mas o celular estava desligado. Caniço tomou chá de sumiço, com a licença do trocadilho.

Eu já estava bastante preocupado com esse desaparecimento, quando, passando de busão pela Vieira Souto, quem eu vejo, sentado num dos quiosques à beira-mar? Ele mesmo, o Caniço.

Desci correndo do ônibus, com medo do cara sumir de novo. Mas não, lá estava ele, contemplativo, observando alguma coisa perdida na distância do Atlântico.

– Caraça, Caniço! É você mesmo? Que fim tu "levou", meu irmão?...

Ele me olhou, esboçou um sorriso, e por fim me estendeu a palma da mão.

– Qualé, cara! Tranquilo?

Bati na sua mão estendida e toquei com meu punho no seu punho.

Havia três garrafas de cervejas vazias, o que parecia ser uma passagem com o logotipo de uma companhia de aviação e um copo pela metade em cima da mesa. Mas eu sabia que o Caniço não bebia. Algo não andava bem com meu amigo.

– Senta aí e pede mais uma – ele me disse.

Fiz o pedido e começamos a levar um lero:

– Mas por que tu "sumiu", cara?

– Tava por aí... – foi a resposta lacônica.

Apontei para a passagem em cima da mesa:

– Vai viajar?

Ele fez um sinal que sim, com a cabeça, enquanto o garçom nos servia.

– Noronha. O voo sai amanhã pela manhã.

– Caraca, Mané! Tu "vai" vai pra Noronha! Irado...

Mas tinha algo que não batia. Não havia entusiasmo algum, e, eu sabia, Noronha era um sonho antigo dele.

– Pô, mas isso lá é cara de quem vai pra Noronha amanhã, ô Caniço? Logo tu, que sempre sonhou pegar onda lá...

Caniço tomou um longo gole de cerveja, colocou o copo na mesa e me encarou muito sério.

– Ah , cara, eu tô meio bolado...

– Bolado? Com o quê? Sim, porque tu sempre foi o maior cuca-fresca do pedaço... Nunca foi de esquentar a cabeça com nada.

– Sei lá... - ele coçou a cabeça – É que... aconteceu uma coisa comigo, tem uns quinze dias. Um troço muito sinistro!

– Sinistro? Como assim, Caniço?

Ele deu de ombros, como se não quesesse contar o que havia acontecido.

– Qualé, cara! Ajoelhou, tem que rezar. Não confia mais em mim?

– Putz, cara, não é contigo. É que... É uma história tão maluca que acho que ninguém vai acreditar em mim. Nem mesmo você...

– Deixa de drama, Caniço, e conta logo. Agora eu fiquei curioso...

O meu amigo fez uma pausa, tomou outro gole, olhou para o mar como quem pensa no assunto, e por fim pareceu decidir me contar:

– Bom, cê que sabe. Seguinte:

"Era uma terça-feira, e eu não tinha nada pra fazer, então resolvi vir à praia. Sem prancha nem nada, só prá ver o movimento. Coloquei minha cadeira na areia, comprei o jornal e fiquei lendo a página esportiva. O Fluzão perdeu de novo, um pouco de Fórmula Um, a final do estadual... Eu estava entretido nisso, quando uma mina chegou junto, assim, sem mais nem menos.

– E aí, tudo legal? – ela perguntou.

Abaixei lentamente o jornal e quase perdi o fôlego: era uma tremenda gata, dessas de parar o trânsito. E me dando o maior conceito. Começamos a papear, o nome dela era Valquíria, e ela me pareceu bem legal. Fazia faculdade de pedagogia à noite e trabalhava pra ajudar em casa, pois seus pais eram separados e sua mãe sustentava outros dois irmãos menores.

Pois então, a gente tava no maior papo quando, de repente, a mina ficou branca, branquinha mesmo! Achei que ela tava tendo um treco qualquer, sei lá. Pô, eu nunca tinha visto alguém ficar daquela cor. Parecia papel...

– Você tá legal?

– Acho que sim - ela respondeu, depois de tomar fôlego. Olhava assustada para o meu lado direito, e eu, por curiosidade, é claro que olhei também. Mas não havia nada de estranho que pudesse causar aquela reação toda em Valquíria. Somente um casal que retornava de um mergulho e se preparava para ir embora da praia.

Ela ainda os acompanhou com o olhar assustado até perdê-los de vista no asfalto.

– Você os conhece? – Perguntei, quando ela se voltou para mim novamente.

Valquíria piscou duas ou três vezes antes de responder.

– Não, eu não os conheço.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. A paquera michou, depois daquela cena, ela olhava para baixo e respirava apressadamente, como se estivesse ainda sob o efeito de algo que a havia deixado paralisada.

Eu não sabia o que dizer, então sorri.

– Por que você está rindo? - ela me perguntou.

– Sei lá... É que foi meio esquisito, isso.

Ela ficou mais envergonhada ainda.

– Ai, agora você vai achar que eu sou maluca...

– Que nada. Desencuca, garota.

Valquíria me olhou nos olhos e disse algo que eu nunca vou esquecer:

– Se você soubesse o que eu sei...

– Como assim?

Cara, eu tava igual a você, querendo saber toda a história, se é que tinha uma história... Valquíria continuou me olhando de um jeito estranho, e eu te juro que eu quase senti medo daquele olhar.

– E se eu te disser que aqueles dois que saíram há pouco daqui provavelmente não vão chegar em casa vivos, você me acharia uma louca?

– Totalmente. - eu sorri.

Mas ela ainda estava séria. Muito séria, por sinal. Abaixou os olhos e começou a escrever com o dedo na areia.

– Essa... coisa começou quando eu tinha cinco anos. Assim, do nada: uma tia veio nos visitar e quando eu olhei pra ela, comecei a gritar desesperada. Ninguém entendeu. Nem eu, pra ser sincera. Mas o que eu vi, quando olhei pro seu rosto, foi uma coisa horrível - ela fez uma pausa, nesse ponto, e sua voz estava embargada pela emoção - Era uma caveira. A cabeça inteira da minha tia era uma caveira... Você pode imaginar o que foi isso na vida de uma criança de cinco anos? Durante dias eu não dormi, tive pesadelos por várias noites. Acordava gritando "Minha tia é uma caveira!"... Isso durou cerca de um mês. Até o dia em que chegou a notícia que minha tia caiu no banheiro e teve traumatismo craniano. Morreu na hora.

Ela contava aquilo sem me encarar, mas eu podia ver que era sério, pois lágrimas escorriam do seu rosto e pingavam na areia. Eu estava tão surpreso que não sabia o que dizer.

– Mas isso foi só o início. Minha professora do primário que morreu num acidente, um vizinho que foi assassinado durante um assalto, vovô, que morreu de infarto, todos eles... Eu sabia que a morte estava próxima de cada um deles.

Deus, que história mais sem pé nem cabeça! Se era verdade aquilo que ela estava me contando, imagina o sofrimento daquela garota, vendo caveiras andando por aí, sabendo que as pessoas de quem gosta vão morrer a qualquer momento...

– Caramba, Valquíria, que história sinistra! E você viu aqueles dois...

Ela balançou a cabeça afirmativamente.

– Eles têm pouco tempo de vida, eu sei. Existe um parâmetro... Dependendo da aparência, posso determinar mais ou menos o tempo que resta de vida. O deles está no fim...

Ficamos quietos por vários minutos. Ela conseguiu segurar a onda e foi se acalmando aos poucos. Não sei direito o porquê, mas eu acreditei nela. Não que eu seja muito ligado nesse lance sobrenatural, isso é muito legal nos filmes... Mas desde o princípio senti firmeza nela. Não acho que tenha inventado essa história maluca. Se você tivesse ouvido ela contando também acreditaria..."

Caniço tomou mais um gole de cerveja e continuou olhando o horizonte.

– Tem uma coisa que eu ainda não entendi - falei - O que essa história tem a ver com o teu sumiço da faculdade, da praia...

Ele deu um sorriso sem graça e pegou a passagem em cima da mesa. Ficou olhando aquele pedaço de papel em suas mãos, mas parecia não vê-lo.

– Acontece - fez uma pausa emocionado - que eu ainda não contei a história toda... Deixa eu terminar, que você vai entender.

"Bom, depois que ela me contou aquilo, não havia mais clima pra nada, né? Ela disse que precisava ir embora, e eu não fiz a mínima questão de segurá-la. O baixo-astral tomou conta de mim. Ela ainda me disse que nunca tinha contado pra ninguém de fora da família e que estava se sentindo melhor por desabafar. Agora, imagina só, eu de confessor... Fiquei realmente com pena dela. Imaginei os parentes evitando sua presença, com medo de ter a data da morte revelada... Ser diferente é uma barra. Resumindo, me ofereci para acompanhá-la até o ônibus. Fomos andando até o ponto, ela pediu meu celular, dizendo que me ligaria depois. Eu dei o número, mas não acreditei muito que cumprisse a promessa, ela parecia meio envergonhada comigo.

Subiu no ônibus, e eu fiquei esperando um pouco, até o motorista ligar o motor. Quando já estava me despedindo, ela colocou o rosto na janela e me pegou pela mão:

– Caniço... Eu sinto muito. É difícil pra mim, eu nunca fiz isso, mas tenho que te contar uma coisa...

Olhei pra ela, estava lá novamente, aquela expressão assustada, lívida...

– É que... Deixa eu te dizer algo. Preste muita atenção, porque não vou repetir: se tem alguma coisa que você sempre sonhou fazer na vida, faça. E depressa.

O ônibus arrancou nesse exato momento, e eu fiquei ali, de pé, sem saber o que pensar. Ainda pude vê-la se perder na distância, com um último olhar triste em minha direção."

– Ah, peraí, Caniço, não me diz que você achou... – eu comecei a rir da cara do meu amigo.

– Pô, cara, é sério. A mina não tava de brincadeira. Esperei que me ligasse, tentei encontrá-la na praia, mas nada, ela evaporou no ar.

– Mas é claro que ela tava de onda com a tua cara, Caniço... Onde já se viu, levar uma brincadeira dessa a sério!

Caniço coçou a cabeça novamente e pareceu refletir:

– Tu "acha" que... Era só brincadeira?

– Caramba, cara, é lógico que era! Essa mina deve ter se divertido pra dedéu contigo. Imagina, uma história como essa... E tu "caiu" como um patinho...

Ele me olhava entre temeroso e esperançoso. Por fim, sorriu também.

– Valeu, cara. Sabe que tu já me "deixou" mais aliviado? Essa história toda mexeu comigo. Eu pensei que ia pirar...

– Desencana, “cumpadre”, tu ainda "vai" viver muito! Agora, essa viagem pra Noronha... Pelo menos alguma coisa boa essa história rendeu.

Caniço estava se animando com meu entusiasmo.

– Ô se rendeu! Já tem dois anos que eu planejo essa viagem, e agora que eu já perdi o semestre na faculdade mesmo, ninguém me segura.

– É isso aí, Caniço! Vamos fazer um brinde à Fernando de Noronha, o lugar mais bonito do mundo...

Levantamos nossos copos e brindamos. Caniço sorria aliviado, era um jovem com a vida inteira pela frente e muitos planos a realizar.

Aquela foi a última em vez que vi o meu amigo Caniço com vida. O avião que o trazia de volta de Noronha caiu no mar. O corpo nunca foi encontrado.

© 2010 Frodo Oliveira