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Carmen Miranda e Wittgenstein
por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Quem primeiro me falou do fato de que o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein gostava da cantora Carmen Miranda foi o professor Paulo Margutti, da UFMG, em aulas nos anos 90. Nesse artigo verifica-se a possibilidade de associar essas duas figuras aparentemente tão díspares, tendo encontrado pontos de contato entre os conceitos de Wittgenstein e a arte de Carmen Miranda no interesse por signos não-verbais e no uso das onomatopéias.
Homossexualidade
Logo de início afastamos a idéia de que o fascínio de Wittgenstein por Carmen Miranda seja decorrente do fato de que Wittgenstein era homossexual. A feminilidade exuberante de Carmen fascina hoje os gays e travestis, que tornaram-na uma figura cultuada em seu meio, mas não supomos que a identificação de Wittgenstein com ela tenha ocorrido por essa via. Em termos de estética e de valores, Wittgenstein vivia uma vida monástica, identificado com Tolstói e a idéia de uma vida despojada de todo excesso, frugal, restrita ao mínimo necessário para sobreviver. Carmen Miranda e Wittgenstein são, portanto, uma aproximação entre o barroco e o minimalismo, são dois extremos que, num átimo, se tocaram.
Signos não verbais
Por que Wittgenstein teria se interessado pelo canto e dança de Carmen Miranda, logo ele, alguém de gostos tão nórdicos que passava as férias em fiordes da Noruega? Wittgenstein, segundo Margutti, via Carmen apenas como um entretenimento, uma evasão, uma forma de “tomar uma ducha” depois de refletir sobre problemas lógicos. Ele viu os filmes onde ela atuou na época da Segunda Grande Guerra, como uma espécie de clareira de alegria enquanto o planeta ardia em chamas.
Carmen nunca cantou em alemão, língua materna de Wittgenstein, mas entre eles havia o canal comunicante que era a língua inglesa. Carmen investia muitíssimo na comunicação através dos signos, mais do que no discurso. Por isso, supomos, a pequena notável fascinou Wittgenstein. Ela era incrivelmente rica em comunicação não-verbal: sua roupa onde predominavam as cores primárias (amarelo, vermelho, azul) preparava o clima para uma linguagem primitiva e tudo nela mostrava mais do que era dito: os gestos, a roupa, o movimento dos olhos, boca e membros.
Tomemos um exemplo: The Lady in the Tutti Frutti Hat, uma de suas canções, traz a seguinte imagem: “Eu me pergunto por que todos olham para mim e depois falam sobre árvore de natal/Espero que seja porque todo mundo está feliz em ver/uma senhora de fruteira na cabeça”. A persona de Carmen, barroca, excessiva, complexa, não se enxerga excêntrica, não se identifica com o discurso dos outros a seu respeito.
A esta altura surge uma questão interessante do ponto da filosofia da linguagem: o discurso dos outros a respeito de nós é produzido externamente e nos afeta profundamente; em circunstâncias tais como a narrada na música citada, o mais difícil é perceber de que forma estamos sendo percebidos, além de suportar a dor que pode nos causar a lacuna entre o discurso que produzimos internamente e o discurso alheio a nosso respeito. A posição de Wittgenstein a respeito do seu meio era radical: ele vivia associado à universidade, mas dizia prescindir de um ambiente intelectual, pois afirmava que “produzia seu próprio oxigênio”, segundo Ray Monk escreveu em sua biografia O Dever do Gênio. O filósofo afirma, portanto, que produzia e se satisfazia com seu próprio discurso sobre si mesmo, dispensando o convívio num ambiente intelectual, o que incluiria apoios e amizades.
Chica Chica Boom Chic é a essência do mundo
Outro ponto de contato possível entre o mundo de Carmen Miranda e o de Wittgenstein é a linguagem onomatopaica de Carmen Miranda. Com o bom ouvido que tinha Wittgenstein, provavelmente ele era capaz claramente de identificar que as canções de Carmen continham muitas onomatopéias: “Chica chica boom chic” e “Chatanooga choo choo”. Onomatopéias são palavras que reproduzem o som daquilo que elas desejam representar e são um fenômeno lingüístico onde o significante (a palavra piuí) busca mimetizar seu significado (o apito de um trem, por exemplo).
Ao contrário do que pensava o primeiro Wittgenstein, as palavras não possuem uma relação efetiva com aquilo que representam, sendo significantes arbitrários. As onomatopéias representam uma das tentativas mais bem sucedidas do ser humano de ligar as palavras e as coisas, a linguagem e o mundo.
Carmen também jogava com a pura sonoridade da linguagem e cantava misturando palavras em várias línguas: “give me a band and a bandana”, junta ela numa frase sonora que faz um hilário trocadilho entre “band” e “bandana”, ou seja, “banda musical” e “pano para a cabeça”. Carmen, ao pronunciar inglês com sotaque e misturá-lo ao português, anula a função comunicativa da linguagem em prol dos jogos de linguagem: ela simplesmente brinca com as palavras e as encaixa numa música, provocando, com isso, prazer estético. Concorre para o seu poder de transporte a imagem de paraíso que ela evoca. O paraíso é, por excelência, o lugar onde o nosso eu se ajusta ao mundo – uma aspiração inatingível para Wittgenstein que, durante toda sua vida, sofreu com o desajuste de seu eu ao mundo, sempre querendo desistir, suicidar-se.
Ora, a relação entre a linguagem e o mundo é o principal assunto do primeiro livro de Wittgenstein, o Tractatus Logicus-Filosoficus! A explicação de Wittgenstein nesse livro tinha como centro a idéia de que uma sentença é uma figuração. O Tractactus afirma que as sentenças figuram mesmo a realidade, não se tratando apenas de um “como se”. Conforme assinala o próprio Wittgenstein, “um nome representa uma coisa, outro, outra coisa, e estão ligados entre si de tal modo que o todo, como quadro vivo, representa o estado de coisas”. Para ele, existiria um paralelo completo entre os fatos reais e as estruturas da linguagem, idéia que Wittgenstein abandonou posteriormente, sabendo-a equivocada.
Santo Agostinho, Carmen Miranda, Wittgenstein
O livro seguinte de Wittgenstein, publicado postumamente, chama-se Investigações Filosóficas e inicia-se com uma definição de linguagem de Santo Agostinho onde o santo afirma que os gestos são a linguagem natural dos povos e a linguagem se expressa através da mímica e de jogos que, com os olhos, por meio dos movimentos dos membros e do som da voz, indica as sensações da alma, quando esta deseja algo, ou se detém, ou recusa ou foge. Habituar a boca aos signos é dar expressão aos desejos.
Ora, essa concepção de linguagem, que a seguir Wittgenstein discute, é também bastante útil para que se compreenda como Carmen Miranda tornou-se um sucesso em tantos países: ela comunica-se através de gestos e, com os movimentos graciosos dos braços, o movimento do rosto e dos olhos, assim como dos sons e cores nos quais ela se envolve, expressa os desejos de sua alma. A cantora Carmen Miranda tem, enfim, uma boca de artista habituada aos signos: cabe utilizar os conceitos dos filósofos Wittgenstein e Santo Agostinho para captar a forma e a essência de seus desejos.

© 2009 Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

