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Cabeça de Hugo: um Romance de Idéias e o Personagem Neocon - 2
por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
3. O romance: uma construção com andaimes
O tempo da narrativa é 1978, conforme uma passagem onde, debatendo com o jovem filho de Sílvia, Pedrinho, Hugo comenta que no rapaz de dezoito anos eram visíveis os efeitos negativos sobre a juventude que exerceram quatorze anos de ditadura, tais como a amoralidade e a ignorância cultural.
Numa dada altura do romance, de ressaca, Hugo Mann acorda com ajuda de Juca (o erudito médico Joseph Hansen), figura que inicialmente parece reacionária (contou que chegou a escutar discursos anti-semitas de Plínio Salgado), mas que depois, ao final do romance, revela-se um trotsquista. E, acordando, Juca cita um texto teórico de Hugo:
"Não é possível deixar de ser irônico e fragmentário observando a sociedade atual, em que as personagens apenas repetem mecanicamente rituais que perderam toda a credibilidade. A mímica elaborada de desastres dos comediantes do cinema mudo, hoje, tornou-se quase naturalismo (2)."
A passagem acima pode ser tomada para interpretar a própria narrativa da qual esse fragmento faz parte. Os personagens debatem sobre a revolução socialista, criticam a censura e o regime militar, mas o narrador Hugo Mann retira sistematicamente toda a credibilidade e sentido que poderiam ter esses discursos, tirando-os de foco intencionalmente, não os inserindo em seu contexto, tendo um resultado desastroso. Filtrados pelo niilismo de Hugo Mann, personagens como Álvaro e Renata são praticamente emudecidos. Quando dizem diálogos entrecortados, é apenas para que o jornalista Mann edite seus discursos de maneira a dizer que são fracos fazendo mímica e dar-lhes crédito será desastroso. Mann compadeceu-se de Renata quando ela se suicidou, mas também atacou duramente suas opções políticas, que chamou de "terroristas", palavra que também usava o regime militar para designar os que estavam em luta armada, inúmeras vezes.
A maioria dos personagens, até mesmo o protagonista Hugo Mann, é investido de conteúdos negativos e suas falas são direcionadas pelo narrador Hugo a confirmar isso. Existem, no entanto, brechas que sinalizam em outro sentido.
Um exemplo: o filho de Sílvia, Pedrinho, é sempre investido de conteúdos negativos: logo de início pratica incesto com a mãe, Sílvia, é amoral, arquiteto com diploma comprado e sem talento, cheirador contumaz de cocaína. No entanto, num raro momento onde a voz imperativa de Hugo dá lugar às falas dos personagens, podemos escutar a voz de um jovem que entendeu perfeitamente, em seu estilo coloquial e cheio de gírias, a crítica ácida e o preconceito lingüístico de Mann:
"-- Não começa a complicar o papo que te beijo na boca e você fica todo envergonhado. Não sou intelectual, huguenote, mas manjo tua técnica. Alguém fala um troço, tu começa a decompor frase por frase, palavra por palavra, e tudo que o outro disse vira besteira (...). Pô, tu tá rindo de mim.
-- Não, pelo contrário. É muito inteligente essa tua análise de Maria e Maneco. "Podes crer". Palavra. Estou rindo de pena do Aurélio Buarque de Holanda.
-- Pô, tu tem pena de dicionário, de livro? Huguenote, qual é o teu barato? Tu tá escondendo aí um pó melhor do que esse (3)."
Hugo Mann mostra-se, em contradição com a própria narrativa que orquestra, que também é altamente coloquial e repleta de gírias, contendo também muitas construções em português não-padrão. Conservador diante do jovem com suas gírias, o narrador Hugo Mann também se desvia muito da chamada "norma culta" dos textos de Aurélio Buarque de Holanda.
Embora o romance se aproxime da abordagem naturalista, o narrador não segue os padrões do século XIX. Com freqüência a narrativa volta-se para si mesma, fazendo interrogações sobre seus aspectos mais obscuros e que causam maior estranheza, como o fato bizarro de existirem duas personagens com nome de Ângela, a 1 e a 2 (algo digno de Kafka):
"-- Qué isso? Estou falando de mim, a "saudável". Sei que análise ajuda gente como a Ângela, que é horrível vocês chamarem de "1", entre parênteses. "Parece troço de vegetal (4)."
Sendo assim, o próprio narrador parece ter consciência do efeito de absurdo que essa forma de dar nome aos personagens e procura amenizá-la referindo-se a seu processo de maneira explicativa.
O narrador Hugo Mann se refere pejorativamente à própria literatura brasileira. Embora seja algo como um "Malraux nietzschiano do Grajaú", como ele se queixa que a crítica o denominou, (ou seja, é um alguém que debate política e ideologia tendo como referência o pessimismo trágico) ele não aceita a definição. Mann ataca a esquerda, mas confraterniza a corrupção brasileira que critica. Sintomática é a atitude que tomou Mann diante da empregada Marlene, que, distraída em namorar, teria facilitado a entrada do marginal na casa de Sílvia: no final da narrativa, é o próprio Hugo que se envolve e deseja sexualmente a empregada doméstica de Sílvia. E justo de Sílvia, sua amada e que afirmou, em dado momento, que a esquerda precisava agir para "balançar essa senzala" (agitar o Brasil). Embora da "Casa Grande", o jornalista Hugo também ama ativamente na "senzala". Só deseja mudanças efetivas, deseja anular a esquerda; no mais, tudo bem que tudo fique como está.
Com o fim da Guerra Fria e a superação histórica da esquerda com a qual Hugo Mann troca sarcasmos, a parte mais viva e curiosa do romance nos pareceu justamente que ele deixa passagens irônicas, excrescências, passagens non sense. A referência da citação, que poderia ser a canção da Jovem Guarda, seria um romance de 67 sobre a luta armada:
"Jogo-a de lado. Igual a essa como 300 por dia, de sobremesa. Avanço. Espera, não, isso é Pessach: a Travessia, do Cony. Nada de plágios. Vago. Epa, epa, Editora Abril. "Realidade" no tempo da gente boa (5)."
Com freqüência, as frases de Hugo Mann lhe saem assim, barrocas, mesmo quando o estilo é modernista e telegráfico: são um pout-pourri incontrolável de referências e informações sobre as quais o próprio protagonista não parece ter todo o controle.
4. Conclusão
Cabeça de Negro é, concluímos, um romance de idéias que prescreve a inação para a esquerda, introduzindo o personagem do neoconservador na literatura brasileira na figura de um ambivalente jornalista chamado Hugo Mann. Esse é o seu grande mérito, prefigurando um tipo de discurso e de figura que se tornaria hegemônica no Brasil dos anos 90, dando, portanto, uma contribuição para que se possa compreender e combater melhor o perfil do profissional que trai a esquerda. Julgamos curiosas, também, algumas passagens onde o autor faz metalinguagem e deixa contradições ou elementos que não são claros, é o que resta de mais vivo no romance.
5. Notas e Referências
1. ONOFRE, José. As duas cabeças dos romances de Francis. Porto Alegre: Revista Oitenta, 1979.
2. FRANCIS. Paulo. Cabeça de Negro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979, p. 91
3.. Op. Cit. p. 175
4..Op. Cit. p. 123.
5. Op. Cit. p. 196.
© 2009 Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

