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A Broca Literária

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Cabeça de Hugo: um Romance de Idéias e o Personagem Neocon por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
No Metrô por Márcia Tondello
Uma Alucinante Viagem ao Submundo dos Transportes Públicos Cariocas por Felipe Attie
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Inquilinos na Embaixada do Céu por Luiz Mendes Junior
Bernardo, Cartas da Imprecisão e do Delírio por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
A Cabeça e a Bunda por Danielle Souza
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Pequeno Concerto para Ver no Celular e Escutar no Ifone por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
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Uma Macumba no Brasil por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
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Aconteceu Num Dia Quente de Verão por Luiz Mendes Junior
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Tropa de Elite: A Alienação Como Origem da Violência por Rafael Issa
02-01-06
A Boneca de Natalia Emery Trindade
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Cabeça de Hugo: um Romance de Idéias e o Personagem Neocon

por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Esse artigo analisa o romance Cabeça de Negro, de Paulo Francis, buscando um outro olhar a respeito dele: nós o analisamos como introdutor do personagem neoconservador na literatura brasileira. Buscou-se ressaltar as contradições ocultas em seu discurso, assim como a fala dos personagens da esquerda, em especial dois (Álvaro e Renata), que simbolizaram, de acordo com nossa leitura, as principais forças políticas de esquerda dos anos 60 e 70, os pacifistas do PCB e os dissidentes da guerrilha. Dentro do romance, Álvaro e Renata seriam pólos a partir dos quais o romance poderia ser melhor entendido.

1. Introdução

O romance Cabeça de Negro completa em 2009 trinta anos de seu lançamento. Ele se inicia com um crime, a morte de um marginal negro numa residência de classe média no Rio de Janeiro. Não se trata, supomos, de um romance policial nem político e sim de um romance de idéias. O romance analisado aqui é parte de um ciclo de romances que Francis escreveu e que foi iniciado em 1976 com Cabeça de Papel.

Logo de cara, quebra-se o possível suspense que um thriller policial exigiria: Sílvia, elitizada esposa do industrial Maneco, mata o marginal, cujo corpo fica na sala. O oponente de Hugo e Sílvia é vencido logo de início. Abre-se, então, espaço para extensos debates sobre idéias em geral, mas principalmente sexo, gastronomia, política nacional e internacional, literatura e história. Hugo, o narrador, focaliza as falas dos demais personagens conforme seu interesse: Álvaro propõe, com lucidez, politizar os marginais como o Cabeça de Negro, mas sua fala é soterrada pelo discurso negativo de Hugo. Igualmente, Renata é levada a concluir que não é possível uma revolução numa sociedade industrializada.

Hugo, embora articulado e inteligente, é uma máscara cruel de um certo tipo de jornalista: é racista, não paga impostos, vende favores para um empresário chamado Brucutu, serve de papagaio para banqueiros amigos, fecha-se num elitismo arrogante que destrói os argumentos dos participantes de seu círculo social. É de se supor que abandonará esse círculo onde está cada vez mais conhecido como um niilista “pedante, arrogante, estúpido”.

Há uma grande ambição de totalidade na narrativa onde Hugo Mann é ao mesmo tempo quase onipresente personagem e narrador. Há um clima geral de conspiração: qualquer um pode ser um agente da CIA ou da KGB disfarçado, assim como do regime militar. No romance policial tradicional, o debate político é posto em segundo plano e a solução do mistério ganha relevo. Ocorre, no romance que estamos estudando, justamente o inverso: a parte especificamente policial torna-se residual.

Mann nunca foi um militante esquerdista, apenas um empregado de jornais reacionários e sem maior expressão de Paulo Hesse, amigo muito próximo de Mann e ex-marido de Sílvia. No entanto, a morte de Hesse, ocorrida no primeiro romance do qual esse “Cabeça” é uma continuação, transformou Mann em alguém cruel. Ele passa a poder seduzir Sílvia, mas não o faz. Ele termina sem possuí-la: ela é um objeto de desejo inatingível: está em outro campo do espectro político e está casada com Maneco, empresário ligado ao regime militar e que faz jogo duplo.

2. Romance político: introduzindo o neocon na literatura brasileira

Suponho que esse romance, ao debater e descartar as idéias do PCB reformistas e de suas dissidências que pregavam a luta armada, funciona como um acerto de contas de um certo tipo de jornalista com a esquerda, com quem teve de se aliar no período militar. Os personagens de esquerda terminam muito mal: Renata, a politizada e refinada estudante de Medicina simpatizante da guerrilha suicidou-se e Álvaro, comunista culto e tolerante, vendeu-se ao regime. Embora tenha se compadecido do sofrimento de ambos, anteriormente, à altura da morte de Renata, rompeu com os dois. O jornalista encerra a narrativa caminhando para uma terceira posição, que supomos que é a neoconservadora.

O principal conflito fica aqui esboçado, igualmente: como fará a classe média que combateu o regime militar para conter a massa de miseráveis que a modernização do Brasil criou? Hugo nunca dá uma resposta, mas através de suas falas fica implícito que é através de uma maior repressão. Hugo, supomos, é o personagem do traidor da esquerda, o neoconservador, introduzido através desse romance na literatura brasileira. Não se trata de um desertor comum, mas de um ideólogo da deserção.

A visão de mundo de Hugo Mann era tão irreal em 1979 que ficou a impressão, para um ensaísta como José Onofre (1), de que o texto deixava em aberto se Hugo Mann delirava ou se sua visão de mundo de Paulo Francis era aquela mesmo. Ora, a ficção trata de mundos possíveis. Descartada a hipótese de que Cabeça de Negro seja um romance policial, não se deve chamá-lo de romance político, uma vez que a visão preponderante no texto é justamente contra a ação política. Hugo e Sílvia são os únicos personagens que possuem conteúdos positivos investidos: Hugo é inteligente e crítico, Sílvia é bonita, politizada e da alta classe. O “Cabeça de Negro”, marginal sem nome, é símbolo das massas despolitizadas, hordas de criminosos desorganizados prestes a destruir a burguesia irracionalmente, assim como hordas de bárbaros puseram abaixo o Império Romano.

O discurso sobre as chegada iminente das hordas é um discurso da nova direita, um discurso de neoconservadores. Um neocon é basicamente um traidor da esquerda. Nos EUA, foram originalmente um grupo reunido em torno dos intelectuais Kagan e Kristol e que advogava que tudo o que é bom para os EUA é bom para o mundo. Esses ex-trotsquistas praticaram um ativo anticomunismo, discurso com conteúdo moral religioso e postura unilateral na política externa. Para os neocons, o passado é exemplo histórico da boa sociedade, mas eles também prometem um futuro melhor com a hegemonia mundial norte-americana.

Permeado dessa ideologia, então novidade nos EUA, uma vez que de fato articulada e melhor divulgada a partir da saída desses intelectuais democratas da campanha de McGovern em 1972, o romance de Francis pretende-se diferente da “literatura brasileira”, uma literatura onde “contam-se os dedos dos pés das pessoas”, ou seja, uma literatura de minúcia detalhista com a qual a narrativa estaria rompendo. Ele advoga a normalidade de uma vida burguesa marcada apenas pela prática da caridade despolitizada, por um lado, enquanto por outro alerta para a necessidade de reprimir as massas marginalizadas, os “cabeças de negro” que podem destruir a civilização da Zona Sul e que devem, deixa então Hugo subentendido, ser reprimidos. Supomos que Cabeça de Negro é o primeiro romance da literatura brasileira a ter um personagem que traiu a esquerda e aderiu ao neoconservadorismo, então uma novidade recente: Hugo Mann.

Para o neocon aclimatado no Brasil, a questão social é caso de polícia. Hugo já é um neoconservador, já rompeu com a esquerda intimamente, mas ainda preserva amizades nesse círculo social – mas a ruptura e a passagem para a militância no outro lado é apenas questão de tempo: ele adverte várias vezes contra o estatismo dos “autênticos” do PMDB, dentre outras forças que considera nefastas, tais como os trotsquistas Juca e Mário. Quando lhe perguntam se prefere a inação, responde que sim, alegando preferir que a esquerda não aja do que pratique “amadorismo trapalhão”. Esse é o cerne da ideologia da não-ação que Mann alegremente prescreve. Ele destoa, por ser portador de uma ideologia diferente, dos personagens reacionários à moda antiga tais como Cruz e Dr. Agamenon, direitistas ligados ao catolicismo conservador e a Plínio Salgado: Mann não é católico nem nacionalista, sua simpatia está com os norte-americanos.

Os alvos preferenciais de Hugo, durante o romance, representam as forças políticas do espectro onde o jornalista se movimenta. O romance se encerra justamente com o conflito entre Álvaro e Renata: para poder voltar ao Brasil e se reinstalar, o comunista dedurou a esquerda guerrilheira, auge da tensão, bem maior, aliás, do que o assassinato do marginal “Cabeça de Negro”, símbolo das massas despolitizadas. A morte do pobre é recebida com frieza e piada por Hugo Mann, mas a morte da bela intelectual ligada à guerrilha o faz rebelar-se contra Álvaro, o delator, a quem surra, e matar Maneco, cínico industrial e personagem que, ligado ao poder, manipula a todos a seu redor. Ele é o traidor e o grande vilão do romance, mas termina assassinado por Hugo Mann. Posteriormente, no livro que deixou inédito, Carne Viva, Francis focalizou justamente a vida de um grande industrial, um banqueiro.