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Uma Alucinante Viagem ao Submundo dos Transportes Públicos Cariocas
por Felipe Attie
Antes de concluir a curta subida de três degraus, você já nota que está entrando em um genuíno ônibus carioca. O ar rançoso e pesado, acompanhado do ambiente sujo e embalado pela trilha sonora de um motor capenga prestes a explodir, alerta para os riscos que sua vida corre dali em diante. Conforme o ônibus percorre as estradas esburacadas do Rio de Janeiro, seu sacolejar transmite a sensação de que, a qualquer momento, tudo vai desabar resultando numa sangrenta manchete de jornal. Só lhe resta orar para que o corpo gordo e molenga da velha sentada a sua frente amorteça sua queda e livre sua cabeça de um choque contra o asfalto.
Andar de transporte público no Rio de Janeiro é uma aventura. A partir do momento em que você paga a passagem e passa pela roleta, tudo pode acontecer, desde assaltos e seqüestros, a batidas e “blitz” policiais. A falta de manutenção dos veículos é sua principal característica e todos os cariocas já estão acostumados com a idéia de poder morrer durante uma simples viagem entre bairros. Os comentários feitos por motoristas e trocadores reforçam essa realidade: “Esse é um dos nossos melhores carros” afirmou, certa vez, o motorista do ônibus onde eu viajava. “Seu único problema é o radiador que está estourado e o pneu traseiro que soltou semana passada, enquanto eu fazia uma curva. Fora isso, esse carro é show!”, exclamou, dando suaves tapas no volante. “Mas já está tudo sob controle. Um dos mecânicos fez um gatilho esperto no radiador, dá pra agüentar mais uma ou duas viagens, acho. Quanto ao pneu traseiro, nós pegamos dois parafusos do dianteiro esquerdo e usamos para prendê-lo.”
Não se assuste se durante o trajeto você ouvir gritos e porradas sendo aplicadas nas janelas, pois são só tentativas frustradas de avisar o motorista que uma parada é solicitada. Mas ele nunca ouve e, conseqüentemente, nunca pára. Motoristas de ônibus só param mesmo nos sinais ao lado dos vendedores de cerveja. Afinal, dirigir embriagado não deve ser tão diferente da postura indelicada e apática que todos sustentam no semblante.

Encontrar um lugar para sentar é uma utopia. Conheço pessoas que andam de ônibus diariamente e não se lembram da última vez em que sentiram a textura de suas duras e desconfortáveis poltronas. Para você conseguir se sentar é necessário disputar socos e cotoveladas com algum passageiro e, caso saia vitorioso, te aconselho a guardar seu assento como se fosse a vida, não o cedendo sequer a um idoso ou perneta. Afinal, todas as lições de bom costume que você aprendeu quando criança não se aplicam dentro de um ônibus carioca. Lá existem leis próprias, que se assemelham muito ao velho-oeste. Exemplo disso foi o evento que vivenciei, numa de minhas viagens rotineiras.
“A documentação do veículo, por favor”, pediu o policial, parando o ônibus em que eu viajava rumo ao trabalho. Ao ouvir o pedido do policial, um toque de premonição me fez crer que aquilo não resultaria em boa coisa, e a expressão de espanto na face do motorista, acompanhada da sua voz arranhada por tabaco, confirmou o que eu temia: “Ih! Não tem documento, não, seu guarda!”
“Como assim?”, perguntou o policial, surpreso como se não conhecesse os transportes públicos do Rio.
“Há muito tempo que esse ônibus não tem documentação, meu chefe”, confessou o motorista.
“Desce todo mundo”, disse o policial, apontando o fuzil para a porta de saída. “Esse veículo ta apreendido”.
Assim que fui convidado a me retirar do ônibus, fiz valer meus utópicos direitos de cidadão, indo até o guarda e questionando-o sobre a possibilidade de ter o valor da minha passagem reembolsado. Ao me ouvir, além de gargalhar de deboche, o soldadinho disse que esse era um problema entre eu e a empresa de ônibus, que ele não tinha poder para fazer a trocadora devolver as passagens aos donos e, olhando para mim, munido de seu expressivo fuzil, finalizou: “Resolva com ela.”
“Por favor, quero meu dinheiro”, pedi, me esforçado ao máximo para soar educado.
“Isso não posso fazer”, respondeu confiante, a trocadora.
“Como assim?”, perguntei atônito. “Preciso ir trabalhar!”
“Infelizmente, não tenho autorização para devolver seu dinheiro.”
“Ok”, concordei, puxando do caixa o máximo de notas que coube em minha mão.
Ao presenciar meu furto, a trocadora não pôde fazer nada a não ser gritar: “Ladrão! Ladrão!”
Em questão de segundos, vi-me cercado por soldadinhos me apontando seus pertinentes fuzis, tentando resolver a situação sem causar mortes — o que, por incrível que pareça, é muito difícil para a polícia carioca.
O caso se estendeu até um dos policiais nos levar a delegacia. Aceitei de bom grado, afinal, para quem anda de ônibus no Rio, nada parece intimidador o suficiente. Óbvio que nada aconteceu, além de dez minutos de sermão policial e o motorista ter sua carteira apreendida por dirigir sem documentação.
Fui liberado após autografar um livro de capa verde que até hoje não sei para que serve, enquanto a trocadora e o motorista permaneceram de molho à espera do representante da empresa. Minha passagem não foi devolvida, mas, por outro lado, assim que saí da delegacia, meti a mão no bolso e contei o quanto de dinheiro ainda permanecia comigo após eu devolver só parte do que roubei. “Acho que dá para algumas cervejas”, foi o que lembro ter pensado.
Enfim, andar de ônibus no Rio de Janeiro é uma grande aventura. Capotagens, assaltos, batidas, blitz… Você tem que estar preparado para tudo! Mas, no fim, se tiver um pouco de sorte, tudo termina em porre!
© 2009 Felipe Attie

