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Inquilinos na Embaixada do Céu
por Luiz Mendes Junior

O homem é movido a ilusões. Sem elas, sua existência se esmaece e cai no vazio. Não é por nada que a mente, tão logo perde um sustentáculo ilusório, ampara-se em outro, buscando manter a chama da vontade acesa e seguir acreditando. E, como os indivíduos, as sociedades fazem o mesmo. Iludem-se ou aos seus.
Uma das bolas da vez atuais chama-se "Spa da Alma". O Spa da Alma é um estabelecimento, em geral um casarão, que deve servir como refúgio à vida corrida e barulhenta da cidade. São centros de recuperação mental, física e espiritual onde o silêncio marca presença e o tempo anda devagar. Por horas, o refugiado recém-chegado do inferno pode esquecer-se de onde está. Viajar a um oriente místico que, embora artificial e simplório, talvez lhe devolva parte da serenidade.
Ele entra. Relaxa. Um CD simula canções indianas na sala de espera e uma atendente de voz suave pede que preencha um formulário e pague sua consulta. O refugiado lembra que não está no céu, só num simulador, e que a sala de espera é o estágio de transição entre o mundo que o ataca e a ilusão que procura. Alguém diz a este narrador que uma revolução também ocorre de dentro para fora, e que o objetivo do Spa é propiciá-la, trazendo o individuo de volta a si. Que mal haveria nisso?
Consulta paga, refugiado usufrui a instalação – que conta com variados profissionais mente-corpo, desde psiquiatras e hipnólogos até experts em yoga, pilates e massagem indiana. Disciplinas orientais e ocidentais mescladas para o bem. Cheiro de incenso, uma porta aberta, refugiado e refúgio se encontrando. O instrutor pedindo que relaxe e se deixe levar por palavras até atingir o transe. Inconsciente; ausência de tempo, uma hora de céu e...
"Pam, Pam, Pam"...!
O estrondo de um bate-estaca lá fora. As paredes do spa são muito finas para bloquear o som, que, em contrapartida, abafa o CD, neutraliza o incenso e faz todo aquele cenário sucumbir. Despertam-se os nervos do refugiado e o instrutor tenta consolá-los.
– É essa obra aí que está criando um contratempo, mas é só uma semaninha.
E daí? O homem não tem uma semana. Sua sessão acaba em uma hora.
– Vamos esperar mais um pouco. Se o som diminuir, continuamos.
O Bate-estaca finge que pára de vez em quando, mas volta. A aula de yoga do Spa segue seu curso, mas ninguém se concentra. A de pilates resiste, com alunos e instrutor desnorteados, fingindo que nada acontece. A palestrante do curso de PNL firma o sorriso, e a porrada da obra torna suas palavras e o humor de todo mundo mais azedo. A embaixada do céu é de vidro. Na casa do capital, quem manda é a ganância, independente de seus disfarces. Suas regras são claras e o prédio em construção lá fora abrigará um hospital e um centro de reabilitação "caça-níqueis", mas por enquanto ele é um chato incomodando dois inquilinos.
O chato tem nomes. Vários. É dono do imóvel "inferno" e assiste ao jogão do Náutico contra o XV de Piracicaba no Pay Per View em volume máximo. Oriente e espírito de arte são os inquilinos que com ele partilham teto. Querem se concentrar no quarto ao lado e reclamam, no que o chato responde:
– Vamo calá a boca aí os dois que eu mando nessa porra e vocês moram aqui de favor. Para viver aqui, tem que trazer cascalho e obedecer. Se continuar reclamando, boto os dois no olho da rua.
Os inquilinos da embaixada do céu obedecem. São o humanismo do capitalismo. Viram-se como podem numa terra que não é sua. Sem meios ou coragem para romper com o senhorio, tornam-se peões em seu jogo, o instrumento de controle mais sofisticado do inferno.
Com este humanismo em mãos, o diabo torna seu lar mais "rico" e completo, cria e controla os sonhos dos condenados, prove-lhes de ilusão, esperança, redireciona seus focos de desejo. Potência vira impotência. Os ímpetos que deveriam ir de encontro às paredes do cárcere, convergem rumo ao centro, usando a força das vítimas para amarrá-las.
Sim, o refugiado está aborrecido, não conseguiu o que queria; mas sua consulta foi paga, ele aceita as desculpas do instrutor, compra caixas de incenso importado industrializado, CDs de música indiana e uma edição do "Ser feliz só depende de você". Entre os anjos que habitam o inferno, muitos se converteram ao mal e perderam a capacidade de voar. Outros ainda voam, mas o longo tempo auxiliando o trabalho do senhorio os deformou a ponto de torná-los ineficazes e irreconhecíveis. Além destes, há um grupo de anjos frustrados que usa seus dons de modo difuso. Quando não atrapalha sem querer, consegue ajudar, mas abaixo do que pode. Por fim, uma minoria dos anjos do inferno soube manter sua essência. Transformou agonia em força, aprendeu a enganar o diabo, usar suas armas contra ele, travestir-se de ovelha e virar pastor a suas costas. Reconhecê-los, poucos podem. Sua fortaleza é não ceder à hostilidade, não mudar para agradar, não se perder nos labirintos do paraíso atrás dos frutos ocos. Seguem seu caminho sem esperar gratidão. Sabem que uma alma iluminada vale dez perdidas e investem em qualidade quando recrutam. Fazem-no com esmero, doutrinam com paciência. Criam discípulos em vez de ovelhas, diferentemente dos maus pastores.
Nos muros do inferno, brechas são abertas todo dia, mas a maioria mal percebe ou tem peito para atravessar. Prefere os centros de ilusão, onde um clone temporário de felicidade custa um pedaço da alma. Vivenciam o flagelo das ovelhas, sonhando com o dia de São Nunca.
Amanhã, o refugiado do "Spa" voltará com os demais. Pagará sua consulta, ouvirá o bate-estaca e reconhecerá que, dentro ou fora da embaixada do céu, ele é só um inquilino com dívidas, rancor e pavor.

© 2009 Luiz Mendes Junior

