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O Fardo
por Marcello Trigo

Faltavam cinco para as seis, hora em que todo mundo já estava se arrumando para sair do escritório, quando o secretário-executivo da seção chamou pelo funcionário Borba.
- Borba! — fizera a voz do chefe, enlatada no ramal interno — Venha até minha sala, agora.
- Sim, senhor.
Borba, o funcionário exemplar, deu a volta em sua escrivaninha e foi bater à porta do chefe. Lá de dentro, a permissão para que entrasse veio após a segunda batida.
- Entre, Borba. Tenho um serviço pra você.
O funcionário entrou, fechou a porta e aproximou-se da mesa do secretário-executivo, apanhando uma folha de rascunho que este lhe estendia.
Depois de lê-la rapidamente, Borba observou:
- Materiais de limpeza.
- Sim — anuiu o chefe — E na parte de cima está o número do Atacado Pereira. Quero que você ligue e peça os itens da lista. Consegue entender minha letra?
Borba disse que sim com a cabeça.
- Bem — continuou o outro — Estamos precisando do material para abastecer nossa sede do camping dos funcionários, lá no Balneário. As faxineiras vão começar o trabalho de limpeza bem cedo amanhã, e alguns produtos estão faltando.
Borba olhou para a lista, um conjunto de linhas rascunhadas às pressas com caneta azul.
- Ligue para o Atacado agora, Borba. Encomende o material. E vá depressa, se não acaba pegando o Pereira fechado. Tem horas aí?
- Seis horas, senhor.
- Droga — respondeu o chefe, levantando-se — vou chegar atrasado no fisioterapeuta. Você pode apagar as luzes e fechar a porta da repartição quando sair?
- Posso, senhor.
- Aqui estão as chaves.
Quando o chefe saiu, batendo a porta atrás de si, Borba já estava em sua mesa, olhando para o telefone. A lista de encomendas, aberta ao lado do aparelho, não era grande:
1 caixa de sabão em pó de 5Kg.
5 sacos de pano de chão, branco.
2 garrafas de dois litros de água sanitária.
2 garrafas de dois litros de essência de eucalipto.
10 sacos de lixo de dez litros.
10 sacos de lixo de quinze litros.
Atacado Pereira
fone 5556-5241
Borba ergueu os olhos para o grande relógio pendurado na parede ao fundo. Os grossos ponteiros de plástico, desenhando dedos negros destacados sobre um branco amarelado, indicavam o número seis com o menor e dez com o maior. As mesas enfileiradas estavam todas vazias.
Os colegas de escritório distribuíam-se pelos quatro largos elevadores, voltando para casa naquela mesma hora, e ele, Borba, estava ali feito um paspalho, servindo ao canalha do chefe como um cão treinado.
- Vamos lá, imbecil — disse ele, tirando o telefone do gancho — Tudo pra chamar a atenção.
Discou o número e aguardou.
- Vamos, atende aí.
Ninguém atendia, parecia que o Pereira também já havia fechado. Então, quando Borba já estava para desistir…
- Alô?
- Olá. É do Atacado?
- Sim.
- Quem está falando? — perguntou Borba.
- Moacir. Em que posso ser útil?
- Aqui é o Borba. Desculpe ligar a essas horas. Pensei que já estivesse fechado.
- Não se preocupe. Em que posso ser útil? — insistiu o outro.
- Aqui é da Repartição. Temos uma ficha aí com vocês, pra fazer encomendas.
- Sim.
- Tenho aqui uma lista de coisas que estamos precisando. Vocês levam até o cliente, ou temos que ir buscar?
- Nós levamos, senhor. Já temos o endereço do camping de vocês; no Balneário, não é mesmo?
Como uma gorda lua cheia, o relógio agora tinha seus ponteiros um pouco mais juntos. Borba agilizou:
- Aí vai a lista — disse, limpando a garganta.
- Espere um minuto, vou pegar bloco e caneta.
- Sim.
Ao telefone, apenas o silêncio:
- …
- Alô? — fez Borba.
- …
- Alô? — fez, novamente.
- …
- Onde será que foi o idiota?
- Estou aqui… Pode dizer, senhor.
O funcionário exemplar recomeçou:
- Uma caixa de sabão em pó.
- Sabão… em pó. Uma?
- Isso.
- OK.
- Cinco sacos de pano de chão.
- Tipo flanela?
- Não, brancos.
- Pano de chão… tipo flanela… branca.
- E… O que você escreveu?
- Flanela branca.
- Não, não é isso. É pano de chão comum, sabe. Pano de chão, branco.
- Certo. Pode continuar.
- Duas garrafinhas de água sanitária.
- Água… sanitária. Certo.
- E também…
- Não sei por que o senhor não quer as flanelas — fez Moacir de repente, interrompendo o funcionário exemplar.
- Como disse?
- Nada… duas garrafinhas e mais o quê?
- Espere — disse Borba — Você me fez uma pergunta.
- Que pergunta?
Borba insistiu:
- Se eu disse que não são flanelas, não anote flanelas, sim?
- Claro.
Alguma coisa estava errada, Borba podia senti-lo. Algo como uma falta de… ou o excesso de… não sabia. Mas alguma coisa estava errada, tinha certeza. Mesmo assim continuou a ditar, tomando cuidado para que não se confundisse novamente.
- Duas garrafas de essência de eucalipto.

O atendente Moacir somou:
- Quatro garrafas?
- Sim… — Borba pensou melhor — não!
- O que foi?
- Quatro garrafas, sim. Mas não todas do mesmo produto!
- Como assim?
- Duas garrafas de uma coisa. E duas de outra.
- Espere. Qual é qual?
- Duas de água sanitária, e duas de essência.
- Essência de água sanitária?
- Não, essência de eucalipto.
- Ah, certo. Eu… ca… lipto. O que mais?
Estava sendo muito mais difícil do que imaginara. No fundo da sala, os ponteiros já haviam se encontrado, e se separado.
- Deixe-me ver — continuou o funcionário exemplar — Agora preciso de alguns sacos de lixo. Você tem?
- De todas as cores e tamanhos.
Isso era bom, pensou, pegando a lista na mão esquerda e bufando perceptivelmente.
- Dez sacos de lixo de dez litros, e dez sacos de quinze.
- Certo. Vinte sacos de lixo — disse Moacir.
- De dez litros, e de quinze litros.
- O quê…?
- Como o quê? Os sacos.
- Cada um tem cinqüenta sacos, senhor. Vai querer quinhentos sacos?
- Não. Dez de cada tipo.
- De cada tipo?
- Sim. De quinze, e dez litros.
- 750 sacos e 500 sacos, então.
- Não, amigo. Quinze, e dez. LITROS, não sacos.
- Entendi. Quinze sacos de quinze litros e…
- Não, não é isso. Calma. Vamos tentar de novo, tudo bem?
- Comigo, tudo. E com o senhor?
- Veja bem: dez sacos de quinze litros, e depois, dez sacos de dez litros.
- Certo. Só que cada saco que vendemos possui cinqüenta unidades.
- Então!
- Então o quê?
- Vou querer apenas dez.
- Dez sacos?
- Sim.
- Então são 500?
- Não!
- Espere um momento. Agora, com o perdão do trocadilho, saquei… eu não havia entendido o senhor, mas agora compreendo.
- Compreende?
- Claro! Somando as unidades, o senhor quer sacos de mil duzentos e cinqüenta litros.
- Mil… como?
- Somando tudo, é o que dá.
- Não!
- Está me dizendo que eu não sei somar?
- Eu não quero isso. São apenas quinze, e dez sacos. Isso dá vinte e cinco. Não sei de onde você tirou o valor que acabou de dizer.
- Cada saco tem 50 unidades, senhor. Já que são vinte e cinco, então dá… 1250 litros. Não temos sacos tão grandes, senhor. O que o senhor pretende jogar fora, uma caixa d’água?
- Não!
- Uma piscina?
- Ora, mas porque é tão difícil de entender? Será que eu falo grego?
- Não, o senhor não fala grego. Tenho uma tia que morou nas ilhas gregas quatro anos, sabe. Ela fala em grego muito bem. Mas o senhor não está falando em grego, pois se estivesse eu saberia.
O relógio da repartição deixava três espaços agora entre o ponteiro grande e o número doze. Em breve, seriam sete horas.
- Olhe aqui amigo — disse Borba — Eu estou pedindo que você, delicadamente, gentilmente, atenciosamente, arranje-me alguns sacos de lixo. Alguns míseros saquinhos, só isso… não acho que seja pedir muito. Então, porque não corta a conversa fiada, e reúne os sacos logo de uma vez?
- O senhor está nervoso?
- Não, seu filho da puta. Eu estou ótimo. Mas o corno do meu chefe me pediu pra comprar essa droga de material de limpeza, e o funcionário do atacado é um palerma que não entende o número de sacos de lixo que eu desejo encomendar.
- …
- Onde é que eu fui amarrar a minha burra? — indagou Borba, a si mesmo.
- …
- Pronto, agora ele deve ter caído e batido com a cabeça. Alô!
- Voltei, senhor — disse o outro — Tinha ido ver as horas.
- Então — resmungou Borba — notou o quanto você está me atrasando…
- Bem, senhor. Eu estava quase saindo quando o senhor ligou pra cá. Também tenho vontade de ir embora.
Acontece que estamos nos desentendendo por causa de uma simples diferença entre sacos e fardos.
Borba franziu a testa.
- Pra mim, fardo é o senhor!
- E o senhor é um estúpido.
- E o senhor, um idiota.
- Diga-me uma coisa. Como é ser um perfeito tapado?
- Mais ou menos como ser a sua mãe.
- Espere… estamos parecendo duas crianças.
- …
- Olhe, não acho que dois adultos devam se portar dessa maneira. Vamos parar, sim?
- Agora que o senhor vê quem está certo aqui, eu paro.
- Ninguém está certo ou errado, só estou pedindo que nos portemos como dois homens crescidos. Tudo bem?
- Tudo, tudo bem. Então, eu paro.
- Pára mesmo?
- Sim. Tivemos um dia cheio. Desculpe.
- É, não sei como foi para o senhor, mas para mim foi um dia realmente estafante.
- Desculpe mesmo.
- Já disse que tudo bem.
- Você anotou as coisas?
- Sim.
- Então… vocês levam até o camping?
- Sim, senhor — respondeu Borba.
- Certo — disse Moacir — tenha uma boa noite e desculpe por ter ligado aí para o Atacado tão tarde.
- Tudo certo — respondeu Borba — aqui nós trabalhamos para agradar o cliente!
- Até mais.
- Adeus.
Houve um clique, e o outro desligou. Moacir ergueu os olhos para o grande relógio no fundo do escritório, eram sete e meia.
Antes de sair, apagou todas as luzes, trancou a porta da Repartição e descobriu que seu nome era Moacir. Não devia estar ali, concordam?

© 2009 Marcello Trigo

