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A Broca Literária

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O Infante

por Liliane Reis

castelo de ilha em Parati

Fez-se dia na imensa catedral, quando as portas se abriram num ranger tímido e permitiram que a Luz e a Graça Divinas invadissem aquele templo, justo como deveria ser. Pois aquela criança, pensara o monarca, não poderia ser menos que um querubim, um mensageiro do Senhor que vinha trazer esperança a seus olhos rasos de lágrimas. Era um sinal, uma indicação que as glórias passadas daquele reino retornariam.

Tomou o pequeno nos braços, caindo em prantos ao ouvir a voz de seda murmurar qualquer coisa como "então és meu pai?", numa língua tão distante quanto suas lembranças. Extasiado, o rei afagou-lhe os cabelos louros e sorriu-lhe com ternura; não havia dúvidas de que haviam encontrado, enfim, seu amor estrangeiro.

"Onde está tua mãe, criança?"

O menino não respondeu, limitando-se a um pranto que mantivera contido por tempo demais. Veio a mulher que lhe serviria de ama e, pegando-o pela delicada mão, o conduziu para um dos bancos, onde poderia se recompor. O rei, atordoado, correu às portas da catedral, disposto a ter com seus homens que, do lado de fora, aguardavam. Queria saber do garoto, de seu achado e, afinal, do que se sucedera com a mãe — e que dor lancinante trespassou seu peito quando teve a confirmação de sua morte. Mil vezes ter vivido até o fim de seus dias perdido na dúvida a ter a certeza de que ela não vivia mais, pensou, mas caiu em si tão logo pôs os olhos sobre a criança — seu filho — que se esgueirava por entre os portais como um pequeno gato acuado. Os lábios de pétala de rosa tremeram em um "pai", antes que ele corresse a agarrar-lhe a manga, puxando-a de leve, numa súplica muda por atenção. E, por Deus, como seus olhos de oceano eram idênticos aos dela!

Soube naquele instante que vivia, afinal, para ele. Vivia para aquele que fora enviado dos céus, em nome do Senhor, através da mulher que tanto amara.

Espalhou-se pelo reino a palavra: diziam do rei e do anjo salvador que ele escondia entre as muralhas do palácio, cantavam a beleza e a graça da benfazeja criatura que devolvera o ânimo ao governante e quiçá traria de volta a boa fortuna àquele povo. Mas mesmo entre os corredores palacianos, pouco se sabia acerca do menino. Das histórias correntes, a mais crível girava em torno de uma paixão que o rei encontrara em tempos de guerra, uma dama que tivera de deixar para trás. Especulavam também sobre o descontentamento da rainha, que passava mais tempo que nunca reunida a seus filhos — menino e menina, ambos mais velhos e mais instruídos que o novo tesouro do rei. Era uma mulher astuta, que sabia bem o perigo representado pelo novo sopro de vida que se apossara de seu esposo. A seu canto, tramava, como julgava que uma boa mãe deveria fazer por seus rebentos.

O rei, por sua vez, ocupava-se quase tão somente em envolver seu menino com mimos e prendas. Exigiu que lhe fizessem trajes purpúreos brocados, botas do couro mais fino e anéis para adornar os dedos de cera; deu-lhe ainda uma delicada coroa de folhas douradas, que se mesclavam às ondas de seus cabelos. E, se antes o garoto era dotado de uma beleza natural, agora decerto faria com que qualquer deus pagão se curvasse em derrota. Cercou-o também de cuidados, evitando que seu pequeno príncipe tivesse contato com quem quer que fosse; instalou-o em aposentos adjacentes aos seus, tornando o acesso a ele absolutamente restrito. O soberano preferiu tomar conta de sua instrução, afastando-se do menino apenas quando necessário — era quando o deixava aos cuidados da ama, única outra pessoa ali a dominar a língua das terras de onde o pequeno vinha. No que dependesse do rei, pois, ele jamais aprenderia a falar como o povo que regeria. Estava muito acima disso.

Com o decorrer dos anos, poucos foram os avanços no que se referia às informações correntes sobre o preferido do rei. Comentavam do fantasma belo e branco que vagava pelas galerias quando não havia ninguém que pudesse vê-lo, murmurando tristes cantigas que ninguém poderia compreender. Falavam do rei que quase nunca abandonava o quarto — mas quem poderia condená-lo, sabendo do Narciso que lá escondia? Cada vez mais o rei se encantava com os dons do belo moço em que se tornava o fruto de seu amor. A inteligência que se mesclava à candura que jamais se perdia, o perfil de estátua de mármore que surpreendia ao revelar-se numa pele macia e perfumada a óleo. De forma alguma o rei poderia dividir uma preciosidade daquelas com aquelas formas de vida mesquinhas que circulavam do lado de fora. Afastou a ama e deu ordens de isolar aquele quadrante do palácio. E não deixou de ver poesia na aparente tristeza que se abatia sobre aqueles olhos da cor do mar bravio.

Vieram as primeiras palavras sobre sucessão. Correu a boca pequena a história de que o rei enlouquecera, de que já era tempo do trono ser entregue ao mais velho. Como ainda assim ele era jovem demais para governar, o poder estaria temporariamente nas mãos da rainha — e, quando a história chegou aos ouvidos do rei, pareceu-lhe bastante óbvio que quem semeara tamanha infâmia fora ela. Encheu-se de fúria o coração do monarca, ao pensar na serpente que acolhera. Como, então, ela ousava questionar a justeza de seus atos, a clareza de seus ideais? Pois não era óbvio que ele cultivava a mais bela flor, e que isto demandava todo o cuidado? Não deixaria que qualquer abutre se aproximasse do seu anjo antes que ele mesmo fosse capaz de se defender. E a regra, agora, valia principalmente para aquela mulher desprezível e os dois parasitas que ela carregava consigo — ou seriam três?

O rei contou a seu protegido o que se passava, em linhas gerais. Sorria enquanto lhe afagava os cabelos, enrolando um cacho em seu dedo, prometendo um fim adequado àquela situação. A aflição e as súplicas do rapazote apenas o embeveciam, convencendo-o do espírito nobre que soubera cultivar. "Rogo-te, meu pai: deixa-o governar, deixa-o viver!", implorava o jovem no idioma que, àquela altura, apenas o rei podia entender. A única resposta ao pedido, porém, era um riso satisfeito, encantado com a inocência que demonstrava.

Com homens comprados, intrigas plantadas e poder inquestionável, o monarca condenou a mulher por traição, bem como os filhos que ela pusera no mundo. Com eles mortos, tratou de convencer seu povo da verdade que ele mesmo já conhecia muito bem: em seus domínios havia um ser enviado pelos céus, prestes a erguer-se e fazer daquele reino o Paraíso na terra. Nada mais justo, portanto, que fosse a ele conferido o direito natural de conduzir aquele estado. E quem quer que ousasse contrariar os desígnios do Senhor que se manifestava através de suas mãos teria o mesmo destino ingrato dos difamadores. O povo ergueu-se e cantou o futuro rei, como haveria de ser.

Os olhos da cor do oceano perdiam-se em lágrimas. O rei achou extremamente adorável, mas pouco prático, que seu menino chorasse por quem jamais vira. E quando ele replicou que lhe doía carregar crimes nas costas, seu pranto foi tomado por ingenuidade. Decerto muito ainda havia a ensinar àquela criança, tão inocente que não compreendia que há justiça na morte.

Meses transcorriam, mas o moço negava-se cada vez mais a deixar a cama. Após alguns dias de estudos intensos, passava longos períodos deitado, fitando o nada que se ocultava entre as dobras do cortinado. O rei velava por ele e lhe admirava a perfeição da nudez, a pele alva demais para ser real. Tentava mesmo reanimar seu querido anjo, trazendo-lhe presentes cada vez mais exóticos — de tecidos vindos do outro lado do oceano até pássaros de plumas coloridas e cristas altas. "Rogo-te outra vez: deixa-me partir, deixa-me viver", implorava o rapaz, a voz de seda oscilando na garganta seca. Com um sorriso calmo, porém, o rei replicava que ele era necessário; que ele era amado e esperado demais para poder partir. Que ele era mais que um sinal, era a salvação. A isso, o jovem não tinha resposta além de um suspiro prolongado.

Aos poucos, aquela ala do palácio passou a ser considerada de mau agouro. Os criados a evitavam ao máximo, temendo que qualquer intervenção sua pudesse ser tida como uma espécie de impedimento à vontade divina. E alguns chegavam mesmo a temer o ser sagrado que ali se encerrava, tamanha era sua influência sobre o rei. Voltavam a murmurar boatos pelos cantos, que cresciam em absurdo até darem conta de um demônio que se ocultava sob uma máscara de beleza, enquanto condenava o rei à loucura e todo seu reino à danação. Conforme não viam mais seu senhor, os homens temiam, a mobilização espalhando-se do pátio central às muralhas, e dali alcançando ruelas e praças. Queriam seu soberano de volta.

Ergueram as armas os soldados, um pequeno grupo destacado para perscrutar os corredores aparentemente abandonados. Em sua busca, não encontraram nada enquanto não alcançaram os aposentos adjacentes aos do rei. Ali, sobre a cama, jazia o corpo magro e abatido daquele que um dia os comandara; parecia ter morrido durante o sono e, não fosse a posição fúnebre em que se encontrava, dir-se-ia que estava perdido em um agradável sonho. A outro canto do quarto, porém, encolhia-se o corpo esguio daquele que haveria de ser anjo ou demônio — junto ao que fora um grande espelho, a pele branca dos braços tomada por riscas e salpicos rubros. Seus olhos, agora cinzentos e opacos, carregaram de uma agonia terrível os corações daqueles homens que, no entanto, não foram capazes de entender o que ele deixara para trás. Pois, se uma das mãos agarrava com firmeza um dos maiores cacos do vidro estilhaçado, os dedos finos da outra envolviam um pequeno pedaço de papel. E era onde, apesar das manchas de sangue, a letra clara e bem desenhada afirmava, em uma língua que ninguém mais compreenderia: "eu abdico".

castelo de ilha em Parati

© Liliane Reis 2008