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A Broca Literária

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Um Filme além das Chinelas: A Batalha do Estreito de Hormuz por Jim Chaffee
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Num Beco Imundo com um MagnaCord por Marcello Trigo
Sobre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário por Giovani Iemini
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Porrada por Luiz Mendes Junior
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Silvia, a Cachorra por Carlos Cruz
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Teófilo Veríssimo – Esfinge por Beto Garcia
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Sinfonia 1: Roger Castleman por John Grochalski
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Carmen Miranda e Wittgenstein por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
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Cabeça de Hugo: um Romance de Idéias e o Personagem Neocon por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
No Metrô por Márcia Tondello
Uma Alucinante Viagem ao Submundo dos Transportes Públicos Cariocas por Felipe Attie
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Inquilinos na Embaixada do Céu por Luiz Mendes Junior
Bernardo, Cartas da Imprecisão e do Delírio por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
A Cabeça e a Bunda por Danielle Souza
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Raimunda por Carlos Cruz
Pequeno Concerto para Ver no Celular e Escutar no Ifone por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
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O Infante por Liliane Reis
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Eurípedes Crotho, um Escroque por Allan Pitz
Uma Macumba no Brasil por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Uma Análise do Filme Tempo de Guerra (1963) por Rafael Issa
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Feijoada do Repete por Priscila Biancovilli
A Menina que Fazia Chover por Frodo Oliveira
08-15-2008
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Sobrevivência por Priscila Biancovilli
A Religião como Ilusão no Pensamento por Rafael Issa
Anonimato em Crise por Luiz Mendes Junior
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A Vida é uma Porra com Juros por Luiz Filho
A Noite das Sanguessugas por Jim Chaffee
Cicatrizes Urbanas, Massa de Gente e de Luz por Thomas R. P. de Oliveira
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Um Pedido a Carlos Cruz por Juliano Guerra
Komodo por Eduardo Frota
Em Nome da Fome por Zé Ignacio Mendes
O Engarrafado por Roberto Afonso
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Sete por Marcello Trigo
E agora, Jaime? por Luiz Mendes Junior
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Canção de Ninar por Liliane Reis
Vender é preciso por Dani Nedal
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Ensaio fotográfico: Banho coletivo por Jim Chaffee
Lua Vermelha por Liliane Reis
Manequim por Eduardo Frota
Um Pulo para o Amor por Gilberto Griesbach Junior
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Mensagem de Natal do Diretor Executivo por Sonia Ramos Rossi
Reflexo por Patricia Azeredo
Esdruxulidades por Priscila Biancovilli
A Ordem Natural das Coisas por Eduardo Frota
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O Assassino de Três Corações por Alexandre D´Assumpção
Aconteceu Num Dia Quente de Verão por Luiz Mendes Junior
Senhora Lia por Natalia Emery Trindade
Tropa de Elite: A Alienação Como Origem da Violência por Rafael Issa
02-01-06
A Boneca de Natalia Emery Trindade
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Uma Macumba no Brasil

por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Ouro Preto

Diário

2/07/01

Albert chegará hoje aqui em casa com dois amigos, Jean-Luc e Bernard. Todos vindos de Toulouse, França. Daqui iremos para Bom Despacho, cidade próxima, onde eles, com formação em antropologia, querem ver a festa de Reinado e visitar um Centro Espírita Umbandista, algo que nós conhecemos como terreiro de macumba. Albert veio rever uma moça que namorou na França, uma franco-brasileira chamada Julie.

3/07/01

Saímos de carro. Jean-Luc foi dirigindo com a carteira francesa mesmo, pois é muita burocracia que existe para traduzir a carteira para o português, além de ser caro. Antes, vamos passar em Congonhas e Ouro Preto. Bernard morou muito tempo em Paris e se considera parisiense. Albert e Jean-Luc detestam Paris. “Lá vive uma super-elite. Paris, “faisse la gorge!”, diz Albert, que seria algo como “Paris, todo mundo com cara de bunda”. Albert não suporta, especialmente, o fato dos parisienses chamarem os demais departamentos de “province”. A discussão entre Paris e province se prolonga interminavelmente e eu fico um pouco à parte na discussão. Para encerrá-la, improvisou um verso com uma canção francesa antiga: “Douce France, Il y a beaucoup de conflits entre Paris et la province”. Bernard ri, os outros ficam sérios. Há muito eu não tinha notícias de Julie, que é filha de um barão francês que se mudou para Belo Horizonte. Agora que Albert chegou, soube que Julie namora Albert e um argentino pelo computador, usando uma tecnologia chamada I seek you. A tecnologia se desenvolve e as fofocas se internacionalizam. Estou lendo um livro de contos chamado L´Exile et le Royaume de Albert Camus.

4/07/01

Ouro Preto foi um caos. Julie disse estar ocupada com um trabalho sobre o português de Cabo-Verde e não nos acompanhou até Ouro Preto. Minha namorada, Ludmila, amiga da Julie, ficou enciumada com minha atenção aos franceses e negou-se a viajar para Bom Despacho, cidade onde ela já foi e detesta, pois a faz lembrar da infância proletária na periferia de uma cidade do interior e de um irmão gay (?). Ela curte filósofos franceses pós-modernos, frente aos quais se sente insegura (Derrida, Deleuze, Barthes), jazz e bossa nova. Albert me alerta que Julie e Ludmila tomam banho juntas e me pede para que as impeça. Eu respondo que não quero brigar com Lúdi, pois já ficamos noivos e desfizemos a relação. Albert se espanta. Eu próprio me espanto em ter continuado a namorar alguém sem projeto, mas Lúdi está tratando uma depressão e eu tenho esperanças que ela melhore. Nesse meio tempo, nosso namoro esfriou. Falar nisso, em Ouro Preto passamos frio e Bernard está espirrando muito e tossindo. A variação de temperatura parece que acabou com ele. Fora que a viagem foi complicada por meu francês: eu confundo as direções. “Droit” é direita, “tout droit” é “em frente”, “gauche”, esquerda. Quando Jean-Luc fala rapidamente, só escuto o “droit?” E ele de fato está me perguntando se devemos ir pela direita, respondo que sim, mas muitas vezes ele quer perguntar é se devemos ir em frente. Com isso, erramos o caminho muitas vezes. Eu nem sabia que havia um show gratuito do Skank em Ouro Preto. O resultado é que nem vimos o show, chegamos atrasados à cidade, no momento exato em que muitos carros, saindo ao mesmo tempo da Praça Tiradentes, quase nos sufocaram com sua fumaça. “Cyclon B”, disse Bernard, referindo-se aos gases tóxicos de Auschwitz. Ele é judeu, sua infância foi no Marrocos, é um pied noir: todos os três o são. Num bar da estrada, peguei um pé de boi preto, um souvenir que eles vendem por aqui e apresentei-lhes: “voici un vrai pied noir”. Rimos. Jean-Luc começa um longo papo sobre a revolta da base de Krondstadt e os bolchevistas. Em Ouro Preto, nos sentamos numa cachaçaria chique. Conversamos somente em francês. Uma mesa de brasileiros ao nosso lado começa a nos criticar. Minutos antes, tolerei sem reclamar um papo nojento que eles estavam tendo, aos gritos, sobre alguém que fez sexo anal e terminou com pedaço de couve envolto no pênis. Voltando a atenção para nós, em voz alta, uma brasileira enfezada comenta que na França eles não falam em português com a gente. “Que complexo de inferioridade nacional mais chato!” comenta Albert, que sabe português, em voz alta. Ouro Preto pesadelo: sem uma cerveja sequer nos bares, sem lugar onde dormir, sem comida, tinha recebido mais gente do que o número total de habitantes. Voltamos a BH, pois o lugar que arranjamos para dormir tinha um teto rebaixado kafkiano e os rapazes não quiseram passar noite de processo.

5/07/01/

Chegamos a Bom Despacho em plena festa do Reinado. Os rapazes tiram fotos, entrevistam os capitães dos grupos que dançam (que aqui são chamados cortes), tudo a muito custo, pois não falam português e eu tenho que ficar como intérprete do francês. Bernard gosta de escutar um cantor francês chamado Bernard Lavillers. O cantor foi caminhoneiro no Brasil e depois virou cantor francês de certo sucesso. Ele diz que Nanard realmente foi muito corajoso em ser caminhoneiro aqui e eu concordo, foi muito gosto pela aventura mesmo. Lavillers descobriu e imitou a bossa nova, pois faz chanson française com influências do jazz. Eu falo com Bernard sobre o Manu Chao, o Lavillers da nossa geração, trazido por um francês chamado Paco Pigalle para tocar até em Belo Horizonte & comer bife de fígado & beber cerveja no Mercado Central. Os rapazes já o conhecem da fama na França: Manu Chao, que antes tocava na Manu Negra, toca no rádio direto na França. Albert me pediu para evitar falar tanto sobre filósofos franceses e que a sociedade francesa é piramidal, não tendo eles acesso ao topo da pirâmide: esses conhecidos são muito elevados. Conto a eles o que ouvi falar sobre o filme Week-end, do Godard. Eu não vi, mas gostaria de ter visto esse filme. Eu comento Romance X, um da Caterine Breillat com Rocco, ator pornô. Albert toma a palavra e me disse que o filme foi ruim, cheio de estereótipos, mas Rocco e a atriz transaram mesmo. Eles dizem que Godard é “abscons” (absconso, obscuro) e não viram Week-end, não. Eu provoco: “Maio de 68 foi o caminho francês para a América?” Eles dizem que não, o fato é que os partidos e sindicatos eram uma merda. E que o Partido Comunista Francês, como não podia dominar a rebelião, não a apoiava. Eu me saio até bem lembrando alguns nomes importantes em 68: Geismar aderiu a um governo recente, Débray virou gaullista, uma vergonha, Cohn-Bendit, um palhaço.

6/07/01

Na manhã seguinte, os rapazes me contam como foi a viagem ao Rio, de onde chegaram há pouco. No caminho para o Corcovado, subiam a pé para ver a vista, mas de repente encontraram, na trilha, um casal transando. Voltaram para trás e deram um tempo. Pouco depois, recomeçaram a subida e encontraram o casal lá em cima, no mirante, também admirando a vista. Conversaram amigavelmente. Esse país não é sério, repete a respeito do episódio o Jean-Luc, que é o que tem o estopim mais curto dentre os três. Jean-Luc fica horas no chuveiro tomando banho. Eu o ironizei: “arrête le branlet, Jean-Luc”. É uma frase grosseira que peguei numa conversa deles sobre a polícia de lá, a CRS, que eles falam que é meio facistona. Seria algo como: “vamos parar com a punheta!” Jean-Luc não gostou nada. Só Albert tem namorada aqui no Brasil, os outros falam somente um pouco de espanhol e seus flertes são um desastre. Eu converso por telefone com Lúdi, mas ela me faz pensar em Caroline Says, aquela canção fria de Lou Reed. Nessa noite fomos ao Centro Espírita. A dona do centro umbandista, Tia Tilde, me pareceu simpática e esclareceu que sou filho de Ogum. Ao entrar, repeti interiormente, como um personagem de Dostoiévski: apesar da tradição de séculos, charlatanismo e absurdo. Contei posteriormente isso aos franceses, que me disseram somente: quem decide sobre um país são suas classes dirigentes. Eles são trotsquistas, mais do que antropólogos. Acharam que meu sentimento foi coisa de pequeno-burguês intéllo, gíria que quer dizer algo como intelectualóide. Tia Tilde é gentil, o centro é muito bonito, decorado com bandeirolas coloridas, cheio de imagens de pretos velhos ao lado de cristais e velas multicores. No entanto, ao abrir uma porta, Dona Tilde deixa cair pequenas caveiras de plástico, velas pretas e vermelhas e outros acessórios um tanto quanto macabros. Ela me fala para escrever o nome de meus inimigos num papel para que ela queime uma vela sobre ele, afastando os invejosos. Eu o faço. Mais tarde, à noite, tomando cerveja num bar, fomos abordados por um psicólogo da cidade, longos cabelos brancos, poeta marginal, hippie sem tempo: ele, já chumbado, perguntava aos franceses se o sol poderia fazer alguém matar, “como no romance O Estrangeiro de Camus”. Bernard, ao ouvir minha tradução em francês pourri da conversa psicanalítica-maluca do psicólogo, tem praticamente uma crise de riso diante do psicólogo, que imediatamente o rotula de louco histérico. Bernard então entende, mas continua rindo. Eu desconverso e peço a conta, pois o psicólogo é amigo da família de minha mãe.

8/07/01

Lúdi e Julie chegaram a Bom Despacho e nós nos deslocamos da casa dos meus pais, no centro, para o sítio, para que todos pudessem ficar alojados confortavelmente. O sítio, no entanto, está um caos, graças ao desleixo de meus pais. Julie tem gostos e exigências enormes e fica horrorizada com a piscina cheia de enormes sapos e alguns ratos mortos. Ela canta: “ó minha rana baby...” Elas chegaram até com seus maiôs, coitadas. Numa outra casa, Lúdi resolveu fazer camarão na moranga. Julie uniu-se a ela na cozinha, trouxe vinho, tudo parece encaminhar-se para o melhor. A criada de meus pais negou-se a ajudá-las, pois para ela comer camarão é como comer uma barata. Eu a dispensei. No entanto, um enxame de abelhas invadiu a cozinha em busca da amarela moranga de Lúdi. Pavor e choque. Consolei Lúdi: as abelhas só enxergam bem a cor amarela. Ela explode e me acusa de ser negligente como meus pais. Talvez ela tenha razão, mas não tenho voz ativa junto a meus pais. Para melhorar a situação, a cozinha também conta com um estoque de lagartixas e o banheiro está equipado com pequenas pererecas. As garotas gritam a cada novo encontro com um bicho, apavoradas. A comparação com o sítio de Julie em Tiradentes é inevitável e me deixa morrendo de vergonha. Resolvemos mudar para outra das casas do sítio, mas nela encontramos uma caixa de marimbondos do tamanho de uma bola de discoteca pendendo da sala. Albert, Bernard e Jean-Luc não querem deixar o Brasil antes de passarem num acampamento de sem-terra numa cidade vizinha daqui, Pompéu.

9/07/01

Hoje Albert, Jean-Luc e Bernard saíram de novo a campo para terminarem de recolher o material da pesquisa sobre o Reinado. Estou escrevendo cansado, mas o que mais me aborreceu é que as meninas já voltaram para Belo Horizonte. Durante a noite, elas me acordavam pedindo que retirasse o vaga-lume que estava dentro do quarto. Estavam temendo os bichos e não dormiram. Quando o dia já tinha amanhecido e eu já tinha me levantado umas dez vezes, descobri que o tal vaga-lume era a luz verde do celular da Lúdi. Após isso, Julie foi tomar banho na casa do caseiro, quem sabe esperando que ela estivesse mais limpa e civilizada. Mas não: quando Julie entrou no chuveiro, saíram formigas do ralo, numerosas com num filme de cinema catástrofe. Lúdi queria tomar banho com a amiga, mas vetei. Lúdi parece estar numa crise de identidade sexual e me transtorna profundamente. Julie e Albert também não estão bem.

11/07/01

De volta a Belo Horizonte. Julie me liga para dizer que terminou com Albert e que ele bateu nela. Eu tento tranqüilizá-la. Vou falar com Albert, que esteve em casa dela nos últimos dois dias. Ele diz que foi um jogo sexual entre ambos e que Julie é obcecada com o estupro. Ambos fingiam um estupro quando a mãe de Julie os pegou aos berros. A solução de Julie diante da mãe ultra-feminista foi atacar Albert. Isso me parece verdade. Para amenizar o papo barro pesada, digo a Albert que Jorge Amado escreveu, em seu primeiro romance, que alguém só se sente brasileiro quando bate na mulher e dança o carnaval. E que Albert, já tinha feito o mais difícil. Albert fica angustiado e diz: “então você acredita nela”? Eu digo a ele que perco o amigo, mas não perco a piada.

13/07/01

Julie combinou uma saída comigo e com Lúdi, mas logo que nos encontramos elas anunciam a ruptura de Julie com Albert, agora excomungado. E Julie me apresenta Joaquín, argentino belo, alto e com longos cabelos grandes. Albert dançou, mas eu me recusei a apoiar a troca de Julie, afinal Albert é meu amigo.

16/07/01

Minha relação com Ludmila desmoronou após uma noite em que ela dormiu assistindo Os Fuzis, filme de Rui Guerra, após termos tentado fazer sexo enquanto o personagem do cego no filme dava gritos roufenhos, horríveis, broxantes. Recebi uma ligação com uma proposta de trabalho: querem que eu trabalhe como professor numa universidade que está começando em Bom Despacho. Eu topo porque o diretor lá será o psicólogo que conversou conosco na noite anterior. Eu e ele conversamos longamente sobre Oswald de Andrade, autor do qual ele já leu Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar.

18/07/01

Rompidos com Lúdi e Julie, fazemos uma grande festa em meu sítio em Bom Despacho. Dentro de dois dias, meus pais irão chegar de viagem. Fomos a um bar combinar a ida ao acampamento dos sem-terra. Na verdade, nesse lugar, em Pompéu, eles já foram assentados. Existe risco quando ainda é acampamento, pois por vezes, os fazendeiros chegam atirando e com muitos capangas, indiferentes à presença de velhos, mulheres e crianças. Eles só invadem fazendas grandes e improdutivas, como era essa fazenda de Pompéu que visitamos. Eu só não gosto muito do discurso moralista católico contra a bebida que um dos sem-terra nos fez e do ritual de mística que eles fazem, dizendo palavras de ordem e erguendo os punhos em gestos comunistas. Achei teatral demais. O moralismo caiu como uma luva para nós, que viramos a noite bebendo e chegamos ao acampamento de manhã. Jean-Luc adorou e os achou verdadeiros “gauchistes”.

20/07/01

De volta a Belo Horizonte, fomos tomar cerveja em um bar, mas quando chegou a hora de pagar, ninguém tinha trazido dinheiro. Acontece que todos estavam fazendo gentileza uns para os outros nos dias anteriores. Eu ia me levantar para conversar com o dono do bar e perguntar se ele aceitava meu cartão. Nesse momento, um carro desceu a rua numa grande velocidade. Atrás, o carro da polícia desceu atirando. Todos no bar se levantaram e nós deixamos nossa mesa sem pagar: os moradores da favela, furiosos com os consumidores de cocaína que segundo eles se reuniam naquele bar, desceram revoltados, mas só chegam a dizer algumas palavras agressivas a Albert, que conseguiu acalmá-los falando que é gringo, mas é ateu marxista, estudante de antropologia, coisa e tal.

25/07/01

Fizemos uma grande festa de despedida para os franceses aqui em minha casa em Belo Horizonte. Eles viajam amanhã de avião. Em setembro irei começar a lecionar numa pequena faculdade em Bom Despacho. Reuni meus amigos de Belo Horizonte, bebemos muito e até tarde. Eu combinei de visitar a França em breve e ficar em casa deles.

11/09/01

Vi o desastroso atentado terrorista nas Torres Gêmeas. O horizonte de New York, esfumaçado, ferido, parecia anunciar o dia do juízo final. Ao ver aquilo, foi como se muitos anos se passassem. E eu nunca fui à França.

Ouro Preto

© Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior 2008