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Eurípedes Crotho, um Escroque
por Allan Pitz

E na curva fulcral do seu destino fecal, o jovem e recém formado advogado, Eurípides Crotho, descobriu sua mina de ouro particular.
Ao procurar por estágio naquele Julho de 1986, o rapaz endividado jamais imaginaria conhecer o Vôzinho Zaluar, antigo missionário que após pregar por metade do Brasil, havia conseguido somar uma quantia razoavelmente segura; a ponto de o Religioso abrir uma pequena empresa de orações no subúrbio do Rio de Janeiro. O pregador precisaria antes mesmo de fé ou orações, segundo o próprio, de um advogado jovem, sangue novo, com muita disposição, fôlego e vontade de enriquecer. Zaluar achou sua ovelha neta perfeita. E veio com ar condicionado interno, cinco quilos de Gomex, e uma cara de pau que, geraria excitação num vidrinho de óleo de peroba!
A missão de Eurípides era bem simples: Ele só teria de legalizar os imóveis; tais como terrenos, casas, apartamentos, prédios comerciais, e tudo mais que possivelmente viria a receber Zaluar como doação dos fiéis. Incluso todas as funções convencionais que cabem a um advogado. Entretanto, vendo a quantidade de recursos que começaram a pipocar nas mãos do Vôzinho Zaluar, o jovem “Gavião” acreditou poder ser mais do que um mero carimbador da legalidade. Veio na máxima cretina de que a fé não remove só montanhas; passou a vasculhar entre os idosos que perambulavam pela capela, doadores em potencial; se esquecidos pelos parentes, ainda melhor. Quanto vale a certeza de ir para um suposto paraíso, após 85 anos de vida Terrena??! Uma chuva de casinhas humildes... Os poucos, porém valiosos, vestígios de vida de uns pobres pés na cova. Foram na glória... Pra glória de alguém?!
Em seis anos, o centro de orações do missionário Vôzinho Zaluar, já era uma das maiores seitas do país, com ramificações em toda a parte, e sem dúvida, muito desse sucesso se devia ao faro e a competência de seu advogado, amigo, e braço direito. O homem foi capaz de convencer umas duas mil pessoas a doarem seus bens para o vozinho e suas obras de caridade, chamavam por vezes Eurípides Crotho de Anjinho... – Eu fiz um cafezinho, hoje o anjinho do seu Zaluar vem aqui em casa conversar comigo. Esse é um homem abençoado! A dupla juntou muito mais do que poderia supor quando tudo começou. O missionário sempre pensava no que teria acontecido se os dois tivessem se encontrado antes, se Eurípides fosse um pouco mais velho... Ah! O mundo seria pequeno!
Vôzinho Zaluar morreu diante dos seus fiéis, expulsando o demônio gay de um pugilista Húngaro peso pesado, em 19 de Novembro de 1992, vítima de uma parada cardíaca. Em meio ao ápice de sua empreitada “Religio-Monetária”, a pomba anunciadora enfeitou o céu de branco. E entre os raios de sol pude ver uma nota de cem.
O irmãozinho Edney Assumiu o trono e continuou o sucesso da seita. Já vista como nova vertente religiosa do país. E como fora adestrado a fazer, seguiu com extrema continuidade toda a “obra” do mentor e líder. Mas para Eurípides as coisas já não estavam como antes. No começo ele nem ligou pra morte do velho Zaluar; aos 87 anos, era de se esperar que aquele estardalhaço no palco da capela fosse matá-lo. Sem comentar os sarapatéis, carurús, acarajés, e outros quitutes de uma antiga seguidora baiana que, vinham entupindo suas artérias desde uma pregação em Feira de Santana. No fim comia às escondidas. A baiana também.
Estavam sentados numa gigantesca mesa Monárquica, Eurípides Crotho e Vôzinho Zaluar, e nunca nenhum dos dois, apesar de nadando em dinheiro, havia visto tamanha quantidade e diversidade de comida como esbaldava o cenário. Vontade de provar tudo ao mesmo tempo; os temperos mais maravilhosos que a língua podia lançar aos neurônios! O Advogado começou então a comer freneticamente, porém, percebeu que o Vôzinho não tinha os braços, e tentava comer pondo a face de encontro às bandejas que como por manipulação maligna lhe fugiam ao toque da boca, e fraturavam-lhe o nariz em movimentos rápidos e não humanos. De tão chocado, Eurípides nada conseguiu fazer, a não ser pedir para que o velho parasse de pôr a cara nas bandejas, mas o tosco encarnado, vidrado, já não lhe ouvia, assim como parecia não se importar com o sangue nos canapés. A gula. A gula do velho não tinha limites, não importavam as fraturas medíocres, o comer cicatrizaria.
Mas qual a surpresa de Eurípides? Se não tivesse os braços, diante de tal banquete, também não hesitaria em comer pondo a face no prato. É a lei da sobrevivência. Mas continuaria fraturando o rosto daquela forma?! Sim, pela gula. Depois de muito implorar ao velho Zaluar para que parasse de protagonizar a cena macabra, este parou de lançar-se aos pratos, mas pediu que ele fizesse o mesmo, e deixasse que seus fiéis comessem todo o resto, antes da putrefação do banquete. Este foi o primeiro sonho acordado de uma série que acompanharia até o fim da vida, o Esquizofrênico advogado Eurípides Crotho.
Os visíveis problemas neurológicos foram afastando o advogado do tão estimado trabalho, e o Irmãozinho Edney não se fez de rogado, arrumando outro jovem advogado sedento por enriquecer, pronto para qualquer trabalho... O escroque já possuía um indescritível império imobiliário, para gastar pensamentos com os ares de conquista territorial do frangote audacioso. Abandonou o lugar que lhe deu fortuna e prestígio, sem olhar para trás. Mas era impossível não esbarrar com Irmãozinho Edney pelos canais de TV.
Enquanto caminhava pelos arredores de sua chácara em Petrópolis, Eurípides Crotho desesperou-se com a situação na qual se viu: Um carro Corcel I parou bem ao seu lado, e de dentro do calhambeque saltaram dois enormes homens com trajes indianos típicos, trazendo nas mãos incensos com forte cheiro de enxofre, enfumaçando tudo ao redor de vermelho. Impossibilitado telepaticamente de emitir sons ou se mover, o escroque ainda permaneceu ali durante horas de agonia, recebendo de figuras cadavéricas terrivelmente sofridas e cinzentas, sucessivas chaves banhadas de ouro. Uma legião de pessoas saiu de dentro do carro como por mágica; assim procedeu a entrega das duas mil e duzentas chaves de ouro ao louco estático; encontrado no mesmo lugar dias depois.
Atualmente, a família do escroque louco administra seus bens com muito gosto. E do sanatório onde está internado, ele relata ser surrado diariamente por almas portadoras de chaves cortantes, e privado de comer para não sangrar o rosto do Vôzinho Zaluar. O que mais se pode tirar disso tudo?! Perguntaremos ao homem dos imóveis, e das falsas riquezas espirituais... Entretanto, ele só poderá nos conceder uma fratura como resposta.
© Allan Pitz 2008

