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A Broca Literária

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Num Beco Imundo com um MagnaCord por Marcello Trigo
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Porrada por Luiz Mendes Junior
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Dom Casmurro 26 por Allan Pitz
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No Metrô por Márcia Tondello
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A Cabeça e a Bunda por Danielle Souza
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Pequeno Concerto para Ver no Celular e Escutar no Ifone por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
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O Assassino de Três Corações por Alexandre D´Assumpção
Aconteceu Num Dia Quente de Verão por Luiz Mendes Junior
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02-01-06
A Boneca de Natalia Emery Trindade
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Space Bar

por Carlos Cruz

space bug de Texas

Robert Rotundo, pasmo, observava os astros colidirem e explodirem à sua volta, zilhões de fragmentos a iluminar o cosmos. O universo retraía-se e expandia-se, numa fascinante e apavorante reedição do caos, a hecatombe, o novo big-bang. Os planetas, as estrelas, a vida, tudo viraria pó, deixaria de existir. E Robert era o responsável, o mentor, o inventor, o físico louco com a cabeça cheia de fórmulas, idéias, sonhos e soluções. "Papai tinha razão." - pensou, com lágrimas nos olhos, vendo o enorme meteoro aproximar-se da espaçonave - "Devia ter cursado Direito..."

Robert Rotundo fora um menino como qualquer outro. Jogou bola, brincou de pique, esconde-esconde, bola de gude, carrinho de rolimã, soltou pipa, até "meia" ele fez, uma única ocasião, é verdade. Pedrinho Taruguinho o deixou com dificuldades para sentar durante vários dias e, durante a brincadeira, quando chegou a vez de Robert, o sacana do Pedrinho saiu correndo, aos gritos de "vem gente! vem gente!". Pela primeira vez, percebeu que não podia confiar em seus semelhantes. O que distinguia o pequeno Robert dos demais moleques era sua inteligência fora do comum e sua enorme capacidade de memorização. Sôfrego por conhecimento, devorou centenas de livros antes de completar doze anos, era figura conhecida na Biblioteca Municipal de Mirandópolis do Norte, a pequena e bucólica cidade onde viveu os primeiros anos de sua existência.

Os pais de Robert, Seu Juvenal e Dona Filomena, a despeito das dificuldades e da falta de dinheiro, desejavam proporcionar ao seu único filho, um futuro digno. Deram duro na lavoura de cana-de-açúcar, trabalhando muitas horas além da carga normal, suor e lágrimas para custear os estudos de seu amado pupilo. Robert, vendo o sacrifício de seus genitores, pediu para ajudar na lavoura. "Não, meu filho. Você precisa estudar. Um dia você será doutor, um adevogado famoso e endinheirado, igual a Doutor Aristides. Quando esse dia chegar, você ajuda nóis." - disse, com olhos marejados, Dona Filomena.

O fato é que Robert tinha sede de conhecimento, assimilava tudo, era um pequeno gênio. Exultou quando descobriu o ferro-velho abandonado, próximo à escola. Quanto material para suas experiências! Cabulava aulas para ficar no ferro-velho. Estudar para quê? Sabia de cor e salteado tudo o que os professores ensinavam. Tirava sempre a nota máxima nas provas. O fato é que os objetos garimpados no ferro-velho foram essenciais para o desenvolvimento dos projetos que Robert tinha em mente. Construiu um mini-desacelerador de partículas, um desfragmentador de moléculas, um pequeno robô que dançava frevo, um projetor de hologramas que imprimia movimentos às figuras humanas que escaneava, um dos inventos mais apreciados por Robert, que contemplava, em masturbatório êxtase, o rebolado das modelos de suas revistas preferidas. Guardava os inventos em seu quarto, trancados no guarda-roupa. Ninguém podia vê-los. Não entenderiam sua genialidade.

Robert cresceu. Durante a modesta festa de seu aniversário de dezoito anos, tentou aproximar-se de Maria José, colega de sala de aula. Qual Robert, ela era deixada de lado pelos demais colegas, em virtude da baixa estatura, da voz estridente e da obesidade. Robert nunca havia namorado. Imerso nos estudos e nas experiências, não tinha tempo nem interesse para dedicar-se às atividades preferidas pelos jovens de sua idade. Odiava exercícios físicos e roupas de grife, quanto a estas, ainda que as apreciasse, não poderia comprá-las. Não tinha dinheiro nem tampouco cara-de-pau para pedir algo que não fosse verdadeiramente essencial a seus pais.

Robert parecia um misto de nerd e capiau, com sua indumentária xadrez, seus óculos "fundo de garrafa" e os volumosos e inseparáveis livros. E, além de tudo, era gordo. Muito gordo. Fora um menino e um adolescente acima do peso recomendado. Agora era um jovem obeso. Mas, a despeito de sua aparência, Robert desejava saber como era ficar com uma mulher, beijar na boca, fazer sexo. Conhecia a teoria. Lera o Kama Sutra e alguns romances picantes. Mas só isso não bastava. Aproximou-se de Maria José, convidou-a para irem à praia, admirar as estrelas e a enorme lua cheia que adornavam o firmamento naquela linda e quente noite no litoral paraibano. A resposta dela o deixou desolado:

- Ah, sai pra lá, seu nerd balofo cabeçudo! Ir à praia com você? Que mico! Prefiro sair com um sapo!

Robert escondeu-se no banheiro. Não queria que o vissem chorar. Aquela experiência frustrada desencadeou em Robert certa aversão pelas mulheres, fazendo com que ele se dedicasse ainda mais aos estudos e às experimentações científicas. A paixão pela Física e a Matemática veio nessa época. O que antes era um flerte tornou-se uma arrebatora e veemente obsessão. Devorou, sofregamente, grossos tomos de Albert Einstein, Galileu Galilei, Arquimedes, Isaac Newton, Pitágoras, Lavoisier, Paolo Briot Ruffini, Nicolau Copérnico, Aristóteles, Alfred Nobel, Hawking, Kelvin, Anders Celsius, Alessandro Volta, Oppenheimer, Michael Faraday, Kepler, Bohr, Aston, a lista era enorme, a disposição e a sede de Robert Rotundo também.

space bug de Texas

Aos vinte anos, Robert já havia concluído a Universidade, feito mestrado e doutorado em Física, com sua premiada tese sobre a preponderância dos quárcs e da antimatéria no nascimento e desenvolvimento do Universo. Para ilustrar a tese, apresentou seu mais novo invento: o teletransportador atômico, movido a extrato de xiquexique. Boquiabertos, os doutores, físicos, químicos e matemáticos renomados, viram Robert entrar no módulo um, desaparecer e surgir no outro módulo, afastado cerca de duzentos metros. Após a façanha, ganhou prêmios, foi capa de vários jornais, da Revista Science, tornou-se uma celebridade, alcunhada de "O Einstein da Paraíba".

Contudo, Robert sentia-se mal, seu corpo apresentava mudanças, sua pele tornava-se áspera, surgiam protuberâncias em sua cabeça, tinha vontade de beber sangue. Seriam efeitos colaterais da experiência de teletransporte? Inspecionou os aparelhos, constatando, apavorado, que durante o experimento, um barbeiro entrara no módulo, vindo a fundir suas moléculas com as de Robert.

Felizmente, gênio que era, conseguiu reverter a transformação [antes que causasse maiores transtornos], sentiu remorso, apenas, por haver causado a morte de Francineide, a cabrita de sua mãe, chupando-lhe todo o sangue, após saciar seus bestiais desejos sexuais.

Foi tomado de um repentino e paradoxal interesse por religião e poesia. Leu a Bíblia Sagrada, o Alcorão, o Livro dos Vedas, o Livro dos Orixás. Deixou o cabelo e a barba crescerem para ficar parecido com Jesus Cristo. Passou a escrever poemas, às dezenas, diuturnamente, num assomo frenético de lirismo místico. Quando o físico promissor parecia estar irremediavelmente perdido, eis que surge a notícia que mudaria tudo.

Robert foi convidado por uma grande empresa norte-americana, que desenvolvia projetos para a NASA, para integrar seu corpo de funcionários, na qualidade de trainee, pelo atrativo salário de cinco mil dólares mensais mais despesas pessoais. Eufórico, transmitiu a boa nova para seus pais e saiu para comemorar com seus novos amigos, conhecidos recentemente em uma feira de ciências: Robert Bit Denso, gênio da Informática e Rumberto, um porra-louca aficionado por Ciência, Filosofia, Religião e Literatura. Duas cervejas foram suficientes para deixar Robert completamente bêbado. Decidiu voltar para casa, alheio aos protestos dos amigos, que permaneceram no bar. No caminho, escapou por um triz de ser assassinado por um grupo de mercenários, contratados pela conhecida corporação petrolífera, cujos proprietários estavam muito insatisfeitos com o sucesso do novo combustível não poluente, extraído do sumo do xiquexique, que ele havia inventado e mantinha a fórmula trancafiada a sete chaves em seu cérebro.

A salvação de Robert veio do espaço sideral. Um óvni, ufo ou seja lá o nome que se queira dar àquela gigantesca nave em forma esférica, iluminada por milhares, talvez milhões de lâmpadas que cegavam os olhos, pairou e lançou sobre ele um facho de luz violácea, fazendo-o flutuar, atraindo-o para a espaçonave. Robert vomitou no ar e perdeu os sentidos. Quando despertou, custou a acreditar no que seus olhos lhe mostravam: estava deitado, em decúbito dorsal, numa espécie de maca estofada, pés e mãos presos por braceletes dourados, eletrodos e fios ao longo de todo seu corpo, no interior de um compartimento oval, de dimensões descomunais, cujas paredes eram uma miríade de lâmpadas amarelas. Súbito, uma porta deslizou para cima, dando passagem a quatro seres fantásticos, de pele verde-oliva, muito altos, cabeçudos, dotados de grandes olhos negros e longos braços. O espanto de Robert deu lugar ao medo. Os alienígenas passaram a introduzir uma série infindável de objetos cilíndricos em todos, absolutamente todos os orifícios de seu corpo. Surpreso, percebeu seu pênis ereto quando um dos objetos preencheu seu ânus. O medo cedeu espaço para o prazer. Minutos depois, os instrumentos, os objetos, os fios, os eletrodos, toda a parafernália foi retirada, retirando-se, também, três alienígenas. O que permaneceu, introduziu algo quente no ânus de Robert. O pênis! O extraterrestre era provido de um longo falo, semelhante a uma cauda, que emanava de suas costas. Ele copulava com Robert! Sentiu prazer novamente, desta feita mais intenso. O ET ejaculou litros de sêmen no reto de Robert, que também gozou. Parecia que o orgasmo do homem verde não findaria nunca, mas findou. O alienígena saiu do compartimento, deixando Robert ardido e melado. Adormeceu. Algum tempo depois, foi despertado por um deles.

- Venha, queremos lhe mostrar algo.

A frase formou-se em seu cérebro, mas não ouviu nenhum som. O ser não possuía boca, comunicava-se por meio de telepatia. Constatou que os braceletes haviam sido removidos. Levantou-se com dificuldade, seguindo o alienígena. Entraram em outro compartimento da nave que aparentava ser maior que o anterior. A boca de Robert se abriu, sem pronunciar palavra. Maravilhado, contemplou o maior conjunto de máquinas, aparelhos, instrumentos e apetrechos científicos que já vira em sua curta existência.

- Este é o nosso laboratório. Você vai trabalhar aqui. - ouviu a voz em sua mente.

- Mas o que vocês querem que eu faça?

- Nosso planeta está em guerra. Queremos que construa uma arma capaz de destruir nossos inimigos.

- Mas... arma?... Sou cientista. Não faço armas.

- Queremos que construa um desfragmentador de moléculas capaz de destruir um planeta inteiro. Usá-lo-emos contra nossos inimigos. Se não quiser nos ajudar, enviaremos nossos soldados para seu planeta. Considerando sua tecnologia atrasada, em poucas horas não haverá mais nenhum habitante em seu planeta.

- Caralho. Vocês sabem ser convincentes. Tá legal, então. Contra a força não há resistência.

- Fique tranqüilo. Usaremos a arma apenas contra nossos inimigos. Depois, deixaremos você e sua gente em paz. Ao trabalho, então.

- LZPTKRW, auxilie o cientista. - ordenou o ET, que parecia ser o comandante, a um outro de estatura inferior.

Robert Rotundo, então, auxiliado por LZPTKRW, dedicou-se à construção da poderosa arma destruidora de planetas. Foi fácil. A tecnologia deles era muito avançada. A convivência com LZPTKRW, que longe do comandante era um ET falante e fanfarrão, tornou-os amigos.

- LZPTKRW, me diga uma coisa, por que precisaram de mim? Com uma tecnologia dessas, qualquer um constrói o que quiser.

- Os plocs, nossos inimigos, seqüestraram todos os nossos cientistas. Sondamos muitas galáxias, até chegar a você.

- Putz... Diz uma coisa, existe algum lugar onde a gente possa se distrair um pouco? Tô de saco cheio de trabalhar dentro desta nave.

- Olha... Vou falar com o comandante. Ele não gosta de sair da espaçonave. É perigoso. Mas tem um lugar sim. É um bar interplanetário, fica na zona neutra.

- Pô. Fala pra ele que estou estressado. Assim o trabalho não rende.

- Falou.

Algumas horas depois, a espaçonave pousava no estacionamento do Planeta Pingus, de onde Robert divisou o letreiro, em grandes letras neon piscantes: "SPACE BAR OF THE WRITER". Logo à entrada, deparou-se com uma criatura estranha, vomitando agachada, semelhante a um anfíbio com orelhas pontudas que faziam lembrar Spoke, o célebre personagem do filme Jornada nas Estrelas. Entrou. Se não estivesse acompanhado de LZPTKRW e sua pistola de fótons, teria saído em debandada. Os seres que lotavam o estabelecimento pareciam recriações dos personagens de Star Wars. A começar pelo balconista, um perfeito Darth Vader de barba. Robert viu quando um dos clientes, um velho de pele amarelada, feições humanas e pênis flácidos pendendo da cabeça aproximou-se do balcão e esboçou uma reclamação. Darth lançou mão de um bastão que se transformou numa espécie de espada laser que produzia um ruído estranho, brandindo-a, ameaçadoramente, na direção do cliente, que se afastou, calado. Robert sentou-se. LZPTKRW pediu à garçonete de burka e quatro enormes peitos - cujos contornos podiam-se divisar dadas as dimensões - dois drinques caustic soda. Enquanto aguardavam as bebidas, Robert correu os olhos ao longo do insólito local em que estava. Grande parte das criaturas portavam uma espécie de pergaminho, que desenrolavam e liam para os demais, que emitiam sons de aprovação ou repúdio. Alguns lançavam bolas de excremento sobre o leitor. O cheiro não era nada agradável. Mas Robert precisava beber alguma coisa forte. As bebidas chegaram. Olhou para a substância líquida fumegante em seu copo.

- Pode beber. É forte, mas não faz mal. - ouviu a voz de LZPTKRW em sua mente.

space bug de Texas

Seguindo o exemplo de seu amigo alienígena, Robert emborcou seu drinque. O efeito foi imediato. Sentiu o calor percorrer seu corpo, dos pés à cabeça, deixando-o entorpecido. Neste ínterim, teve início a confusão. Uma criatura que parecia ser feita somente de bundas levantou-se, enfurecida, reclamando veementemente que seu pergaminho havia desaparecido. Um gigante com tranças nos cabelos e bermuda rosa pink, sacou uma espada idêntica à de Darth Vader, iniciando, assim, um duelo entre eles. Uma figura semelhante a um cachorro, com grandes dentes, engoliu, de uma só vez, o Sapo com orelhas de Spoke. Robert e LZPTKRW saíram correndo. Embarcaram na espaçonave e partiram. Foram severamente repreendidos pelo comandante e proibidos de retornar ao bar.

De volta ao trabalho, em duas semanas Robert concluiu o projeto. Faltava apenas testá-lo. Escolheram um planetóide desabitado na galáxia XYZ. Apontaram o canhão, Robert ajustou a potência, cruzou os dedos de uma das mãos e apertou o botão vermelho. Um feixe de luz verde atravessou o espaço, atingindo o planeta escolhido, que explodiu, virou poeira cósmica em poucos segundos. Todos gritaram ao mesmo tempo, parabenizando uns aos outros mutuamente pelo sucesso. O comandante pediu a palavra:

- Parabéns, nobre cientista Robert Rotundo. Levá-lo-emos para casa agora. Nossos inimigos serão derro...

O barulho da explosão interrompeu o discurso do comandante. Um planeta vizinho do que fora destruído esfacelou-se em milhões de pedaços. Depois outro. E outro. Ao que parece, a destruição do planetóide provocara uma reação em cadeia, os astros explodiam por todos os lados. Era o caos. Robert lembrou-se da Teoria do Caos Determinístico: erros microscópicos na determinação do estado inicial e atual do sistema podem ser amplificados pela não-linearidade ou pelo grande número de interações entre os componentes, levando ao resultado aleatório. Esquecera-se dela. Cometera seu primeiro erro. Agora era tarde. O Universo rumava, a passos lépidos, para a não-existência. Pensou em seus pais que tanto haviam confiado nele, em seus dois únicos amigos, nas pessoas, na natureza, o mundo ia acabar, o universo chegava ao fim graças a ele. Chorou. Os tripulantes da espaçonave corriam de um lado para o outro, sem saber o que fazer. Pediam socorro a Robert. Um meteoro aproximava-se rapidamente da nave. O sentimento de culpa foi substituído pelo instinto de sobrevivência. Ademais, podia tentar salvar ao menos estes filhos da puta verdes. Viu o buraco negro que se formara no espaço. Lera em algum lugar que buracos negros são portais dimensionais. Ficção científica. Sabia disso. Mas, o que tinham a perder?

- Vamos para lá! - gritou para o comandante, apontando na direção do buraco negro.

Sem titubear, o comandante ordenou que acionassem os propulsores da espaçonave na potência máxima. Atravessaram o buraco negro à velocidade da luz, milésimos de segundo antes da última explosão. Robert desmaiou.

Abriu vagarosamente os olhos, meio grogue. Viu a relva muito verde, as árvores, as flores, o rio. Acima de sua cabeça. Sentou-se. Percebeu que estava sentado no céu. O mundo parecia estar de cabeça para baixo. "Estarei morto ou isso é um sonho?" Trôpego, deu alguns passos. Estacou, aturdido, ao visualizar sua imagem refletida nas águas do rio. Não era mais Robert Rotundo, o nerd obeso cabeçudo. Transformara-se em uma mulher. Melhor dizendo, transformara-se em uma mulher deslumbrante! Alta, bonita, esguia, corpo escultural, fartos seios e abundante bunda.

- Ei, Robert! - ouviu, com os ouvidos - o som da voz de LZPTKRW.

Volveu o olhar na direção de onde provinha o chamamento. Perplexo, ao invés do alienígena verde, divisou um homem branco, alto, forte, com olhos verdes.

- Sou eu, LZPTKRW! Não sei o que aconteceu com a gente. É... Robert... Não é por nada não, mas... Você está gostosa pra caralho!

- Vai tomar no cu, LZPTKRW! Eu sou esp...

Sentiu o movimento dentro do abdômen. "Meu Deus! Estarei grávido? Grávida? Ah, puta que o pariu! Só me faltava essa!"

- Robert, preciso lhe confessar uma coisa... Lembra-se do dia em que você foi abduzido?... Bem... Quem transou com você... Fui eu!

- Seu filho da puta!

"Bem" - pensou Robert Rotundo - "o que não tem remédio, remediado está. Se cabe a mim recomeçar a História, recomeçá-la-ei. E, pensando bem, até que LZPTKRW é um cara bonitão..."

- Robert...

- O que foi?

- Er... Ainda consigo ler seus pensamentos...

Próximo a eles, uma víbora, enroscada em uma macieira, a tudo observava e ouvia.

space bug de Texas

© Carlos Cruz 2008