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A Vida é uma Porra com Juros - 3
por Luiz Filho

Acordei naquela segunda-feira cinzenta e fria, e tinha que passar na Tapeçaria Golam para pegar meus instrumentos de trabalho e ir cobrar diretamente Xin Huan. Olhei para todos no escritório e ameacei xingar quem esboçasse um mísero sorriso de “bom dia, Carlos”. Passei pela sala do RH e dei uma piscada para Estela. Ela estava diferente e emitia luz própria, então percebi que o sexo pode ser mágico de vez em quando.
Xin Huan era o proprietário de uma confecção no Brás. Um bairro próximo ao Bom Retiro. Ele comprava sobras de tecido do Sr. Schneider e quase nunca pagava. Como todas as confecções, aquela também era clandestina, e não tinha placa na porta, abri a porta e me deparei com um china.
- Xin Huan?
- Sim!
- Eu vim em nome do Sr. Schnei...
O putinho saiu correndo e passou por outras três portas. Saquei a arma e fui atrás, sabia que ele ia chamar o exército vermelho, e eu não podia ficar estático como o rapaz em frente ao tanque na Praça da Paz Celestial. Entrei num pequeno galpão com a arma em punho, e dezenas de bolivianos trabalhavam em suas máquinas de costura. Todos se jogaram no chão e começaram a mostrar seus passaportes e gritavam “legalles, legalles”. Perguntei do china, e uma boliviana bem gostosinha apontou para uma pilha de tecido. Dei um tiro no meio da pilha, e Xin Huan saiu de lá gritando com a mão na perna que sangrava. Catei o china pelos cabelos lisos e sujos, e o levei até uma máquina de costura. Enfiei sua mão embaixo da agulha, e disse para uma senhora boliviana ligar. Ela nem titubeou, vi o prazer em seus olhos. O prazer de uma explorada, que fugiu da miséria em seu país, e foi parar nas mãos de chineses exploradores de mão-de-obra necessitada. Eles sempre estão devendo aos chineses, que dão moradia, e comida, e no final do mês não pagam o salário dizendo ainda que os bolivianos estão devendo porque tem juros em cima dos juros.
- Xin Huan! É o seguinte...ou você paga os oito mil que deve, ou vou costurar sua outra mão.
- Vamos no cofle, vamos no cofle.
- Se vier com gracinha eu atiro na outra perna, e depois no seu saco, seu filho da puta do caralho.
- Cofle, cofle!
- Vai, anda.

Xin Huan abriu o cofre e ameaçou pegar uma arma, então dei um tiro na sua outra perna, e disse pra ele não vacilar. O chinês caído no chão não tinha condições de ficar em pé, me encarreguei de limpar o cofre, e vi que tinha nove mil ali. São os juros, que se foda. Dei uns chutes no china até ele desmaiar para garantir que não chamasse seus Shaolins. Passei pelas máquinas de costura e os bolivianos me agradeceram com um sorriso de vingança. Descobri que a boliviana gostosinha se chamava Mercedes, tirei-a de lá, anotei meu endereço num papel qualquer, dei cem Reais, e disse para ela me procurar no dia seguinte, que eu cuidaria dela para sempre, ou até onde minha filhadaputisse deixasse.
Fui direto pra casa, estava exausto e agressivo para voltar ao escritório. No dia seguinte eu levaria todo o dinheiro para o Sr. Schneider, e foderia com Mercedes. Como de costume, o elevador estava quebrado, então respirei fundo como um atleta antes da largada, e fui em direção ao décimo quinto andar. Quase lá, e com os pulmões ardendo, como se tivesse fogo dentro deles, escutei uns gemidos estranhos, então parei quando faltavam quatro lances de degraus.
- Ah...delícia...nossa...ah...nossa...quantos juros, assim eu não agüento de tesão. Olha essa mora diária...ah...delicia...ah...quinze por cento ao mês, mais zero virgula cinco de mora diária...ah...ah...ah...hummm!
- Que porra é essa?
Surpreendi aquele senhor que segurava meu aluguel numa mão, e sua pequena rola flácida na outra.
- É você o viado que goza nas minhas correspondências?
- Desculpa!
- Desculpa o caralho – Tirei a arma da cintura e coloquei na sua cabeça – Agora você vai lamber essa porra toda, quero ver meu aluguel limpinho.

- Como quiser só não me mate.
- Depravado! O que você tem na cabeça?
- Slapt...eu...hum...slapt...eu sou um contador aposentado...slapt...desenvolvi essa parafilia por juros, e tomo remédios para tratar...slapt.
- Pelo jeito não adiantou.
- Estou sem dinheiro para comprar, depois que me aposentei minha vida desandou. Tenho saudades dos números, contas, juros, meu pau endurece quando lembro deles.
- Agora pára de lamber essa porra. Por que minhas contas? Como você se chama?
- Juvenal! Eu já tinha aberto outras aqui do prédio, mas as suas são as melhores, sempre atrasadas e com juros em cima de juros.
- Sempre essa merda de juros. Quanto é seu remédio?
- Cento e oitenta reais.
- Toma aqui quinhentos e eu vou arrancar seu pau se te pegar de novo aqui.
- Não voltarei.
- Então vai, cai fora.
Dei um tapão na sua cabeça e entrei no apartamento. Até que voltar mais cedo para casa teve seu lado positivo. Liguei o rádio e Ella Fitzgerald me disse para olhar pela janela, e observar os pequenos pássaros de aço. Tomei o que restou da vodca que Estela trouxe, e fumei o que sobrou do baseado. Não sei quanto tempo fiquei olhando pela janela, mas acordei de madrugada com frio e então fui para o calor das minhas cobertas, e para a falta de espuma daquele colchão velho. No dia seguinte entrei na Tapeçaria Golam decidido a cair fora daquela vida arriscada. Fui direto à sala do Sr. Schneider, e bati a porta com força para demonstrar a firmeza necessária que o momento pedia. Lembrei das minhas contas cheias de porra e juros, do meu colchão velho, de um aparelho de som novo, uma caixa de vodca importada, e cem gramas de maconha. Tirei dois mil do saco e entreguei ao judeu anão.
- Cadê o resto, Carlos? Oito mil, lembra?
- A vida é uma porra com juros Sr. Schneider.
- Você vai se ver comigo!
- Eu to caindo fora, judeu. Se acontecer qualquer coisa comigo fique sabendo que todas minhas ações de “cobrança” foram muito bem registradas. E os documentos estão com uma pessoa de confiança, se eu sumir, a polícia vem atrás de você. Passar bem.
Eu menti, mas ele caiu como um patinho e ficou sentado com sua boquinha aberta. Sai da sala, guardei minhas ferramentas na gaveta, passei pela Roberta e dei um tapa naquela bunda maravilhosa. Passei no RH, roubei minha ficha do armário, e botei fogo, e disse para Estela não me procurar, e se ela falasse onde eu morava, que ia atrás dela. A magrela ameaçou chorar como sempre, então dei um beijo no seu rosto, e acalmei aquela alma perdida. Fui embora com a esperança de arrumar um novo emprego, e de que Mercedes aparecesse algum dia na minha vida.

© Luiz Filho 2008
carvalho_psd[@]uol.com.br

