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A Vida é uma Porra com Juros - 2
por Luiz Filho

O prédio onde moro é ilógico para os padrões de convivências pacíficas. Quando o elevador não está quebrado, algum filho da puta o prende alguns andares acima. Moro no décimo quinto andar, então tenho que aguardar esse meio de transporte tão comum nos dias de hoje. Escada? Nem fodendo. Minha vida paralítica de álcool, cigarros e punheta fariam com que eu desmaiasse entre o nono e o décimo. Chegou, e dele desceram um casal com seus três horrendos filhinhos sujos e mal educados. Conhecia os moleques, e sabia que eles tinham a boca tão suja quanto o Tietê. A mãe era uma vadia que só falava palavrão, e o pai um pau no cu que apanhava da mulher, e contava vantagens no bar em frente ao prédio.
Entrou comigo um vovô com seus pãezinhos e um pacote de cigarros, senti que ele queria conversar, mas olhei para o lado. Se nossos olhos se cruzassem ele puxaria conversa, e eu não queria conversa. Ele desceu, e continuei minha viagem rumo ao meu mundo de engrenagens enferrujadas. Sai do cubículo e, quando tirei a chave do bolso, vi minhas cartas abertas no chão. Quase todas. As únicas fechadas eram de propaganda, ou coisa parecida. Alguém abriu minhas correspondências, e deixou todas espalhadas no chão. O mais estranho é que as abertas eram contas pra pagar, e quando me aproximei para pegar, percebi que tinha porra nelas. Além de abrir minhas cartas, esse alguém gozou nelas pra me sacanear. Mas que tipo de filho da puta gozaria na correspondência de alguém? Então a porta atrás de mim se abriu e escutei a voz da velha do 154.
- Eu vi.
- O que você viu?
- Suas cartas abertas ai no chão, e todas estão...você sabe.
- Gozadas!
- É.
- Você viu quem fez isso? Já que passa o dia olhando pelo olho mágico.
- Não! E não passo o dia olhando pelo olho mágico.
- Só quando saem às putinhas aqui de casa que a senhora abre a porta pra jogar qualquer coisa no lixo.
- Coincidência.
- O que seja, mas não viu mesmo quem fez isso?
- Não. Passei o dia fora hoje, e quando voltei vi suas cartas assim, abaixei pra ver, e percebi que tinha...
- Porra!
- Não fale assim comigo.
- Está bem, como quiser.
- Mas vou te falar, você não é o primeiro. Acontece todo mês isso, já foi com a mulher do 75, com o Seu Ernesto do 122, e me falaram de outra pessoa que não lembro.
- Sempre carta com gozo?
- Sempre! Acho que são esses moleques que aprontam aqui no prédio.
- Esses moleques nem tem pêlo no saco, vovó! Acha que soltam porra pelos seus pipizinhos fedidos? Acha?
- Não fala assim comigo!
- Bom. Boa noite!
A velha do 154 tinha esse dom de abrir a porta quando as putinhas saiam do meu apartamento. Era uma vocação pra fofoqueira que vinha sei lá de onde. A velha não ia atrás da história, a história rumava em sua direção. Fiquei sabendo que a velha trepou com o Dr. Fleury, com o Jânio Quadros, e até com o Marighela. Fez toda uma ponte com os fatos históricos através da sua buceta, que hoje guarda apenas recordações de pintos politicamente poderosos. Entrei, e fui limpar aquela porra toda que já estava quase seca. Com ou sem ela, tinha que pagar meus juros e continuar vivendo. Na vida sabemos de duas coisas, de que vamos morrer, e que até lá iremos pagar contas.
Abri minha garrafa de vodca, e percebi que não daria para o final de semana. Só três doses e nada mais para espantar os espíritos ruins do meu apartamento. Claro, e uma ponta de baseado que estava guardada há umas duas semanas. Pensei em tudo e dei o primeiro gole na vodca. Seco como o deserto do Atacama. Precisava relaxar e procurar alguma música no rádio. Até que tudo foi bem dentro daquela caixinha de música. Jogaram em meus ouvidos uns reggaes, uma seqüência de jazz, e resgataram um Public Enemy que me levou a adolescência. Então percebi que recordar a adolescência era sacanagem com minha idade. Tocou um som qualquer do Lobão e decidi que nesse momento a melhor coisa a se fazer era tomar banho. Dei mais um gole na vodca, peguei uma toalha, e ia entrar no banho quando o telefone tocou. Era a magricela seca, e eu queria uma voz feminina.

- Alô!
- Oi, Carlos! É a Estela. Tô ligando pra saber como você está, nossa conversa não foi muito boa hoje, né.
- Verdade, magrela. Me deixou com um pé atrás e uma depressão do caralho.
- Você é um cara legal. Sabia?
- Às vezes dizem isso pra mim, mas nem levo tão a sério.
- Acredite! Você é um filho da puta da melhor qualidade.
- Acredito magrela. Quer vir aqui em casa hoje? Tô sozinho, e afim de companhia.
- Onde você mora? Demorou, gato.
- Lapa! Sabe chegar aqui?
- Tô pertinho, em quinze minutos chego ai.
- Então traz uma garrafa de vodca e um maço de cigarro, que tô na lama.
- Claro! Qual vodca?
- Confio em você, magrela, traz a que achar tomável. Anota ai meu endereço.
Passei o endereço para Estela e fui para o banho salvador de todas as pragas urbanas. O rádio ligado mandava que eu dançasse ao som de um black meia boca, mas resisti, e caminhei pelado pela casa. Essa era minha mania antes de tomar banho. Andar pelado pela casa. Gostava de sentir o vento batendo na minha pica, e dela balançando ao léu. Abri a geladeira, bebi mais um pouco direto da garrafa já quase vazia e lá no fundo tinha um pouco de esperança, de que algum dia eu deixasse de ser apenas um mísero parafuso na engrenagem do sistema. Interfonei e pedi a Antônio que deixasse Estela entrar e para avisar que a porta estaria destrancada.
Nada como um banho quente para esquecer dos chinas, do Sr. Schneider, e lembrar da bunda grande e linda da Roberta. Enquanto minha mão colocava em prática os pensamentos em Roberta, percebi que o som aumentou, e o cheiro de maconha entrou no banheiro. Tocava Dazed and Confused do Led Zeppelin. O cheiro de maconha ficou cada vez mais forte, e minha mão não parava de trabalhar, e nem percebi a porta abrir.
- Quer que eu termine pra você, matador?
- Ãhn!?!
A magrela se animou, e eu tinha esquecido que falei pra ela subir direto, e entrar sem bater. Estela fez mais que isso, apagou o baseado, tirou a roupa e entrou no chuveiro com seu corpo magricelo e sua cara engraçada. Ajoelhou e agradeceu a Deus por eu ser grande. Sua boca era rápida, e Estela sabia que estava fazendo. Além dos filmes de faroeste na infância, ela cresceu e passou a gostar dos pornôs. A boca mais rápida da zona oeste da cidade. Fechei os olhos e pensei em Roberta, e de como eu estava sendo mal agradecido com a magrela da bunda seca. Ela terminou e deixou tudo bem limpinho, inclusive minha alma, que precisava daquilo há algum tempo.
- Gostoso!
- Safada!
Ela quis me beijar, mas eu fui rápido e desviei, não queria sentir o gosto do meu próprio pau. Ela saiu e disse que estava me esperando na sala, com a vodca e mais um baseado. Nem sabia que ela fumava. No ambiente de trabalho todos parecem caretas, depois do primeiro happy hour as coisas mudam, mas eu não gostava de ninguém da Tapeçaria Golam, e não achava que as pessoas dali eram confiáveis para dividir uma mesa de bar. Apenas Roberta, e ela era um caso de necessidade. Sai do banho e continuei pelado, Estela já tinha visto tudo mesmo, e não vi problema algum em balançar meu pinto pra ela enquanto caminhava pelo apartamento.
- Por que suas contas estão enrugadas?
- Uma história esquisita. E por que você ta mexendo nas minhas coisas?
- Ah! Estava só olhando um pouco da sua vida.
- Já viu demais, não?
- Meu matador!
- Já disse pra você parar com isso, senão vou sumir com você.
- Não tenho medo, matador.
Dei-lhe um tapa de mão aberta que acabou com sua viagem de maconha. Estela ameaçou chorar, e eu a acalmei com beijinhos na testa e por todo o seu rosto.
- Acende esse baseado, linda. Vou preparar uma bebida pra gente.
- Escroto!
- Não sou mais seu matador?
- Não, você é um filho da puta matador de corações apaixonados.
- Eu sei disso, lindona. Aliás, como você tinha meu telefone?
- Trabalho no RH esqueceu?
- Verdade. Toma...bebe um pouco e me passa esse baseado. A semana foi difícil e eu quero relaxar. Acha que é fácil lidar com os chinas?
- Sei que não! Você é o vigésimo cobrador da empresa, todos somem depois de um tempo, e nem aparecem para buscar a rescisão. Acho que é a máfia.
- Que máfia?
- Chinesa. Não sabe? Deixa de ser otário, todo mundo sabe da máfia chinesa que controla os comerciantes chineses e coreanos no Bom Retiro.
- É! Tô sendo otário mesmo, fui em busca de um emprego, e meti num ninho de serpentes orientais. E aquele judeuzinho do Sr. Schneider nem suja as mãos.
- Até que você tá durando. Tem três meses na empresa, os outros nem chegaram a um.
- Vou cair fora! Agora vem cá com seu matadorzinho otário, larga esse baseado e senta no meu colo.
- Safado!
Trepamos três vezes aquela noite ao som de Coltrane, Davis e outros heróis. Acordei Estela no dia seguinte com uma chupada, e trepamos de novo, e depois a mandei embora dizendo que um homem precisa ficar sozinho nos finais de semana, e que se eu sentisse saudade eu ligava, e ela disse que eu era um merdinha egoísta. Nisso eu concordei com a magrela, mas precisava do meu mundo solitário e de observações. Eu queria pensar num jeito de me livrar daquele trabalho sujo, antes que um bando de Bruce Lee sumisse comigo.


