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A Broca Literária

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A noite das sanguessugas

por Jim Chaffee

Marble Mountains, 2000

Uma daquelas noites. Monção de inverno. Puta chuva tão pesada que os sinalizadores atrás das "montanhas de mármore" mal conseguiram reluzir; suas trilhas fosforescentes ondulando na densa atmosfera como lembranças perdidas da juventude.

Nós explodíamos sanguessugas. Recolhêramos de um bando de fuzileiros que passara praticamente as últimas vinte e quatro horas sangrando num arrozal por volta da região de An Hoa, ou talvez perto da colina 10. Quem sabe em Go Noi? Pouco importava onde estiveram. Surpresa foi conseguirem resgatar aquela gente toda, considerando a intensidade do dilúvio. Estabilizamos os coitados, tiramos cada um deles da triagem e os levamos à ala cirúrgica. Sempre coletando as sanguessugas recém-apanhadas com cuidado, para uso posterior.

A hora delas tinha chegado. Injetar acetona em seus corpinhos inflados e acendê-las, vendo-as explodir como uma massa de carne escura e sangue humano. Bombas vivas.

Morrison veio se juntar a nós, um insone de folga sem lugar pra desovar. Dormia umas poucas horas por noite, quase sempre vagueando ao longo da madrugada para ver se integrava algum evento interessante. Era o médico mais jovem da triagem, ostentava maior tempo de serviço, boa parte como reservista, e gostava que o chamassem de Papai. Raramente o chamavam assim. Parecia mais uma criança.

Baterias de explosões e tiros bombardearam nosso tédio; sinalizadores para ataque hostil e rastros de traçante varando a densidade noturna como fogos no dilúvio, tudo ali perto da montanha grande, a que os fuzileiros chamavam "Alça do Queixo" em virtude de seu perfil. Nui Thuy Son para os vietnamitas. Ficava ali, sentadinha na praia pelo lado oceanico da estrada do batalhão. Imaginamos um ataque sobre as unidades combinadas da ala afastada das montanhas de mármore, mas estávamos errados. Recebemos uma chamada pedindo uma ambulância.

Marble Mountains, 2000

Morrison catou a chamada, deixando-me puto.

Pelo menos ele tinha botas e apetrechos. Houve uma noite em que atendi uma chamada com chinelos de dedo, shorts e camiseta, vestido como se fosse à praia. Apareci no lixão ao pé de Nui Tho Son, a montanha de mármore que os fuzileiros nomearam "Ninho do Corvo", uma rocha nua e maciça que aflorava em direção aos céus da terra arenosa oposta à estrada oriunda da Alça do Queixo. Um time de observação ANGLICO e seus rifles de106 milímetros se empoleiraram no topo sem serem vistos durante a noite.

Na verdade, estávamos próximos à praia, mas os fuzileiros cercaram um perímetro e um bando de caras vestindo jaquetas anti-aéreas e capacetes circularam com suas M-16 travadas e carregadas. Uma daquelas pick-ups tinha chamuscado como um farol, banhando cinco figuras espalhadas na areia em volta com os caprichos da luz do fogo. Pela cor de seus cintos, podia-se saber que eram da marinha, e não fuzileiros, decerto seguranças do campo "SeaBee" ao lado do lixão.

Ouvi gente resmungando "Malditos médicos de campo" logo que saltei da ambulância, vestido como estava, desarmado, só com o kit básico, olhando atentamente a caminhonete incendiada. Helicópteros de assalto vistoriaram a base do Ninho do Corvo com holofotes. Um punhado de cintos incrementados, não os do tipo padrão, assavam na imundice ao lado do veículo em chamas, cozinhando balas de 45. Sinalizadores a descer lentamente de pára-quedas, balançando como lamparinas penduradas nas nuvens, lançavam uma luminescência bruxuleante sobre toda a cena. Sombras transmutadas pelo ritmo de sua sinuosa aterrisagem. Cheiro de cordite temperado com a pungência de carne e cabelo queimado pairavam no ar.

Não fazia diferença eu estar ali. Logo vi que eram um caso perdido. Cremados, fitando o céu em semblantes de peixe-morto, exceto um cara que continuava respirando com uma chama ardendo numa cavidade em seu peito. Percebi que não fazia sentido trabalhar nele. Sua bexiga rompia enquanto eu o observava, corroborando meu silencioso argumento. Uma turba de espectadores me encorajava a salvar o ferido, como se eu fosse um Deus. Dei-lhes minha melhor expressão de pesar e murmurei "Esqueçam".

Um bando de fuzileiros me escoltou à estrada, cercando-me por segurança, marchando pela areia funda como uma lagarta de onde armas se eriçavam para todos os sentidos. Na garupa de um jipe, duas garotas vietnamitas com parte das tripas expostas jaziam de barriga para cima. Nenhum outro ferimento era visível, e logo imaginei que tinham sido estripadas em função da explosão que causaram acionando uma mina abaixo da caminhonete destruída. Vieram de um vilarejo próximo, decerto Bihn Ky, para onde provavelmente se mandariam após seu ato, execrável ou heróico, dependendo do ponto de vista. Indiquei um hospital a cerca de um quilômetro e mandei-as para lá. Quem era eu para julgar?

De qualquer modo, pelo menos "Papai" tinha se vestido para a ocasião.

Marble Mountains, 2000

O alvoroço continuou a noite inteira, como uma longa e entediante discussão: Palavrório de M-16s e intromissões oportunas de algumas M-60 respondendo à tagarelice de AK-47s, enfatizada com explosões. Papai não voltaria até o sol nascer.

Pela manhã, uma enorme bandeira vietcongue tremulou sobre a Alça do Queixo, sobrelevando todas as instalações americanas. Antes de trazer Papai de volta, catamos um punhado de soldados montanheses feridos que vieram num caminhão, membros das forças MIKE do acampamento da Quinta Força Especial não muito longe ao longo da estrada, na praia ao pé da Alça do Queixo, dentro de um perímetro seguro do lado de cá das montanhas de mármore.

Papai trouxe sua ambulância repleta de americanos feridos enquanto permanecíamos vislumbrando o novíssimo helicóptero Cobra esterilizar a montanha com foguetes e metralhadoras, dando suporte aos desorientados montanheses agrupados na superfície daquele afloramento arborífero, rochoso e infestado de cavernas para arrancar o que restou dos sapadores que tinham ferrado seu acampamento.

Papai sorria de orelha a orelha enquanto me contava sobre sua aventura com os Boinas Verdes. No portão, guardas atiravam no próprio reduto, dizendo-lhe que não podia entrar. Ele entrou assim mesmo, com o motorista desbravando fogo cruzado na direção do dispensório para achar um médico do exército estupefato em ver um médico da marinha, desarmado e sem qualquer aparato de proteção, surgido como se nem fizesse parte daquele jogo, aparecer à sua porta. Ele continuou lá dentro, mas vestiu Papai e o motorista com o equipamento apropriado, deu-lhes M-16s e mandou-os sair.

Marble Mountains, 2000

Papai gargalhou e disse que tinha inimigo para todo lado, lançando mochilas explosivas em tudo. Ele achou confusamente engraçado o líder dos Boinas Verdes ter sido morto no posto de comando. Papai se escondeu e assistiu à guerra.

Lembrei do agente da CIA que viera a nossos cuidados de Dong Ha, vestindo uma camisa havaiana, mocassins e calças de lã, carregando um 38 cano curto que guardamos na armaria. Emanando desprezo na escuridão, fora resgatado com uma turba de refugiados após a tragédia do acampamento. Ele reclamou dos Boinas Verdes em Lang Vei. Eram durões, disse, aqueles Boinas Verdes, mas uns soldados de merda, que não montavam guarda e nem faziam patrulhas. O exército vietcongue realizara um ataque furtivo, disseram, em tanques. Rira ele.

Então, lá estavam os caras fudendo tudo de novo, seu acampamento invadia uma área vigiada; os sapadores intrusos colocando uma bandeira inimiga no ponto mais alto possível.

Lutaram na Alça do Queixo a manhã inteira, os helicópteros abrindo fogo para ajudar os montanheses, muitos dos quais acabaram mandados à nossa triagem. Ficamos todos, já que era um caso com muitas baixas, mas foi Papai quem mais se divertiu.

Quando o procurei na sala de pré-operações, estava inclinado sobre um americano ferido com um pequeno corte de estilhaço atrás do ombro. Papai trabalhou sobre o ferimento, tirando todo o tecido morto, debridando o hematoma até ele ter o formato de uma bola de rugby para fechar corretamente. Sempre que eu voltava da colina para a pré-operação, encontrava o homem ali, ainda cortando, e o ferimento crescendo. Por fim, tinha o formato e o tamanho de uma bola murcha de brinquedo. Ele piscou para mim.

Mais tarde, disse-me que o ferido era um oficial Boina Verde arrogante à beça. O oficial perguntou ao médico se poderia usufruir seu período de descanso no Havaí onde, em duas semanas, pretendia se encontrar com a esposa. O médico disse "claro", pois a lesão era pequena. Papai certificou-se de que ele ganhasse seu coração púrpura, perdendo aquela data, sendo em vez disso mandado a um hospital no Japão.

Limpamos os feridos restantes para triagem no início da tarde. A bandeira vietcongue desceu uma hora após o sol subir, mas montanheses feridos chegaram o dia todo. Não eram tantos a ponto de precisarmos ficar lá o tempo inteiro, então saí para tomar umas cervejas e dormi enquanto Papai procurava mais feridas à espera de debridamento.

Acabou que os Trouxas Verdes, como os chamávamos, indicaram Morrison e o motorista da ambulância para medalha estrelada de bronze. Sagaz o bastante para saber que Papai provavelmente se escondia enquanto a batalha acontecia, a marinha rejeitou o pedido, embora seu real motivo fosse mais político do que ético, já que o motorista conseguiu a dele.

De qualquer modo, a noite seguinte se arrastou sem surpresas. Peguei-me desejando mais sanguessugas, assentando-me em vez disso para jogar truco numa mesa improvisada com dois cavaletes sobrepostos por uma tábua de madeira que servia como prancha de massagem cardíaca. Jogamos com o risco de interrupção, sempre ressentindo a chegada de qualquer enfarte que ousasse perturbar nosso jogo.

Marble Mountains, 2000

tradução por Luiz Mendes Junior

© Luiz Mendes Junior 2008