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A Broca Literária

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Um Pedido a Carlos Cruz

por Juliano Guerra

abelha em flores

Joana me disse, quando eu estava de joelhos no colchão e ainda confuso quanto a um possível orgasmo, que gostava de porra.

– Diz onde ta pga eu lamber, eu adogo.

Tinha a língua presa. Digo, pra falar, no boquete até que ia bem. O foda do excesso de álcool é que às vezes eu não sei se gozei ou não. E, tendo em vista esse desconcerto, preferi ficar calado. Gonçalves Ribeiro disse que o silêncio é o melhor modo de dizermos coisas desagradáveis, eu concordo. Estava de saco cheio de Joana.

– Queg tomag um banho comigo?

Quando vi Joana pela primeira vez, achei gostosa. Ela tinha uma flor vermelha sobre a orelha e usava um vestido indiano, escondendo a gordura que mais tarde me desapontou. Eu fiquei fascinado com a língua presa, estava lá uma coisa pela qual eu ainda não tinha tido um fetiche. Disse pro Rodeghiero convidá-la pro nosso show.

– Vou sim, eu adogo samba.

O meu encanto pelas coisas durar tão pouco é mal de longa data. O que ocorre é que o vazio está sempre empurrando todo o resto pra fora, até o tesão. Mas eu não preciso disso pra foder — aprendi a ter ereções baseadas em raiva e insatisfação. Olhando, nem se nota a diferença. O problema é que às vezes não sei se gozei ou não. Como com Joana, que procurava ensandecida por respingos de esperma nas minhas pernas.

– Acho que não tem nada aí.

Chupei-a direitinho, daí que se apaixonou. E tive que aturar ternuras, coisa que me tira do sério. Até porque eu não tinha dado essas intimidades. Um cunnilingus mal interpretado e o sujeito já vira homem dos sonhos – maldito dia em que eu comecei a foder. Tive que arrumar uma desculpa pra ir sozinho pro banho.

– Não gosto que me vejam no claro.

Ela se encantou com a minha pele e me lambia o pescoço, pouco se importando de estarmos num lugar público. Félix, clarividente e dono do boteco, se matava de rir. E eu, podre de bêbado, enfiava a mão por baixo das calças pra apertar a bunda de Joana. Essas frescuras, mais o porre, resultaram em Joana indo comigo pra casa.

Quando descemos do carro, Rodeghiero me enfiou uma camisinha no bolso da jaqueta.

abelha em flores

– Te liga aí, bróder.

Chupei Joana e ela se apaixonou, maldita sina. Comecei a ficar enojado quando ela deixou o sutiã sob os peitos, pra segurá-los. Seios sem dignidade, pensei, caídos, tetinhas de cadela. Mas a chupei mesmo assim, e depois meti com raiva e de tudo quanto é jeito. Quando Joana gozou, se desencaixou do meu pau e deu início ao boquete.

– Desculpa te falag, mas tu tem um pinto magavilhoso.

De fato, sempre foi meu orgulho. Apesar de torto. Depois Joana espalhou pras amigas que eu era “o Capitão Gancho”. Não teria sido uma foda ruim se ela não tivesse inventado de ficar sentimental. Se tem uma coisa que me aborrece é ouvir sobre a infância difícil das mulheres que como. Aliás, ouvir sobre a infância difícil de qualquer pessoa. Se querem compartilhar suas memórias, escrevam um livro — talvez eu leia.

Joana começou a dizer que ia me fazer esquecer minha namorada. Andava falando pra todos que em pouco tempo eu seria “só dela”. Nunca cogitei deixar minha namorada por nenhuma das paquitas, muito menos por ela. Eu sou uma boa foda e até tenho meus momentos, mas pra me aturar, só Elisa.

Não sei como, Joana conseguiu meu telefone.

– E aí, ta fazendo o quê?

– Liga depois, to enrabando uma amiga.

Não adiantava ignorá-la, continuava correndo atrás de mim. Resolvi adotar outra tática: comê-la de novo, mas dessa vez não deixá-la gozar. Marcamos o encontro pra uma sexta-feira. Por causa da repulsa, precisei de um novo porre. Exagerei, quase caí duro, foi Joana quem me levou pra casa.

– Não te pgeocupa, eu cuido de ti.

Começou os cuidados com um novo boquete, ainda melhor que o primeiro. Mas meu plano de não satisfazê-la estava indo bem, porque eu mal conseguia endurecer o pau. Dessa vez, gozei. Dentre as coisas ruins, era uma coisa não tão ruim. Boquetes são quase uma forma de arte, e a beleza é que aproveitá-los independe de sentimentos. Ou tesão. Mas Joana queria mais.

– Me fode, poeta.

– Porra, Joana, me deixa dormir.

Depois de gozar é que o vazio fica ainda mais evidente. Se eu tenho alguma coisa parecida com alma, vaza junto com a porra. E cabia empurrar o desgosto pra Joana, martelando contra seu útero — mas o fato é que eu não tinha força pra tanto.

Me aninhei entre meu vazio e as cochas flácidas de Joana. Minha burrice é sempre querer substituir o desgosto por alguma outra coisa. Seria melhor me acostumar com a ânsia e parar de cometer atentados contra a dignidade, minha e dos outros. Se bem que, no caso de Joana, até que era merecido. Pra que se apaixonar? Eu não tinha sido um bom sujeito? Até a chupei, apesar de ser nossa primeira vez e eu não saber da sua procedência.

– Ah, poeta, me fode só um pouquinho.

Joana gostava de porra e de Caetano. Eu sempre fui um sujeito mais Chico Buarque, talvez estivesse aí o problema. Ela não ficou desapontada por eu não tê-la fodido, pelo contrário, ainda me chupou de novo quando acordei. E insistiu na história do banho.

– Joana, eu sou deformado, não posso ser visto a luz do dia.

Depois não falei mais nada. Aquela coisa de ficar calado pra dizer as coisas desagradáveis, ou ainda: meu profundo desrespeito. Joana não ia embora, tive que lhe indicar a porta da rua.

—Agora eu tenho umas coisas pra fazer, Joana. Outro dia a gente se fala.

Mas tem o meu “desapego da realidade”, e ainda minha dificuldade de manter as decisões. Sei que quando Joana finalmente desistiu, comecei a pensar nela. Me masturbava pensando no seu boquete. Fiquei tarado pelos peitinhos caídos de Joana. Tive que telefonar.

– E aí, ta fazendo o quê?

– Sendo engabada por um amigo.

Joana deu pra me ignorar, nem me cumprimentava mais. Eu, apesar de entregue as putarias & desregramentos de sempre, continuava querendo Joana. Um dia, num atentado contra meu escasso amor próprio, fiz nova investida.

– Seguinte, Joana, eu te chupo de novo.

Não adiantava, ela não queria saber. Aquilo estava fora de controle. Não é que eu estivesse apaixonado, era só tesão insatisfeito. Mas perigava virar coisa pior — me imaginava ficando emocionado com crianças cantando na igreja & animaizinhos de comerciais de margarina. E ao invés do vazio — que, a bem da verdade, tinha qualquer coisa de cômodo — eu descobrira uma ausência, qualquer treco latejante e contínuo, feito o prenúncio de uma dor de dente que não vinha nunca.

A solução que arrumei foi chamar uma puta, dessas de anúncio de jornal. Marquei com a moça num hotelzinho da Quinze – oito reais a noite e cocaína inclusa no café da manhã.

– Eu quero te chamar de Joana, pode ser?

– Claro, querido, meu nome é Joana.

No começo funcionou, o boquete era tão bom quanto o da verdadeira Joana e ela não tinha as tais gorduras.

– Não tira o sutiã não, deixa embaixo dos seios.

Avisei que eu não queria gozar. Tinha que ser uma repetição perfeita do primeiro ato, a idéia era me inocular pela doença – um exorcismo às avessas. A moça estava achando tudo o máximo.

– Tu é uma figura, meu bem, quem é essa Joana, tu ama ela?

– Tu é a Joana, esqueceu?

Quando estava lambendo sua barriga, prestes a chegar ao cunnilingus, ela disse:

– Tem certeza que quer fazer isso? Já fiz outros programas hoje.

– É preciso.

Ela adorou. Gostou tanto que insistiu em ficar comigo além do tempo contratado. Me beijava e dizia que queria ser minha Joana, que seria minha Joana pra sempre. Até as putas se sentiam no direito de ter ternuras comigo, só podia ser macumba. Nesse engodo, a moça adormeceu no meu braço, suspirando. Eu estava calado, por conta das tais “coisas desagradáveis”, mas comecei a duvidar desse método. Com algumas mulheres, talvez ficar calado só sirva de estímulo pra que elas preencham o silêncio com elogios que querem ouvir.

– Dorme bem, Joana.

Na bolsa da falsa Joana tinha uma grana alta, dinheiro de três ou quatro programas. A porra que eu tinha lambido, pensei. Peguei o dinheiro e dei o fora, disposto a tomar um porre e falar pelos cotovelos com a primeira que encontrasse — quem sabe até contar minha infância difícil.

vespa come abelha

Se Carlos Cruz, escritor e polícia, ler este conto, está aí. Confesso, roubei uma prostituta. Além disso, fiz uso de entorpecentes e usei o nome de Deus em vão. Me prenda, amigo Cruz, por favor. Desde que eu fique longe de Joana, das prostitutas, de qualquer fêmea disposta a entupir sua ânsia com amor. Eu prefiro ficar com o meu vazio, me ponha numa cela – só não deixe que elas me visitem, Cruz, estou te pedindo.

Outro dia, quando a Joana de programa ligou, pensei que fosse para cobrar seu dinheiro.

– E aí, ta fazendo o quê?

– Enrabando uma amiga.

– Tudo bem tu ter pegado o dinheiro. Eu quero te ver de novo.

– …

– Só que eu queria te dizer uma coisa, meu nome é…

– Não fala.

– Deixa eu falar, é até engraçado.

– Não fala.

– Meu nome é Joana.

Cruz, estou esperando.

© Juliano Guerra 2008