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A Broca Literária

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Sete

por Marcello Trigo

Lisboa

Tem louco pra tudo nesse mundo.

Estou escrevendo uma carta para um deles, e de repente vocês podem me ajudar.

É o meu amigo Antônio, e a loucura dele não é nada de extraordinário, como colecionar bicicletas dos anos quarenta, ou deitar sobre cama de pregos. A loucura do Antônio, que é mais uma mania do que uma loucura, é achar que o número 7 o persegue em todo lugar. Sabem aquele técnico da seleção que adora o 13? Pois é, com o Antônio é o 7.

E como faz tempo que não o vejo, decidi eu mesmo mandar alguma coisa pela Internet. Quem sabe eu comece assim:

"Caro amigo,

Espero que vc esteja legal aí."

A fixação pelo algarismo citado começou na infância, quando ele ganhou da tia um baralho de presente de aniversário. O maço é bonito, ele me mostrou uma vez, com uns naipes rebuscados, parecendo coisa da época da Rainha Vitória. Mas tinha vindo com um problema de fabricação: uma carta a mais, o 7 de Espadas. E aquela literal "carta fora do baralho" acabaria por mexer com a cabeça do meu amigo.

Tanto que, quando começou a ganhar uns trocados trabalhando para o tio, Antônio comprou uma carteira bem larga, para que pudesse deixar o 7 de Espadas junto com o dinheiro. Acho que, naquele momento, uma espécie de início à real obsessão que viria em seguida, ele ainda achava que a carta era uma espécie de trevo de quatro folhas.

Ele a plastificou, e carregou-a durante o período do ginásio, onde eu o conheci. Às vezes, pegava-a apenas para ficar manipulando distraidamente enquanto pensava. E lembro até hoje de uma prova em que, de tanto girar a carta entre os dedos, a professora pensou que fosse cola, e o mandou para a coordenação.

Muito tempo depois, na faculdade, eu o vi algumas vezes usando aquela coisa para marcar livros, separar lugar na agenda, coisas assim. Era como o Duas Caras, do Batman, que vive jogando uma moeda pra cima. O Antônio não jogava a carta 7 de Espadas para cima, mas via-se que ele a mantinha na mão ao consultar um dicionário, ou a segurava na boca enquanto mantinha as mãos ocupadas com a bandeja, na fila do refeitório.

Tive outra idéia:

"Caro amigo,

Espero que vc esteja pintado o sete por aí!"

Não ficou bom? Vocês acham clichê demais? Eu também... mas vai ficar assim.

Ele carregava aquela coisa até no bolso de trás da calça quando a turma saía para pegar mulher. Ele fez uma tatuagem no braço direito, um desenho do naipe de Espadas emoldurando um grande número sete. Esse detalhe da tatuagem é meio coisa de bicha, mas vá lá... trata-se do meu amigo Antônio.

Certo, agora esqueçam isso, pois isso não é um conto do Jostein Gaarder. A fixação do Antônio é pelo número 7, e não por uma carta de baralho.

Ele só foi notar isso quando, depois de meses morando na república dos estudantes, reparou que o número na porta do apê era 777.

Naquele dia a turma ia sair para jogar sinuca, e eu tinha acabo de comprar o meu carro. Quando passei para pegá-lo, e ele veio rindo pelo campus, doido pra me contar a coincidência, quando parou de chofre, olhando para a placa do meu carro. ST-1477. Eu pretendia substituir, porque o carro era usado, e a ferrugem estava comendo placa e pára-choque. Mas isso não importava para o Antônio, que na mesma hora tirou o 7 de Espadas do bolso, e ficou lá, parado, olhando para o carro.

Depois que entrou, seguimos pela estrada com ele me contando o que tinha acontecido. Eu, só curtindo com a cara dele.

Chegamos ao local combinado. Era uma casa recém inaugurada, e o dono era um negro daqueles grandalhões, que parecem só existir no universo das anedotas, sabem? Era uma referência a ele, sem dúvida, o nome expresso num neon azul-elétrico sobre a porta. O nome era: Bola 7 Snooker Bar. Achei daquilo a maior graça, e acenei para o pessoal, que já nos esperava lá dentro com impaciência, batendo com o dedo nos mostradores dos relógios. Entramos, ou melhor, entrei, porque o Antônio deve ter ficado pelo menos um minuto olhando para o neon.

Já viram, né? Um poderoso insigth apoderara-se dele. O algarismo o perseguia! Pena que ele só descobriu isso depois de fazer a tatuagem...

Sabem quando alguém perde uma pessoa querida, e começa a achar que vê a pessoa em todo canto? Foi isso o que aconteceu com o meu amigo. Desenvolveu um senso aguçado para ver o número onde quer que estivesse. Podia ter sido o 6 ou o 3456, tanto fazia, mas sua percepção havia escolhido aquele número agourento, e dele não haveria de largar tão cedo.

O Antônio começou a prestar atenção redobrada a uma série de coincidências que se repetiam na esteira da primeira.

A tia dele compra um coleção de CDīs com a coletânea do Orlando Silva, e são sete discos numa caixa que custa sete dólares.

Ele conta o número de verdadeiros amigos que tem, e cisma que os verdadeiros mesmo, aqueles com quem ele pode contar em tempo integral, sete dias por semana, são sete. Entre eles eu, claro.

Na fila do refeitório, ele começou a reparar que geralmente era o sétimo, contando do caixa para trás.

Ele encontra um livro raro num sebo, e o livro custa R$ 7,00. E o título do livro, "Os Sete Minutos".

E falando em livros, um escritor amigo nosso decide escrever um livro de vampiros chamado "Os Sete". E não estou bem certo, mas acho que o número de personagens, ou de páginas, é múltiplo de sete.

O celular do Antônio, na configuração, tem sete toques musicais diferentes a escolher.

No dia em que ele achou um cartão telefônico perdido num orelhão, adivinhem quantos créditos tinha!

É claro que as simbologias por trás do algarismo são inegáveis. Eu não conheço os mitos do Alcorão, mas sei que na Bíblia - e todo católico sabe disso - é um tal de sete pra cá, sete pra lá, tudo é sete: Pragas do Egito, Trombetas do Apocalipse, perdoar setenta vezes sete.

Todos também conhecem o misticismo do número 3, outro algarismo visado pra caramba, e o interessante é que, na Índia, um respeito semelhante recai sobre o 4. Quatro mais três, é igual a...

Uma vez saímos em turma para ir ao cinema - se eu disser que o filme era "Seven: Os Sete Pecados Capitais" vocês vão dizer que eu estou forçando a barra, mas era esse mesmo - e combinamos de encontrar o Antônio na porta do Shopping. Estavam lá o Rogério, o Armando, o Geraldo, o Padilha, a Juciara com sua prima, Lavínia, e eu. Já sei o que estão querendo saber... se tinha alguém "pegando" essas duas... não, não tinha ninguém pegando ninguém no dia... quer dizer, parece que a prima da Juciara andou dando uns beijos no Geraldo, mas isso não tem nada a ver com a nossa história. O fato é que, com o Antônio, formamos um grupo de oito pessoas na bilheteria. Oito pessoas, dirão vocês, e daí...? Coisa que eu também disse ao Antônio quando ele mesmo me cutucou na fila.

- Que foi? - disse eu.

- Não reparou?

- Reparar em quê?

- Eu fico na minha, eu não procuro, mas a coisa me persegue.

- Onde?

- Você contou a turma hoje?

- Somos oito, Antônio. O único 7 é no nome do filme. E daí...?

- Daí que não é disso que eu estou falando. Olha só...

E ele explicou, rápido e certo como faz quando quer provar suas teorias. Éramos oito pessoas, por certo, mas sete pessoas tinham os nomes formados por sete letras, vocês repararam? Só eu fiquei de fora. Meu nome é Cunha.

Só um pouco gente, mas é que eu anotei umas coisas pra mandar pra ele, e não posso esquecer de falar do site sobre as condições do tempo:

"Meu,

Espero que vc esteja pintado o sete por aí! Há, há, há...

A sua mãe ligou e pediu pra te mandar essas fotos que estão indo dentro do envelope. Tomara que vc goste. E a galera arrumou um site de meteorologia, e a cada vez que a vemos as condições do tempo por aí, teu nome vira assunto de debate.

Antes de mais nada quero que saibam que e o Antônio não era um limitado, e que também gostava de outras coisas, como carros antigos, veleiros, e da série Jornada nas Estrelas.

A última vez que nos falamos foi em julho, quando ele já estava muito obcecado. Pelo número? Não, não é pelo número agora. Pelo número ele sempre fora obcecado, desde pequeno. Eu me refiro a outra obsessão, aquela que fez o cara sumir, e que motiva nossa prosa. Esta é a história de como o meu amigo Antônio descobriu outra mania pra correr atrás, além da que vocês já sabem.

A nossa galera, como já deu pra notar, está na faixa dos vinte e poucos anos. Fase difícil, onde ninguém parece ter a idade que tem, e não se sabe quem já virou adulto e quem só está fingindo. Tem gente mais velha andando conosco, lógico, e os mais antigos no grupo são a trupe do encontro no cinema que eu citei agora pouco. Não antigos de "velhos", mas por se conhecerem a mais tempo. Ali estão os amigos que já andaram se fitando com algo mais na cabeça do que simples amizade, como no caso da Lavínia e meu outro colega, por exemplo. Ali estão os que já beberam demais nas festas, e já dormiram um na casa do outro. Todos gostam de filmes parecidos, jogam RPG, curtem músicas nem sempre das mesmas bandas, mas de estilos muito próximos, e todos navegam na Internet.

Uns gostam de sites de jogos, outros de navegar em páginas de pornografia, e quase todos adoram conversar nos chatīs. O Antônio era um. Seu nick era "Dave".

Uma vez ele estava numa sala de interessados em iatismo e coisas do mar, quando alguém com o nick "NZ" meteu-se na conversa. Parece que o Amir Klink estava nessa sala também, e todos os interessados em embarcações estavam travando acalorada discussão a respeito de pingüins na Antártida, quando NZ entrou fazendo propaganda de um site sobre símbolos de azar e sua influência na cultura pop.

Como o pessoal na sala do Amir Klink não queria saber de símbolos de azar, nem de cultura pop, todos mandaram NZ à merda, e o expulsaram.

Eu não entendo de Internet mais que o necessário, mas dizem que é possível expulsar uma pessoa de dentro da sala de bate-papo quando ela está incomodando. Quem faz isso são os usuários que estão monitorando o comportamento dos demais, e que detestam propaganda de coisas que não tem nada a ver. Mas nada impede que a pessoa expulsa retorne com nick diferente, e foi o que aconteceu. NZ surgiu na tela como "Tehapua", mas na última hora se identificou, e com numa mensagem furiosa:

"- Que bom que me expulsaram! Adeus a todos, e tomara que cada um de vocês quebre um espelho por dia..."

Minha opinião? Coisa de riponga precoce.

Adolescentes chatinhas, cheias de penduricalhos vendidos na praça, que arranjam um livro de Cartas Chamânicas e ganham popularidade lendo o futuro dos colegas do Segundo Grau, geralmente em festas onde fumar e beber coisas pesadas é de lei, já que nenhum adolescente deve passar essa fase sem algum tipo de revolta; as drogas fazendo parte, é claro, do suposto estilo "não-tô-nem-aí" de ser.

E Tehapua? Que porra de nome é esse? Vai ver a figura já estava se achando líder dos peles-vermelhas. Efeito de horas em frente ao baralho chamânico, enchendo a cara de Vodca e da erva do diabo.

Foi isso que eu disse ao Antônio.

Mas ele difere de algumas pessoas do grupo. Qualquer coisa um pouquinho mais "esotérica" chama a sua atenção assim como o mel atrai abelhas. O que mais poderíamos esperar de um cara supersticioso? E detalhe: esse papo de espelho quebrado remete ao número 7 de novo.

"- Não precisa ficar assim..." - respondeu o Antônio - "Qual é o endereço da sala dos espelhos?"

Diz ele que só apertou Enter e enviou a mensagem, sem compromisso, pois acreditava que a pessoa só havia entrado para dizer o desaforo, e que saíra logo em seguida.

Mas qual não foi sua surpresa, quando veio a seguinte resposta:

"Puxa, obrigada... o endereço é..."

Um agradecimento escrito no feminino! Isso acende qualquer um. As mulheres têm essa mania na Internet; assumem nicknames masculinos, para passar despercebidas, e traem o disfarce agradecendo no feminino. Antônio entrou no endereço que ela lhe mandou, que era “www.saladossespelhos.com”, e era da lavra da própria NZ, ou Tehapua, como queiram. Por isso ela ficara tão agradecida: numa única e despretensiosa resposta, meu amigo acertara na mosca!

Em contrapartida, ela também acertara, e duplamente, ou triplamente; primeiro por dizer "obrigada", depois por citar o número 7, e por último, por ter um site na Internet. Há coisa mais irresistível do que uma mulher que cria sites?

O Sala dos Espelhos continha muita informação interessante, não só sobre símbolos, mas também interpretação de sonhos, horóscopo, rituais cabalísticos, magia de wicca - nem lembro se a gente escreve mesmo com dois cīs - e uma parte com links bem legais para se chegar a assuntos correlatos. NZ, ou seja lá qual fosse o seu verdadeiro nome, era ligada mesmo nessas coisas.

Enquanto falo com vocês e escrevo a carta do Antônio, estou com o site aberto na minha frente. Ele tem bordas verdes ornamentadas com ramos de alguma planta sem flor. E quando a gente passa o mouse sobre os ícones diferentes espalhados na tela, eles se destacam, e ouve-se um barulhinho de pó de pirlim-pim-pim. Coisa meiga...

Não há nada de cartas chamânicas aqui, mas tem um link para que as visitantes cheguem a outro endereço dedicado ao baralho indígena... viram? Eu não estava de todo errado...

Há também uma explicação para o nome. NZ nos fala que, perto de onde mora, há um parque de diversões que fazia muito sucesso nos anos 20, e que o pai dela restaurou para as crianças do lugar. Ela conta que o brinquedo mais legal é a Sala dos Espelhos.

A pessoa entra por uma porta em arco, cuja parte mais alta é enfeitada por um palhaço com cara de desnorteado: olhos vesgos esbugalhados, língua de fora, braços cruzados apontando as mãos enluvadas para direções diferentes. É um convite, e ao mesmo tempo um lembrete, de que a pessoa pode sair assim de lá. O chão é forrado por um carpete verde, e a pessoa que caminha por ali se vê multiplicada dúzias e dúzias de vezes, em todas as direções. A gente se vê de frente, de costas, de perfil. E depois tenta se livrar do medo de nunca mais achar a saída do outro lado.

Eu acho que o nome do brinquedo está errado. Devia ser Labirinto e não Sala. Mas tudo bem.

Segundo NZ, até 1987, época da reforma, todas as coisas do velho parque tinham feridas de corrosão, causadas por décadas de maresia. E os mendigos usavam o lugar para dormir ou fazer cocô.

Mas parece que, de todo o trabalho para revitalizar o parque, a Sala dos Espelhos foi a que deu menos trabalho. Diferente dos cavalinhos do carrossel, de focinhos descascados, ou de algumas peças da roda gigante, que ofereciam perigo de desabar a estrutura toda, o pai de NZ precisou apenas substituir dois ou três espelhos dentro da Sala. A maioria estava bem conservada, livre das manchas que adquirem as superfícies polidas com o passar do tempo. Depois disso, bastaram duas mãos de tinta nas colunas de sustentação, alguns dias para sair o cheiro de cola do carpete, e pronto, estava nova como no dia da inauguração.

NZ diz que sempre achou esse brinquedo o mais misterioso de todos. E sempre que ela lembra de qualquer coisa intrigante, sua mente remete à Sala dos Espelhos.

Como seu interesse por coisas ocultas já vinha de longe, uma tradição entre as mulheres da família, não teve dúvidas na hora de escolher um nome para o site.

Criadora de páginas na Internet, cercada por uma vida interessante... ufa! Até eu quero uma mulher dessa pra mim...

Dali em diante, descobrir interesses mútuos era apenas o início. Ele deixou um comentário elogioso na página, e em seguida foi reencontrar-se com ela no chat. Não no do Amir Klink, é claro, mas um outro qualquer. E ali começou uma história de amor.

Demoraram a trocar endereços eletrônicos, porque na Web é como acontece, em se tratando de encontros que começam em chatīs ou wwwīs de namoro. Da mesma forma que duas pessoas a fim de namorar esperam pelo menos um dia para trocar telefones, por medo de se entregar. Mas assim que esse tempo passou, durante o qual trocaram informações sobre suas idades e outros interesses, finalmente revelaram seus emailīs particulares.

Só não revelaram seus nomes verdadeiros porque o gosto do anonimato era o tempero da relação. Não trocaram telefones também, porque o gosto do anonimato era o tempero da relação. Tinham até um pouco de medo em relação ao fato de nunca terem se visto, ou que podiam estar cultivando algo impossível, mas não estavam nem aí, porque o gosto do anonimato...

Não me lembro dele ter me contado sobre fotos. Acho que nenhum dos dois escaneou fotografias. E talvez nem tivessem se dado conta disso, o que é algo no mínimo interessante. Estavam construindo uma coisa acima dos detalhes físicos.

Eu até o alertei, lembrando-o de um conto do Dr. Isaac Asimov, onde um computador atrai uma mulher sem que ela saiba que não se trata de um ser humano.

- E se ela for um computador, Antônio?

- Ah, sai pra lá, Cunha!

Uma semana depois, todo contente, Antônio enviou a NZ um link da série Arquivo X, ao que ela respondeu que não gostava muito, mas que achava o Mulder um gato. Que decepção! Uma mulher tão mística não gostar de Arquivo X? O Antônio franziu a boca... era mesmo uma resposta típica de mulher. Quem sabe todas no mundo fossem típicas, mesmo sendo atípicas.

- Cunha, como é que ela pode ser um computador, se nem ao menos se liga em ficção científica?

- Talvez seja um computador programado para se ligar em outra coisa.

- Ah, sai pra lá, Cunha!

E eu ria dele...

Uma vez, disse-me que tinha medo de descobrir que ela era do Recife. Se assim fosse ele estava fodido... porque somos aqui do Sul, e as possibilidades para uma relação assim são bastante complicadas. E ainda menos interessantes quando a garota não gosta de ficção científica. Vocês acham preconceito? Bom... isso não é a minha opinião, é a opinião do Antônio.

Quando estávamos num cyber café, ele tentou novamente, e mandou pra ela o endereço de um site sobre o filme MATRIX. Logo depois ela escreveu dizendo que não entendia muito bem a história, mas que achava o ator principal um gato também...

O Antônio franziu a boca de novo. Mas aí recebeu outra mensagem:

"Eu não gosto de ficção científica. Mas espero que você não esteja franzindo a boca por causa disso".

Pronto! Ele a encontrara, a mulher que sabia o que estava se passando em sua cabeça! A sua versão feminina! A mulher que iria sorrir e chamá-lo de "meu intelectual", quando ele viajasse pelos universos de Arthur C. Clarke. Que o suportaria com graça e senso de humor quando estivessem no cinema e ele tentasse "se esquivar das naves" durante as cenas de perseguição em Guerra nas Estrelas! Se alguma dúvida ainda restava de que era a pessoa certa pra ele, aquelas duas frases iriam dissipar por completo. Ô mulherzinha perfeita, sô...

Até eu achava que era bom demais pra ser verdade. Olhei para o Antônio; o cara tinha a expressão de quem achara a cara metade em algum lugar do globo, e que agora só precisava chegar até ela. Mas como, se ele nem sabia seu nome real, tampouco o endereço não-virtual?

Eu o encorajei a fazer a pergunta mais clássica da Net:

"- De onde teclas?"

Ele digitou isso trêmulo como uma vara de bambu, e apertou Enter.

Silêncio. Quer dizer, eu não posso dizer isso, porque quando se conversa via computador não há silêncios, mas pausas, ou vazios na tela.

Então...

Vazio na tela. Nada veio do lado dela por alguns instantes. O Antônio começou a suar. E se ela fosse um homem? E se ela fosse casada? E se ela fosse feia? E se ela fosse um computador?

- Ah, sai pra lá, Cunha!

Depois de muito esperar, a resposta chegou:

"- Te Hapua."

Antônio não entendeu, mas quando ia perguntar que diabo de lugar era esse, nosso tempo para utilizar os computadores terminou, e tivemos que desconectar.

À noite, em sua própria casa, Antônio retomou a conversa, perguntando novamente de onde ela estava teclando. A resposta foi:

"- Já disse, Dave. O lugar onde moro se chama Te Hapua."

Ele achou o nome estranho, e começou a pensar num daqueles buracos no meio do sertão. Resolveu me ligar antes de responder, perguntando se eu sabia onde ficava. Respondi que não, mas talvez fosse algum ponto da América Central, a julgar pelo nome. Ou quem sabe fosse no Peru, e aí comecei a imaginar o Antônio vagando no lombo de uma lhama, galgando a encosta de uma montanha atrás das "Ruínas de Te Hapua"!

Ele disse que ia procurar o nome num site de pesquisa, e desligou. Enquanto isso, como bom amigo, eu não resisti, e espalhei a notícia na rede.

Foi um escracho. Eu nunca vi um sujeito receber tanta gozação num dia só... a galera é foda! Alguém conseguiu uma cena do desenho A Nova Onda do Imperador, e colocou a cara do Antônio no corpo de um personagem. O peito exibindo pesado pingente com o número 7, como se fosse um talismã. Num balãozinho, como se estivesse gritando para as montanhas ao longe, escreveram "NZ, NZ! Onde está você!!!".

Mais tarde no mesmo dia, ainda ignorando que a notícia já circulava nos micros da cidade inteira, ele me ligou no celular. Estava feliz, pois havia descoberto onde era Te Hapua.

E sabem do que mais? Não era no Recife.

Só um pouco, gente. Se me dão licença, acabei de lembrar de outra coisa que não pode faltar na carta ao Antônio:

"Meu,

Espero que esteja pintado o sete por aí! Há, há, há...

Sua mãe mandou as fotos em anexo. A galera arrumou um site que exibe as condições do tempo no mundo todo, e cada vez que a meteorologia fala do tempo por aí, teu nome vira assunto de debate.

Minha irmã tá mandando umas músicas em mp3 dos CDīs do Jota Quest, pra você curtir. Sabe qual é a música número 7 daquele disco deles? Resposta: "Encontrar Alguém". Legal, né? Tomara que você tenha mesmo encontrado alguém, mano velho.

E outra, muito importante: eu procurei aquela sala de bate-papo do Amir. Parece que amanhã ele vai seguir viagem, mas conversou comigo bem à beça. Ele é gente fina. E disse que você pode trocar uns dólares quando chegar em Rarotonga, porque lá tem um pessoal super gente fina também. Basta dizer que é conhecido do Amir, que eles alugam mais barato o que você precisar pra fazer a travessia.”

Aonde eu estava?

Ah sim... estava para explicar o combustível do que aconteceu depois.

Antônio é um cara... simpático... presença, admito, e quando íamos a uma festa cheia de gatas gostosíssimas, era até engraçado vê-lo sozinho num canto, girando o 7 de Espadas, a cabeça longe.

Só pensava em NZ.

NZ... NZ...

O namoro via mail já estava durando bastante, quase sete meses, o que era mais tempo do que qualquer outro. NZ, por sua vez, também mostrava sinais de que não estava mais disposta a esticar a situação. Não agüentava mais, queria vê-lo, e sabia que não conseguiria ser de nenhum outro homem, porque nenhum outro homem a entendia tão bem quanto o meu amigo.

Acho que as mulheres têm mais facilidade para embarcar em relacionamentos assim, e há muitos filmes sobre o tema. Mas no caso deles era bem possível que as amigas dela, lá em Te Hapua, também já estivessem enchendo o saco. Seguramente podemos imaginar toda uma nação acompanhando a novela, composta pelos amigos dela e os dele, fazendo pressão para o encontro de ambos. E a coisa esquentou ainda mais quando NZ decidiu quebrar o tempero, e escreveu seu nome verdadeiro: Fiandra.

Bonito, né? Nada peruano ou abreviado, mas Fiandra, que parecia nome de elfa. Como era ela, ou por qual motivo escolhera o apelido de NZ, não importava mais ao meu amigo. O que importava é que sua Fiandra morava num lugar distante chamado Te Hapua, e que era a mulher da sua vida.

Vocês agora devem estar querendo saber onde é esse lugar. Mas o difícil mesmo é saber chegar lá.

Foi com tristeza que Antônio descobriu que teria de pegar pelo menos três aviões. Com tristeza mesmo, porque suas economias não estavam em alta. Por sorte tínhamos um amigo que trabalhava numa agência de viagens. Ele traçou para o Antônio o melhor roteiro, e lhe deu alguns conselhos importantes.

Um deles era que, mesmo com uma rota de baldeação bastante econômica, considerando-se a empreitada, Antônio teria de escolher a melhor data para viajar, porque os vôos comerciais tendem a ficar mais caros quando há alguma festa popular na região de onde partem, ou aonde aterrizam. E esse povo da América do Sul adora uma festa.

Ele escolheu a data instintivamente, e perguntou ao colega da agência se o dia e mês estavam fora das previsões festivas nas regiões dos aeroportos. E estavam sim. A data escolhida ficara bem posicionada no calendário. O mês, Julho, e o dia... vocês já devem estar imaginando...

Em seguida, meu amigo foi inquirido sobre como ficaria o seu trabalho. Pretendia ir para ficar, ou só para fazer um visita? Ele ainda não sabia. Mas sabia perfeitamente que precisava se entender com seu chefe. Então, o Antônio foi se entender com o patrão, e este preferiu não entender nada, e disse que se o Antônio saísse de licença naquele momento, estava na rua. O meu amigo entendeu perfeitamente, e passou na superintendência para deixar bem entendido que ele estava pedindo demissão. A família tentou dissuadi-lo. Os amigos também. Mas ele ergueu um dedo médio pra todo mundo, não quis saber.

Para encontrar Fiandra, ainda havia a burocracia exigida para se sair do país. Se bastasse comprar uma passagem aérea, tudo bem, mas ele tinha que fazer um passaporte. Para isso, tinha que tirar uma foto 5X7, que custou exatamente sete reais. Por duas fotos... era um roubo. E depois entregá-la com alguns documentos à Delegacia de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras, para que expedissem o documento. Em uma semana ficou pronto. Ou seja, sete dias.

O sorriso estampado no rosto, e a insistência com o número, haviam ficado insuportáveis naquele período.

- Até o nome dela tem 7 letras, gente!

E daí por diante.

Enquanto isso, os amigos, começaram a investigar a tal Fiandra.

- Mas Antônio, o que mais você sabe dela?

- Que é minha.

- Mas ela nasceu lá mesmo, ou é brasileira naturalizada?

- Ela nasceu pra mim.

- Ah, vai dá a bunda, Antônio!

- Fiandra... Fiandra...

- Passa a mostarda, Antônio.

- Fiandra...

No dia 7 de Julho, às sete horas da manhã, estávamos todos na rodoviária. Era sábado, e fazia um frio danado. A mãe do Antônio ainda estava surpresa, e não se cansava de perguntar se ele não queria desistir. A resposta era não. Em seguida, obrigando-o a aceitar um cachecol e uma boina, para se proteger do tempo, ela perguntou se apenas uma mala era o suficiente. Respondemos que de mala já bastava ele. Todos caíram na risada.

Enquanto o ônibus para Porto Alegre estacionava no portão G, o sétimo da esquerda para a direita, conferimos novamente no mapa qual seria a rota do Antônio. Ficou combinado que ele iria telefonar quando chegasse em Porto, e também quando descesse em cada um dos pontos que no mapa havíamos marcado com um X de caneta PILOT.

Acertamos também que ninguém gastaria papel e tinta para se corresponder, porque ele estaria sempre dando um jeito de se plugar na Web. Antônio esperava encontrar lugares que oferecessem serviço de cyber café, ou semelhante, uma vez que não tinha computador portátil. Aliás, a verba que estava gastando na viagem era quase o valor de um.

Quando o ônibus já tinha as malas de todos os passageiros no bucho, Antônio entregou sua passagem ao motorista. Choro. A mãe não queria que o filho fosse embora. Os amigos também não queriam, mas ninguém deixou as lágrimas... não, mentira, eu deixei elas rolarem sim... o Rogério e o Padilha também deixaram.

- Gente - disse o Antônio - Adoro vocês. Vou escrever todo dia.

- Ai, meu filho.

- Pára de chorar, mãe. Eu vou escrever pra senhora também.

- Eu não sei mexer naquela merda.

Aquela merda era o computador do Antônio, que ficava para trás por causa das leis nos países pelos quais ele iria passar; cobravam o olho da cara em impostos pelo porte de produtos acima de uma cota mínima. Principalmente eletrônicos.

Estávamos em fila na plataforma quando o ônibus chiou e deu ré. Agitamos nossas mãos enluvadas como um grupo de idiotas, enquanto o pesado carro com vidros fumê manobrava em direção à via expressa e levava nosso amigo. O dia estava lindo. Lindo e frio. Foi um dia triste.

"Meu,

Espero que vc esteja pintado o sete por aí! Há, há, há...

Sua mãe pediu pra mandar essas fotos em anexo. A galera arrumou um site que exibe as condições do tempo no mundo todo, e cada vez que a meteorologia fala do tempo por aí, teu nome vira assunto de debate. Minha irmã tá mandando umas músicas em mp3, do Jota Quest. Sabe qual é a música número 7 daquele disco deles? Resposta: "Encontrar Alguém". Legal, né? Tomara que você encontre mesmo, mano velho. Tá todo mundo na torcida.

Eu procurei aquela sala de bate-papo do Amir. Parece que amanhã ele vai seguir viagem, mas conversou comigo bem à bessa. Ele é gente fina, e falou que você pode trocar uns dólares quando chegar em Rarotonga, e que lá tem um pessoal super gente fina também. Basta dizer que é conhecido do Amir, que eles alugam mais barato o que você precisar pra fazer a travessia.

Eu estava agora lembrando do dia que você saiu daqui. Quando você disse que iria escrever todo dia, lembra? Porque não cumpriu a promessa? A turma quer saber como você anda. E foi muita coragem a sua, camarada. Até agora o seu chefe não entendeu direito o que vc fez, há, há, há.

A gente queria ver uma foto da Fiandra. Eu apostei com a Lavínia que ela deve ser loira, e de cabelos bem compridos, trançados, tipo a Galadriel do Senhor dos Anéis. A gente quer ver você abraçado com ela na foto, não esquece, pra saber se ela é ou não mais alta que você. A Lavínia acha que não. Eu acho que sim. Tua mãe não acha nada, porque ela já tá falando em ir te visitar, tão logo você escreva dizendo se chegou ou não, seu viado.

Não esquece da gente,

Um abraço,

Cunha

Acho que assim ficou boa, o que vocês acham?

De vez em quando eu me pego pensando como deve ter sido quando o ônibus se afastou. Se ele estava sentindo uma comichão, aquela que vem de brinde com a ansiedade. Eu estaria, já que o ato de por o pé no primeiro degrau do ônibus era o primeiro passo de uma longa aventura.

Quando ele desceu em Porto Alegre, será que pegou algum taxista curioso rumo ao aeroporto? Com a cara que o Antônio estava, posso vê-lo no banco de trás, segurando a pesada mala, com a boina assentada fundo na cabeça, olhos distantes, sorriso irremovível, e o motorista com sotaque de Bajé perguntando para onde ele iria.

Se responderia ou não, eu não sei, mas posso imaginar seu coração batendo forte ao deixar a bagagem para o serviço de embarque, e mantendo a freqüência quando Antônio passou pelo túnel de acesso à aeronave, onde uma comissária de cabelos presos pediu sua passagem, desejando-lhe boa viagem com um sorriso simétrico e encantador.

Quando o avião decolou com destino à cidade de Assunção, o que será que o Antônio sentiu vendo seu país escoar-se por baixo dele lentamente? Ou será que nem reparou nisso?

E falando em reparar, estou vendo que esqueci de perguntar a ele se havia combinado isso com Fiandra. Mas é certo que o fez. Meu amigo nunca se lançaria nisso se a outra parte não estivesse à espera. Ou será que sim...? Não importa... tudo aconteceu como tinha que ser, e gosto de pensar que ela saberia da vinda dele, mesmo que Antônio nada dissesse.

Do Paraguai ele telefonou para a mãe, e mandou dizer que a viagem correra bem. O próximo vôo - e pelo serviço de reservas ele agradecia àquele meu conhecido da agência - sairia para Santiago dentro de duas horas, tempo que aproveitaria para almoçar e dar um passeio pelas lojinhas do aeroporto. Havia esquecido de comprar uma lembrancinha para Fiandra, e esperava que ela não suspeitasse da origem não-brasileira do presente. Antônio também fez um comentário sobre os preços estarem bem baratos na terra da muamba, e depois desligou.

Os amigos só foram saber dele no dia seguinte, quando ligamos novamente para sua mãe. Ela nos informou que ele havia telefonado de madrugada, para dizer que o tempo havia obrigado o piloto a fazer uma parada imprevista no aeroporto de uma cidade chamada Córdoba.

Eu posso vê-lo aguardando sentado num banco de plástico, o primeiro de uma fileira de bancos iguais, como só as instalações do transporte aéreo sabem produzir. A TV, num suporte que sai da parede, exibe um apresentador sisudo fazendo comentários sobre os atos de vandalismo que atingem a capital; o governo está em crise. Do lado, na frente e atrás, passageiros reclamam do tempo em espanhol, botando a culpa no El Niņo. É madrugada na Argentina, e a chuva fustiga a vidraça que dá para a pista de pouso. Os aviões estão parados, não vão decolar tão cedo, e a cada momento surge uma nova aeronave taxiando, embicando para estacionar junto ao prédio. Há um urso de pelúcia, com um grande coração no peito, olhos de contas fixos lá fora, sentado no banco ao lado do meu amigo. Deve ser o presente que Antônio comprou para levar àquela moça que o aguarda tão longe.

De repente, um pensamento lhe invade a cabeça. E se Fiandra tivesse tomado um avião, no mesmo dia e horário que o dele, e também estivesse vindo para encontrá-lo?

Antônio se levanta. Ela poderia ser um desses passageiros dos demais vôos que estão parados aqui.

Mas quando pensa que poderia fazer uma pequena investigação, os alto-falantes na sala de embarque anunciam que o vôo para Santiago, Chile, está cancelado até segunda ordem, mas a empresa aérea oferece um avião alternativo, que estará liberado dentro de 7 minutos.

Antônio toma isso como um aviso subliminar, e relaxa.

No dia seguinte vai me ligar do aeroporto de Antofagasta, que fica 600 km ao Norte de Santiago, e me dirá que está tudo bem.

Faz sol, o céu está totalmente sem nuvens, e Antônio vê pela primeira vez o Oceano Pacífico. Ele diz que parece mais azul do que o mar do Brasil, e que venta um pouco mais forte. E mais cortante.

Ele está numa cabine telefônica do lado de fora do aeroporto, e estranha não haverem orelhões dentro do edifício. Eu escuto o ruído do que parece ser um conjunto musical da terra do Pinochet, e o Antônio comenta ser o rádio numa banca de revistas ao lado da cabine.

E acrescenta que vai sair dali, porque têm uns chilenos mal-encarados olhando pra ele, querendo usar o telefone. Quando desliga, bato na testa e falo: merda! Esqueci de perguntar o que foi que ele comprou para a Fiandra! Agora vou ter de continuar imaginando que foi um ursinho.

Foi a última vez que falei com ele.

Pela mãe do Antônio, fiquei sabendo que ele passou mais uma noite naquela cidade, pois os vôos para a Ilha de Páscoa só sairiam no outro dia pela manhã.

O safado mandou um sorriso pra gente, lá do outro lado do mundo. Uma fotografia escaneada que o mostra de pé ao lado de um Moal, uma daquelas estátuas enterradas que tem por lá. Ao fundo, um oceano sem ilhas, e o sol batendo no mar me faz entender o que ele quis dizer com ser mais azul que o nosso. O Antônio encontrou um inglês que mantém um modesto cyber pub para receber os turistas, e foi assim que a foto pôde ser enviada.

De Páscoa, ele vai alugar um bimotor. E vai encarar 16 horas de vôo e cinco fusos horários até uma ilha conhecida como Rarotonga, que cedia o morada de várias famílias de pescadores polinésios, e alguns pesquisadores franceses, entre os quais o Sr. Amir Klink é bastante venerado.

Se vai comprar uma passagem dentro de outro bimotor, monomotor, ou à bordo de um navio, eu não sei. Porque agora o Antônio está tão longe, que minha imaginação não pode mais alcançá-lo.

Se for de navio, é provável que enrole o pescoço no cachecol, e se poste junto à amurada metido em seu sobretudo azul-marinho, revestido por duas ou três camadas de blusas de lã. Dali Antônio vai poder enxergar as ondas sendo rasgadas na quilha do navio, e é provável que o comandante precise desviar de alguns icebergs, conforme forem descendo cada vez mais abaixo da linha do Trópico de Capricórnio.

É provável que, neste ponto, tomando a caneca de chá oferecida pela tripulação, o Antônio comece a juntar as peças do quebra-cabeças. Assim ele descobrirá o porquê dela ter escolhido o apelido de NZ! E vai estar segurando o 7 de Espadas quando descobrir isso, tenho certeza.

Vendo as montanhas de picos nevados e as terras verdinhas chegando cada vez mais perto, compreenderá os colonos portugueses quem compõem a família de Fiandra, e sua escolha para refugiarem-se do mundo neste lugar de gelada exuberância. E se aguçar a vista, Antônio verá uma roda gigante recortando o céu alguns metros atrás do pequeno porto. Sua concentração não será quebrada nem pelo ruído da âncora batendo na água, seguido de metros de grossa corrente, porque, no frio, ele se sentirá quente. O motivo: uma jovem toda encasacada, esperando por ele no atracadouro de Te Hapua.

Nariz vermelho, gorro na cabeça, mãos guardadas nos bolsos do casaco, ela há de sorrir quando reconhecê-lo à distância, por causa da carta de baralho que ele prometeu que ergueria no ar para que os dois se achassem.

Uma rampa de madeira será puxada do convés ao trapiche, e os passageiros desembarcarão felizes por finalmente terem chegado aqui, na pontinha da ilha Norte da Nova Zelândia, e vão abraçar suas famílias espalhadas pelo atracadouro, agradecidos por estarem em casa. A chaminé do navio fará o som costumeiro a todos os navios, e Antônio e Fiandra farão os sons costumeiros a todos os seres humanos.

E por terem esperado um pelo outro a vida inteira, vão correr para o parque, e para a Sala, onde corredores de reflexos multiplicarão suas felicidades sete mil vezes.

PS: ... você já reparou com que número se parece a Nova Zelândia, vista de cima?".

Nova Zelândia

© Marcello Trigo 2008

Lisboa