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A Broca Literária

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E agora, Jaime?

por Luiz Mendes Junior

apartmento sacada

Esperou no ponto por três minutos até que o ônibus apareceu. Tivera um dia cansativo no quartel lavando o piso do corredor com uma escova de dentes. Em duas ou três semanas aprenderia finalmente a atirar, mas antes executaria outras tarefas "tradicionais" do recrutamento.

Não queria pensar nisso. Só ansiava pelo momento em que se sentaria no sofá da sala com a noiva grávida de seis meses em seus braços. Esperou meio minuto para subir num veículo entupido, passou pela roleta, pagou a passagem, espremeu-se entre corpos suados e teve de ouvir a chamada do cobrador. Faltavam dez centavos.

Contara as moedas antes de entrar e tinha quase certeza de que dera a quantia correta. Mas não se discute com um trocador enervado quando se tem "quase" certeza. Deu uma moeda ao funcionário e voltou para o aconchego dos outros passageiros.

Ignorava o que era pior: ficar de pé em um ônibus lotado com o trânsito parado ou experimentar a mesma sensação com o veículo a cento e vinte, o que tornava cada curva um risco de vida. A situação atual era a primeira.

De repente uma gorda se irritou com um passageiro.

- Qualé? Não tem namorada não? Fica passando a mão na mulher dos outros?

- Te enxerga, ô tribufu! O dia que eu precisar passar a mão em você eu me mato! - a resposta do passageiro surgiu imediata.

- Tu que não te mete comigo ou o bicho vai pegar, hein? Deixa de ser tarado! Vai procurar uma mulher!

- Aproveita baiacú, que tu não vai ter outra chance na vida! - um terceiro passageiro se valeu da situação a fim de caçoar da desconhecida.

- Polícia! - um quarto indivíduo se identifica mostrando um documento. - Se continuar essa gritaria eu prendo todo mundo!

O ônibus virou um velório. Pena que do lado de fora o barulho continuava infernal. O recruta tentava mergulhar nos próprios pensamentos mas estava ocupado evitando contatos físicos maiores com a passageira; também de pé; logo à esquerda. O problema é que não queria correr o risco de encostar no gordo suado e sem camisa do lado direito.

O congestionamento enfim diminuiu. Só ansiava pelo momento em que poderia desfrutar de um assento. Parecia estar com sorte, o rapaz cabeludo à sua frente acabava de se levantar.

Sobrou então um único obstáculo. Teria de disputar o lugar com a moça da esquerda. Utilizou-se de uma tática eficiente: perguntou-a se queria sentar-se antes que ela o fizesse. Como a resposta foi educadamente negativa; Jaime Pereira dos Santos, filho de migrantes nordestinos e morador do Méier, pôde descansar as pernas finalmente. A mulher esperava que ele ao menos se oferecesse a segurar sua bolsa , mas estava tão cansado que isso nem lhe veio à cabeça.

Agora era esvaziar a cachola e admirar uma paisagem que nada tinha de vislumbrável. Instantes se passaram até que sentisse um peso sobre o ombro. Um senhor sentado ao lado iniciava uma pestana e deixava um filete de saliva saltar-lhe da boca. Jaime fez um leve movimento, assustando a criatura recém saída de alfa. O desconhecido deixou o veículo minutos depois. Seu lugar seria ocupado pela moça da situação anterior.

Jaime passou a ter o controle da janela e terminava de fechá-la devido a um estranho odor vindo de fora, voltando a abri-la logo a seguir. Sentiu o cheiro novamente. Talvez viesse de dentro do ônibus. Concentrou-se a fim de identificar a possível fonte. Parecia o tipo de substância canina que se pisa para arrepender-se amargamente depois. Alguém nas proximidades atropelou o que não devia.

Quem seria? Tratou de espiar levemente as pessoas ao redor. Certamente notaram a fragrância e se faziam a mesma pergunta. Pensou então em verificar as próprias solas, mas desistiu. Se fosse o autor da façanha, todo mundo saberia. Passaria por uma situação no mínimo desconfortante.

Fingia olhar a cidade lá fora enquanto tentava identificar, pelo reflexo do vidro, as expressões nos rostos próximos. A moça ao lado tinha a cara fechada; um estudante na cadeira de trás parecia observá-lo, e o gordo suado de antes exibia um sorriso mal disfarçado.

O pior de tudo é que o cheiro parecia ficar cada vez mais forte e constante. Sentiu-se mal ao ver passageiros próximos fazerem estranhos movimentos bruscos. Sua parceira de assento colocou uma das mãos sobre o nariz, provavelmente para não aspirar o odor. Jaime não parava de pensar nas chances de ter, sob pés, as provas do terrível crime. Queria levantá-los e acabar com aquela angústia que o corroía por dentro. Observou os seres próximos novamente. Tudo indicava que já desconfiavam de sua pessoa. Se outro fosse o autor, talvez o aroma não lhe viesse tão forte. Lembrou-se de outras ocasiões em que experimentara a mesma sensação para constatar a pastosidade presa às solas. Queria deixar o veículo, sair daquela situação vexaminosa de vez.

Notou que a mulher parecia olhá-lo. Encarou-a e a viu desviar o olhar. Virou-se para o gordo. Esse também exibiu amostras de que o espiava anteriormente. Prestou atenção nos demais passageiros próximos enquanto alguns destes se dirigiam à parte frontal do veículo. Uma dona com fisionomia de bóia-fria parecia zangar-se e um careca com aspecto de professor abanou as mãos sobre o rosto. Tudo indicava já perceberem o autor da façanha. A sorte lhe aprontara uma grande travessura e precisava achar um meio de escapar dela.

Abaixou a cabeça para fugir dos olhares mal disfarçados enquanto cuidava-se em manter os pés grudados no assoalho. Todos sentiam o cheiro. Todos sabiam de quem era a culpa. Mas por que o condenavam se não o fizera propositadamente? Ninguém pisa em cocô de cachorro por vontade própria! Será que não eram capazes de compreender sua inocência? Tinha vontade de explodir em berros e se defender. Mostrar a essa gente pérfida o tamanho de sua hipocrisia. Agradecia aos céus, entretanto, pela gorda barraquenta estar do outro lado do coletivo. Se ela porventura sentisse o cheiro, armaria um chilique que o sentenciaria a uma humilhação inesquecível.

O tempo passava e Jaime não via a hora de chegar em casa. Tinha um motivo extra para querer estar fora daquele ônibus e longe dos olhares acusadores.

Notou que o policial deu alguns passos em sua direção. Era a gota d´água. Não queria ser preso pela negligência de um dono de cachorro. Amaldiçoou sua distração, ergueu-se, pediu licença e se espremeu entre almas impiedosas incapazes de entender sua situação. Passou pela moça, pelo estudante, pela bóia-fria, pelo professor, pelo policial, pela gorda e outros mais até alcançar a porta de saída. O chão da calçada lhe devolvia a liberdade. Em dez ou quinze minutos um veículo da mesma linha apareceria e mil atrasos ou demoras valiam mais do que o desconforto que experimentara.

Fez questão de não encarar os ocupantes do veículo que desaparecia no horizonte. Certamente riam de seu infortúnio enquanto faziam comentários jocosos. Não os veria de qualquer modo, por isso preferiu desviar os pensamentos para algo mais útil ao se afastar das pessoas no ponto. Aproximou-se do meio-fio e esfregou uma das solas na pedra. Não viu marca alguma por isso raspou a outra. Estranhou e verificou visualmente. Nada além de sujeira comum na borracha quadriculada. Não havia estrume de cachorro. Se algum infeliz naquele coletivo pisou onde não devia, este não era o recruta. Sentiu uma alegria por dentro. O destino o declarara inocente. Queria poder voltar ao ônibus e mostrar os calçados a cada passageiro. Talvez nem o estivessem olhando tanto afinal; talvez nem desconfiassem dele; só Deus sabia. Mas isso não mais o importava. Alegrou-se em saber de sua inocência e desfrutou da leveza dos anjos. Queria gritar ao mundo inteiro que suas solas estavam limpas, que não tinha sido vítima da própria distração. Não carregava mais o peso da culpa sobre os ombros.

Fitou homens, mulheres e crianças no ponto. Sorriu para eles. Estava de bem com a vida, seu estado de espírito era muito melhor do que antes de deixar o quartel. Percebeu que, às vezes, há males que vêm para bem. Sua mãe sempre disse que "Deus escreve certo por linhas tortas". Agradeceu à divindade pelo infortúnio enquanto jurava tornar-se uma pessoa melhor. Jaime abriu-se para a alegria de viver como não fazia há tempos. Quão estranhos os meios usados pelo destino, mas a vida é assim mesmo! Incompreensível e cheia de presentes para os que têm os sentidos atentos.

O ônibus apareceu finalmente. Estava tão lotado quanto o anterior mas isso lhe era irrelevante. Não lamentaria mais a demora, o aperto da viagem, ou o fato de ter de ficar de pé. Percebeu que há coisas mais importantes.

Em segundos estaria subindo as escadas do veículo e deixando para trás os remanescentes do ponto que riam e faziam comentários jocosos a respeito do "maluquinho alegre" que acabara de pisar num montinho preto, pastoso e fedorento, logo antes de embarcar. Se estivesse mais atento, teria ouvido o aviso de um transeunte benevolente. Nem se deu conta. A vida é assim mesmo.

© Luiz Mendes Junior 2008

TAM avião