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A Broca Literária

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Um Pulo para o Amor

por Gilberto Griesbach Junior

amanita phalliodes

---- Vá embora! Não tente me impedir!!!

---- O que? Nem te conheço, vou te impedir do que?!

---- Estou avisando, dê mais um passo e eu vou pular!

---- Tudo bem, pode pular, eu já tenho problemas o bastante sem você querendo que eu te impeça de alguma coisa.

---- Eu não quero que você impeça nada!

---- Bom, eu já andei cinco passos e, você ainda não pulou.

---- E o que você tem haver com isso? O que eu faço é problema meu!

---- É que se você pulasse antes, eu poderia ver o que vai acontecer comigo.

---- Como assim? Você também vai pular?

---- Logo depois de você... Um pouco de cavalheirismo sempre é bom.

---- Droga! Você quer se matar e tinha que escolher justo o meu prédio!?!?

---- Seu prédio?

---- É! O meu prédio! Eu já estou planejando isso há dias!!!

---- Grande coisa, eu também já agendei esse prédio faz tempo.

---- Agendou? Hmmm... E por que este prédio?

---- Bom, é o mais alto da cidade, com a maior calçada em volta, uma bela vista e eu imaginei que aqui eu poderia ter meus últimos momentos em paz para pensar na merda de vida que eu tive!

---- Tá bom... Já entendi. Então sou EU quem está atrapalhando.

---- Está vendo mais alguém aqui?

---- Estou sim. Você!

---- Olha! Essa cobertura é bem grande. Que tal você ir para aquele lado e eu fico no outro lado. Assim eu não te incomodo, e você não incomoda.

---- Tá bom. E vê se me deixa em paz!

---- Ok. Tenha uma boa aterrissagem!

---- Você também.

Quinze minutos de silêncio depressivo depois...

---- Ei!

---- O que?!!?

---- Por que você? Vai...

---- Não é da sua conta.

---- Talvez seja, eu estava pensando... Com tantos prédios na cidade, o destino colocou nós dois neste aqui. Deve haver um motivo.

---- Não seja criança! Você ainda acredita em destino?

---- Em destino não, mas, acredito em motivos. Qual é o seu motivo de estar aqui?

---- Nada da certo em minha vida.

---- É... Na minha também não, mas pelo menos você é bonita.

---- Eu sou bonita?

---- É... Eu achei.

---- E você acha que eu vou acreditar em um elogio de um louco que vai pular de um prédio?

---- E por que eu mentiria? O que eu tenho a perder que ainda não perdi.

---- Ah é? E essa minha pinta no pescoço?

---- Nossa, eu acho linda essa sua pintinha.

---- Ela é nojenta!

---- Pois eu não acho!

---- E olha a minha barriga!

---- O que tem?

---- É enorme!!!!

---- É mesmo?

---- É!

---- Olha aquele pontão vermelho lá embaixo, aquilo é uma barriga enorme!

---- Que pontão vermelho?

---- Do lado daqueles pontinhos.

---- São pessoas.

---- É... Eu sei... Mas parecem pontinhos.

---- Como será que ela tem coragem de usar aquele vestido?

---- Bom, precisa de mais coragem para pular do prédio do que para colocar um vestido...

---- É... Mas eu nunca usaria um vestido assim se eu fosse tão gorda.

---- Se você fosse tão gorda, era melhor nem pular do prédio...

---- Por que?

---- Já imaginou o tamanho da cratera que iria ficar na calçada? As pessoas iriam apontar por anos e dizer: “foi aqui que aquela gorda caiu”...

---- Não vou deixar nenhuma cratera na calçada!

---- Claro que não, você não é gorda...

---- Sou sim! Veja essa barriga!

---- Calma aí. Você vai pular do prédio por que tem uma pintinha linda no pescoço e uma barriguinha que só aparece se você estufar pra fora?

---- Não, claro que não. Ser feia é só um dos problemas...

---- Você não é feia, deve ter muita gente querendo namorar você. Eu é que sou feio.

---- Até que você é simpático.

---- Simpático, mas feio.

---- Não foi isso que eu quis dizer. Eu gostei de você.

---- Sei. Mas você ainda não me disse por que quer morrer.

---- Me diga você primeiro.

---- Eu perguntei primeiro.

---- Mas eu cheguei aqui primeiro.

---- Tá bom, eu conto.

---- Então conte.

---- Mas depois você é obrigada pela honra dos suicidas a contar também.

---- Existe isso, é?

---- Acho que sim, se não existe, deveria existir.

---- Então conta logo.

---- Ah! Eu tenho vergonha.

---- Juro que não vou contar para ninguém o que você me disser.

---- Nem depois de morta?

---- Como? Em uma sessão espírita?

---- Deixa pra lá.

---- Então? Vai dizer?

---- Como você se sentiria? Sem amigos, sem uma namorada, sem dinheiro, sem trabalho, com uma família que não te entende, com um Deus que não gosta de você, e sem paz nem mesmo para se suicidar?

---- Você parece uma criança de 18 anos falando.

---- Eu tenho 26.

---- Que coincidência... Eu também.

---- Também não tem nada nem ninguém na vida?

---- Não, também tenho 26 anos.

---- Nossa. Achei que fosse menos... Bem menos.

---- Tenho cara de retardada, né?

---- Não, você tem um rostinho jovem, bonito.

---- Sei.

---- É verdade!

---- Ta bom! Chega!

---- Então me conte o seu motivo.

---- Calma, você não terminou de contar o seu.

---- Terminei sim, minha vida é vazia e fedorenta.

---- Ok. Posso te dar uns conselhos?

---- Não precisa. Não vai adiantar mesmo.

---- Se você quer amigos, saia mais. Se você quer uma namorada, arrisque mais. Se você quer um trabalho, vá em frente, procure. Se você não agüenta mais sua família, saia de casa!

---- Parece minha psicóloga falando.

---- Eu sou formada em psicologia, mas estou estudando direito.

---- Ah! Que legal... Pule, por favor.

---- O que?

---- Não precisa me contar mais nada, é só pular.

---- Você tem alguma coisa contra psicólogas?

---- Não... Só contra as que me dizem o óbvio.

---- Às vezes o que você mais precisa ouvir, é justamente o óbvio.

---- Freud disse isso?

---- Não, aprendi isso no curso de direito. Enfatizar o óbvio.

---- E para que?

---- Para que os jurados esqueçam dos detalhes importantes na hora de deliberar.

---- Bom truque. Funciona?

---- Sim... Muitos usam.

---- Que legal... Assim fica mais fácil de inocentar criminosos perigosos.

---- O trabalho é esse. Fazer o que?

---- Fazer isso que você está fazendo. Suicídio.

---- Mas não estou querendo morrer por causa da faculdade.

---- Então por quê?

---- As coisas meio que perderam o sentido para mim.

---- Como assim?

---- Acho que me enjoei de tudo. Enjoei de mim.

---- Seja mais clara.

---- Eu não consigo manter nenhum relacionamento, as pessoas só me usam e depois me tratam mal. Eu não agüento mais a rotina de ir para a faculdade e ver sempre as mesmas pessoas, felizes pelas mesmas coisas de sempre. Se pelo menos eu fosse magra e bonita, e não tivesse essa pinta horrorosa no pescoço...

---- Se pelo menos eu fosse usado de vez em quando...

---- Você não sabe o que é isso! Gostar de alguém que nunca sentiu nada por você!

---- Sei sim, mas elas nunca nem mesmo tentaram me enganar. Sempre quiseram distância de mim.

---- AH! Você nem é tão mal assim!

---- Sou sim. Além de feio, sou chato e neurótico.

---- Pois não me parece. Aliás, essa está sendo a melhor conversa que tive nos últimos meses.

---- Não pareço, mas sou. As pessoas me desprezam por que sei organizar meu tempo. Por que quero fazer tudo perfeitinho...

---- Ah! Isso eu sei como é. Até o meu suicídio eu marquei na minha agenda.

---- Sério? Eu também!

---- Duvido! Ninguém é tão louco!

---- Então veja! Eu trouxe comigo, com minha cartinha dentro.

---- Ah! Escrever uma cartinha é típico de quem só quer chamar atenção.

---- E dizer isso pra um suicida na hora da morte é típico de uma psicóloga frustrada.

---- Deixe eu ler a sua carta.

---- Nem pensar... Não foi escrita para você.

---- Mas eu posso te ajudar a deixar mais dramática... Sou boa nisso.

---- Eu só deixaria se pudesse ler a sua, mas você não escreveu.

---- Claro que eu escrevi! Escrevi três vezes, até ficar perfeita! Quero ver quem não vai chorar depois de ler minha carta!

---- Ah é? E onde ela está?

---- Ali no canto, na bolsa... Dentro da minha agenda.

---- Então você só quer chamar atenção? Não quer morrer?

---- É diferente. Eu escrevi pra eles saberem o que fizeram.

---- Pois eu também. Qual a diferença?

---- Você vai ver, me da sua carta e pegue a minha. Não me importo.

---- Primeiro quero ver se você tem mesmo uma carta!

---- É CLARO QUE TENHO.

---- Ok, peguei a tua. Então leia a minha.

Cinco minutos de silêncio introspectivo depois

---- Precisava mesmo essa parte no final, da menina surrada e maltratada pela vida?

---- Claro, é a verdade.

---- Então eles abusaram de você, lhe deram um falso prazer e uma falsa esperança num futuro que não existia?

---- Pare de rir da minha carta! A tua também não está muito boa!

---- Ah não?

---- Esta muito exagerada, olhe só: “Não só por causa das pessoas que sentem esse imenso nojo até quando eu desejo bom dia, mas também essa sensação de ser um inseto em uma terra de gigantes que vocês me fazem sentir”.

---- Não é exagero, é como eu me sinto.

---- Mas para começar, você não devia dizer que as pessoas sentem um imenso nojo.

---- Por que não?

---- Porque você não sabe o que elas sentem.

---- Mas está na cara o que elas pensam.

---- E pra terminar, achei um pouco fora da realidade essa história de insetos e gigantes...

---- É uma metáfora.

---- Eu sei.

---- Metáforas não precisam ter haver com a realidade, apenas traçar algum paralelo ideológico!

---- Uau... Você estudou mesmo essa matéria.

---- Sempre fui bom em gramática.

---- Menos na hora da morte. Sozinho se escreve com 'Z'.

---- Tá bom, agora devolve a minha carta.

---- Claro, eu morreria outra vez se alguém achasse sua carta comigo e pensasse que era minha.

---- Idem quanto a sua. Eu não ia dizer nada, mas você não usou uma única virgula.

---- E daí?

---- Daí que quem for ler, vai ficar sem ar. Quase que eu morri antes de pular.

---- Idiota!

---- Babaca.

---- Seu estúpido!

---- Sua louca suicida!

---- Seu inseto covarde!

---- Sua gorda com uma pinta horrorosa no pescoço!

---- O QUE?

---- Brincadeira. Só queria ver o que você ia fazer.

---- Também não precisa pegar tão pesado!

---- Só queria chamar tua atenção.

---- Conseguiu. E agora?

---- Queria te pedir uma coisa.

---- Hã.

---- Você... Errr... Me da um beijo?

---- O QUE? Primeiro me ofende e depois quer que eu te de um beijo? Por que isso agora?

---- É que eu... Bem... Eu nunca...

---- Nunca o que????

---- Eu nunca beijei antes.

---- Pare de mentir.

---- Não estou mentindo. Os únicos itens da minha agenda que nunca foram riscados foram os beijos que nunca foram dados. Veja.

---- Você agenda até os beijos?

---- Pois é... Pra me ajudar a ter coragem.

---- Ok. Eu te beijo, mas depois a gente pula. Isso já está ficando muito constrangedor.

---- Um beijo, e um pulo. Prometo.

---- Cale a boca agora.

Dois minutos de silencio e carícias depois:

---- Nossa... Me desculpe.

---- Você beija bem demais pra alguém que nunca beijou antes.

---- É que eu imaginei muito como seria...

---- Sei...

---- Além do mais, eu só imitei você.

---- Então me imite mais um pouco...

Mais cinco minutos de silêncio e carícias depois:

---- Estou adorando isso... É até uma pena ter que morrer agora...

---- É mesmo, eu já até tinha esquecido de morrer.

---- Eu pelo menos vou pular muito mais feliz agora.

---- Isso é estranho... Pular... Morrer... E feliz...

---- Eu sei... Mas acho que sou estranho mesmo.

---- É... E eu estava pensando... Você iria pular sem nunca ter dado um beijo?

---- Pois é...

---- E vai pular agora? Mesmo sabendo que vai morrer virgem?

---- Acho melhor assim.

---- Por que?

---- Não quero estragar tudo.

---- Como assim?

---- Mesmo que você tivesse gostado o bastante de mim, para fazer alguma coisa comigo, eu não iria querer.

---- Por que não?

---- É que eu tenho vergonha...

---- Vergonha do que?

---- Bem... Eu...

---- Pode falar... Vou levar seus segredos para o túmulo. Eu juro.

---- É que eu sou... Bem... Eu não sou muito...

---- Bem dotado?

---- É...

---- Por isso aquela história de inseto entre os gigantes?

---- Não sei... Acho que é... Pode ser...

---- Não pode ser tão pequeno assim.

---- Você que não viu. É ridículo.

---- Deixa eu ver... Acho que entendo disso melhor que você.

---- Não.

---- Ah... Deixa eu ver... Eu gostei de sentir ele enquanto estava te beijando...

---- NÃO!

---- Então me beije mais um pouco...

---- Melhor não. Acho que vou pular agora.

---- O que você tem a perder?

---- Por que você está fazendo isso comigo?

---- Oras, eu vou morrer daqui a pouco... Fazer amor com alguém que não vai me maltratar no dia seguinte pode ser uma coisa boa.

---- E como você sabe que eu não vou te maltratar no dia seguinte?

---- Simples... Você vai estar morto.

---- E se eu desistir de pular.

---- Mais simples ainda... Eu te jogo lá pra baixo!

---- Você e mais quantas?

---- Você não conhece a minha força, menino!

---- Então vem me jogar.

---- Vou sim... Mas antes...

Depois de cinco minutos de carícias e roupas que silenciosamente caíam ao chão e, mais trinta minutos de silencioso prazer a dois:

---- Sabe? Devíamos ter nos encontrado antes.

---- É... Eu também acho. Você é perfeito para mim.

---- Como assim?

---- Foi a primeira vez na minha vida que o sexo não doeu... Nem um pouquinho...

---- Não estou entendendo... Doía para você?

---- Doía sim. O ginecologista disse que passaria com o tempo, mas, nunca passou.

---- Então você está dizendo que eu sou tão pequeno que você não sentiu nada?

---- Pelo contrário. Estou dizendo que você é do tamanho exato para me dar prazer, sem me fazer sentir dor.

---- Então você gostou?

---- Gostei sim... Até do seu jeito afobado...

---- Ah... Foi minha primeira vez... É claro que eu iria estar afobado.

---- Mas eu gostei... Nunca tinha tirado a virgindade de nenhum menino.

---- Sabe?

---- O que?

---- Acho que hoje foi o dia mais feliz da minha vida.

---- Engraçado. Eu estava pensando a mesma coisa. Nem sei mais se eu quero pular.

---- Agora mais do que antes, eu acho que devemos pular.

---- Por que?

---- Depois do auge, só resta a decadência.

---- Como assim?

---- Se voltarmos para casa agora e, começarmos a namorar. Passaremos alguns dias ignorando a porcaria de vida que levamos, porque agora temos um ao outro.

---- Que bonito isso que você disse.

---- Mas com o passar do tempo, estaremos tão acostumados a estar juntos que isso não terá mais importância em relação aos fatos de nossas vidas.

---- Não sei... Olhando por esse lado...

---- Em poucos meses nós estaremos brigando e pensando em escrever novas cartinhas bobas de suicídio.

---- Cara, você é pessimista mesmo.

---- Realista, eu já vi acontecer. Várias vezes.

---- Pensando bem... Eu também.

---- Então vamos?

---- Vamos. Acho que é melhor assim. Senão fica um item incompleto na agenda.

---- Então se vista, e vamos pular.

---- Se vestir pra que?

---- Oras... Pra...

---- Para que?

---- E por que pular sem roupas?

---- É mais dramático... Mais chamativo... Aposto que vai sair em todos os jornais.

---- É... Então vamos sem roupas mesmo. Vem comigo.

---- Calma, antes eu preciso riscar na minha agenda.

---- Bem pensado... Eu também.

Alguns segundos de despedida das agendas depois:

---- Uau! É alto aqui, né?

---- O mais alto da cidade.

---- Se eu olhar eu não consigo pular...

---- Feche os olhos. Contamos até três e então pulamos.

---- Tá bom... Um...

---- Dois... Três.

---- Você não pulou.

---- Nem você.

---- Vamos outra vez.

---- Um...

---- Dois...

---- Dois e meio...

---- Dois e noventa e nove...

---- TRÊS... VAMOS!

---- NÃO ACREDITO QUE PULAMOS!!!

---- EU TE AMO!

---- EU TAM...

Seguiram-se muitos minutos sem nenhum silêncio em torno do casal, uma multidão de curiosos com comentários sarcásticos se formou para analisar a cena em seus mórbidos detalhes.

Ninguém reparou no “tamanho” do rapaz, e nem na “pinta horrorosa” da menina. Aparentemente, depois que alguém morre, não são esses os detalhes que realmente importam. O que realmente chamava atenção no casal nu, de mãos dadas e, com os corpos arrebentados pelo impacto, era o sorriso.

amanita phalloides

© Gilberto Griesbach Junior 2008