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A Broca Literária

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Num Beco Imundo com um MagnaCord por Marcello Trigo
Sobre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário por Giovani Iemini
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Dom Casmurro 26 por Allan Pitz
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No Metrô por Márcia Tondello
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Inquilinos na Embaixada do Céu por Luiz Mendes Junior
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A Cabeça e a Bunda por Danielle Souza
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Manequim

por Eduardo Frota

vamos

Tudo bem, nada errado em ser saudosista. Mesmo estando cansado de receber aqueles e-mails dizendo que a gente percebe estar envelhecendo quando lembra de Ki-suco, Pogobol e Genius. Mas o que mais me irrita é quando, numa dessas conversas que invocam a memória oitentista, algum pulha lembra daquela música, daquela banda, daqueles moleques... O Dominó. A música se chamava “Manequim”.

Vamos fazer que nem em uma equação matemática, onde se isola o x, e vamos isolar também a discussão sobre a qualidade melódica e harmônica da canção. O que vale é a letra. Aqueles meninos engomadinhos, que participavam do “Viva a Noite”, faziam a dança do passarinho e participavam do “Sonho Maluco”, não tinham idéia do que cantavam. Quer ver só? Estrofe por estrofe:

Um sonho vindo na passarela

vestido lindo, original

Penteado sexy, última moda

e um olhar que é puro cristal

Para começar, invoca-se o estado onírico para o que virá a acontecer a partir de então. Fato é que existe uma passarela, onde desfiles são realizados. O que chama a atenção é o “penteado sexy”. Como pode um penteado ser sexy? Tudo bem, eles eram da época em que anúncio de sutiã e calcinha em encarte de jornal dominical ainda eram excitantes. Mas penteado sexy? E mais: “olhar que é puro cristal”. Cristal costuma ser transparente. Isso quer dizer que ele acha que a manequim é uma pessoa idônea, sincera, transparente? Mas ela ainda não está vindo? Então como ele pode fazer juízo da moça? Além disso, não é atrativo de uma manequim sua índole, e sim seus atributos físicos. Portanto, caso a letra da música quisesse denotar um certo brilho no olhar, poderia utilizar pedras brilhantes como pérolas ou diamantes para efeito de uma metáfora mais construtiva.

Manequim

teu sorriso é um colar de marfim

Vou te seguindo

manequim

Que nem dá bola pra mim

Marfim é retirado principalmente das presas dos elefantes. Milhares deles são mortos de forma cruel e predatória para fins como colares e peças de decoração. Comparar um sorriso com um colar de marfim não caracteriza um elogio, muito menos um galanteio. Além do mais, dizer a uma mulher que os dentes dela são brancos é coisa de dentista, que tem como obrigação e meio de sustento a observação das arcadas alheias. Mais uma vez, um sorriso pode ser comparado com diversas outras palavras, que agregariam valor e estima à manequim – aumentando, assim, a probabilidade de que ela desse bola para um dos meninos do Dominó.

cantada

Manequim

mil carinhas com o queixo na mão

Apaixonados

manequim

você me deixa na mão

Aqui talvez esteja a parte mais delicada da música. Sim, uma ode ao onanismo! A prática da busca solitária do gozo. É a hora em que os “carinhas” erguem o queixo e desocupam as mãos. Depois das tentativas frustradas de conquistar a manequim, que são perfeitamente explicáveis e legíveis, uma vez que o olhar dela foi comparado a um cristal e o sorriso a um colar de marfim, as mãos se ocupam da masturbação. Talvez isso explique a menção ao “sonho vindo na passarela” contido na primeira estrofe. Seria a imaginação dando vazão à fantasia sexual da conquista da manequim.

Você desfila pelo meu corpo

num giro, eu juro, vou te roubar

Mas os teus olhos não dizem nada

pros meus que querem te devorar

Esta estrofe é desnecessária. Aqui o nosso Dominó diz que vai a roubar em um giro, o que pode ser entendido como uma guinada, um ato extremo ou inesperado. Tudo isso porque os olhos da manequim não o dizem nada. Realmente, se há uma passarela e o objeto de desejo a ser roubado desfila ali, seguindo as normas de conduta estabelecidas no mundo fashion, manequins têm que mirar o infinito, com olhar de peixe morto e cara de paisagem. Logo, esta estrofe poderia muito bem ser apagada da letra, ficando seu sentido inalterado sem a mesma.

é pura loucura

querer te roubar

Entre nós há uma vitrine

pra separar

Enfim, a última estrofe. Aqui fica claro o desvio de comportamento sexual ao qual foram induzidos os pobres Dominós. Vamos aos fatos: a manequim tem um olhar que não diz nada, um sorriso branco como marfim, não dá bola para o Dominó e há uma vitrine que o impede de roubá-la. Conclusão: a manequim não é uma mulher, e sim uma escultura de gesso em uma loja qualquer, em um shopping qualquer, que mostra um “vestido lindo, original” qualquer aos “mil carinhas” que por ali passam. Portanto, a letra fala de um jovem com sérios problemas de ordem sexual e comportamental, que tem fetiche em uma boneca de gesso em uma vitrine de um shopping movimentado, do qual seria loucura tentar roubá-la em vista do forte esquema de segurança e do elevado número de transeuntes no local.

Estranho. Muito estranho. Viva a noite...

guitarra homen

© Eduardo Frota 2008