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A Broca Literária

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Gurus de Terno por Luiz Mendes Junior
Um Filme além das Chinelas: A Batalha do Estreito de Hormuz por Jim Chaffee
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Num Beco Imundo com um MagnaCord por Marcello Trigo
Sobre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário por Giovani Iemini
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Porrada por Luiz Mendes Junior
Sinistro! por Frodo Oliveira
Silvia, a Cachorra por Carlos Cruz
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Teófilo Veríssimo – Esfinge por Beto Garcia
Dom Casmurro 26 por Allan Pitz
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Os Sopradores de Nuvens por Beto Garcia
Sinfonia 1: Roger Castleman por John Grochalski
Novo Acordo Ortográfico por Pedro Silva
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O Rolê por André Catuaba
Sushi por Liliane Reis
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A Cagada Final por Márcia Tondello
Sou Corno mas Sou Foda por Victor Borba
Carmen Miranda e Wittgenstein por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
05-01-2009
Cabeça de Hugo: um Romance de Idéias e o Personagem Neocon por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
No Metrô por Márcia Tondello
Uma Alucinante Viagem ao Submundo dos Transportes Públicos Cariocas por Felipe Attie
04-01-2009
Inquilinos na Embaixada do Céu por Luiz Mendes Junior
Bernardo, Cartas da Imprecisão e do Delírio por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
A Cabeça e a Bunda por Danielle Souza
03-01-2009
Raimunda por Carlos Cruz
Pequeno Concerto para Ver no Celular e Escutar no Ifone por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
O Fardo por Marcello Trigo
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O Expurgador 999 por Allan Pitz
A Intervenção por Roberto Afonso
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Rogério por Eduardo Frota
Míssil por Jason Jordan
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O Infante por Liliane Reis
Oxumaré por Alexandre D´Assumpção
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Eurípedes Crotho, um Escroque por Allan Pitz
Uma Macumba no Brasil por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Uma Análise do Filme Tempo de Guerra (1963) por Rafael Issa
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Três Belas por Juliano Guerra
Feijoada do Repete por Priscila Biancovilli
A Menina que Fazia Chover por Frodo Oliveira
08-15-2008
Rotina por Felipe de Oliveira
Space Bar por Carlos Cruz
Sobrevivência por Priscila Biancovilli
A Religião como Ilusão no Pensamento por Rafael Issa
Anonimato em Crise por Luiz Mendes Junior
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A Vida é uma Porra com Juros por Luiz Filho
A Noite das Sanguessugas por Jim Chaffee
Cicatrizes Urbanas, Massa de Gente e de Luz por Thomas R. P. de Oliveira
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Um Pedido a Carlos Cruz por Juliano Guerra
Komodo por Eduardo Frota
Em Nome da Fome por Zé Ignacio Mendes
O Engarrafado por Roberto Afonso
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Sete por Marcello Trigo
E agora, Jaime? por Luiz Mendes Junior
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Canção de Ninar por Liliane Reis
Vender é preciso por Dani Nedal
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Ensaio fotográfico: Banho coletivo por Jim Chaffee
Lua Vermelha por Liliane Reis
Manequim por Eduardo Frota
Um Pulo para o Amor por Gilberto Griesbach Junior
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Mensagem de Natal do Diretor Executivo por Sonia Ramos Rossi
Reflexo por Patricia Azeredo
Esdruxulidades por Priscila Biancovilli
A Ordem Natural das Coisas por Eduardo Frota
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O Assassino de Três Corações por Alexandre D´Assumpção
Aconteceu Num Dia Quente de Verão por Luiz Mendes Junior
Senhora Lia por Natalia Emery Trindade
Tropa de Elite: A Alienação Como Origem da Violência por Rafael Issa
02-01-06
A Boneca de Natalia Emery Trindade
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Reflexo

por Patricia Azeredo

Vietnamese drawing

Vislumbrou-se no espelho com seus olhos míopes e, como de praxe, desgostou do que via. Não se tratava de paranóias relativas a imaginadas gordurinhas a mais ou mero descontentamento com a cara amassada habitual da manhã. A questão surgia mais complexa. Não gostava de si mesma. O vidro polido descortinava despudoradamente sua alma. Ali era possível enxergar nitidamente o lado de si que não revelava a ninguém. Não ousaria.

Lembrou dos tempos de escola, quando sofreu com apelidos em relação a seu rosto marcado pelas espinhas da pré-adolescência. Aquilo teria um efeito devastador em sua auto-estima, só percebido anos depois. Passou a adolescência metida em roupas largas, com a desculpa de serem confortáveis. Pura forma de esconder seu corpo, do qual tinha vergonha. Gordinha e de óculos, escorava-se numa superioridade intelectual alimentada por uma professora. E disso fez seu porto seguro.

Não era anti-social. Amigos, ela os tinha. Ou melhor, amigas. Justamente quando os hormônios iniciavam a sinalizar sua existência, o sexo oposto se tornara um mistério insondável. Passou todo o período das festas de 15 anos e boates completamente invisível aos olhos masculinos, vendo suas amigas caminharem com altivez nesse terreno. Enquanto ela criara uma barreira intransponível ao seu redor com um sucesso absoluto. Inconscientemente achava difícil ser mulher.

E assim foi vivendo, esquivando-se da imagem oculta aos outros e tão dolorosamente visível para ela. Cada olhada no espelho representava imageticamente a dor e a incerteza. Do que era, do que gostaria de ser. Do que receava se tornar.

Acabou por esconder, fingir, esquecer. Teve alguns homens entre “rolos”, “cachos” e “ficantes”. Mas jamais se entregou de todo. Duvidava até ser capaz de fazê-lo. Justamente por se achar horrível por dentro. Deformada. Intrinsecamente má. Se mostrasse essa sua faceta, as conseqüências poderiam ser funestas. Temia esse aspecto de si, evitava pensar nele, por se crer capaz de atos sublimes ou horrendos. Ah, a quem desejava enganar? O sublime seria raro, pois se considerava egoísta. O horrendo representava a possibilidade assustadora.

A despeito disso, a existência continuava célere: trabalho, estudos, amigos, família. Colecionava momentos de felicidade, de fato, à custa de viver uma amarga ilusão, escudando-se na chamada “calma dos ignorantes”. Ou pior, dos que fingiam ignorar.

Gradualmente foi apreciando seu reflexo. Acabou perdendo peso. Fisicamente, estava bem. Conheceu novos amigos e engajou-se no árduo aprendizado de se mostrar. Fazia progressos notáveis. Mas ainda a alma a atormentava. Via-se diferente de todos, com algo "faltando", embora lhe fosse impossível precisar o quê. Ou hesitava em admitir. Hábil com as palavras, possuía uma atávica inaptidão para achar um adjetivo ou substantivo sequer capaz de descrever com precisão o que se passava em seu íntimo. Perdia-se em circunlóquios.

Contudo, a conclusão a atingia inclemente: nem todas as barreiras caíram. Ainda faltava uma. A mais complicada. Tão difícil a ponto de já se haver conformado em brava covardia em mantê-la impenetrável, a salvo de outros. A salvo de si.

Vietnamese drawing

Eis o fato: tinha mais medo de si mesma do que do outro. Há muito deixou de ser uma questão de feiúra de corpo, consistia na feiúra da alma.

Diante do vidro embaçado pelo vapor do banho reconfortante, ela se olha no espelho de corpo inteiro mais uma vez. Sem roupa. Jamais se sentira tão nua.

Ele surge por trás, sorrateiro, e lhe dá um longo e lento beijo no pescoço. Ela inclina a cabeça, abrindo passagem em deleite duplo pois, sem fechar os olhos, apreciava a cena no espelho. Depois de quase perder o fôlego por seus diligentes esforços, ele diz:

- Você é linda.

Ela apenas sorri, um sorriso largo exprimindo uma felicidade insofismável. As palavras, suas companheiras e instrumentos de trabalho, ali se faziam desnecessárias. Por um breve momento vislumbrou asas brancas saindo de seus ombros no espelho.

Ela começava a acreditar.

© Patricia Azeredo 2007