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A Broca Literária

Arquivos

10-15-2008
Eurípedes Crotho, um Escroque por Alan Pitz
Uma Macumba no Brasil por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Uma Análise do Filme Tempo de Guerra (1963) por Rafael Issa
09-15-2008
Três Belas por Juliano Guerra
Feijoada do Repete por Priscila Biancovilli
A Menina que Fazia Chover por Frodo Oliveira
08-15-2008
Rotina por Felipe de Oliveira
Space Bar por Carlos Cruz
Sobrevivência por Priscila Biancovilli
A Religião como Ilusão no Pensamento por Rafael Issa
Anonimato em Crise por Luiz Mendes Junior
07-15-2008
A Vida é uma Porra com Juros por Luiz Filho
A Noite das Sanguessugas por Jim Chaffee
Cicatrizes Urbanas, Massa de Gente e de Luz por Thomas R. P. de Oliveira
06-01-2008
Um Pedido a Carlos Cruz por Juliano Guerra
Komodo por Eduardo Frota
Em Nome da Fome por Zé Ignacio Mendes
O Engarrafado por Roberto Afonso
05-01-2008
Sete por Marcello Trigo
E agora, Jaime? por Luiz Mendes Junior
02-15-2008
Canção de Ninar por Liliane Reis
Vender é preciso por Dani Nedal
01-15-2008
Ensaio fotográfico: Banho coletivo por Jim Chaffee
Lua Vermelha por Liliane Reis
Manequim por Eduardo Frota
Um Pulo para o Amor por Gilberto Griesbach Junior
12-01-2007
Mensagem de Natal do Diretor Executivo por Sonia Ramos Rossi
Reflexo por Patricia Azeredo
Esdruxulidades por Priscila Biancovilli
A Ordem Natural das Coisas por Eduardo Frota
11-01-2007
O Assassino de Três Corações por Alexandre D´Assumpção
Aconteceu Num Dia Quente de Verão por Luiz Mendes Junior
Senhora Lia por Natalia Emerson Trindade
Tropa de Elite: A Alienação Como Origem da Violência por Rafael Issa
02-01-06
A Boneca de Natalia Emery Trindade
Broca arquivo completo
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A Ordem Natural das Coisas

por Eduardo Frota

Spider

I

Você se veste para tirar a roupa. Aceite. Um vestido novo, um salto alto. Uma gravata italiana, uma camisa cara. Você se veste para tirar a roupa. Grife, marca, etiqueta, status: nada disso importa depois. Porque o que você quer mesmo é ter alguém espremendo os seus peitos entre as mãos, ofegante no seu pescoço, falando sacanagens ao pé do seu ouvido. Ou então, alguém envolvendo com a boca o seu membro. Você quer ficar de quatro enquanto é açoitada no lombo. Ou então, olhar para o espelho enquanto come mais uma pobre virgem. Você se veste para tirar a roupa. Aceite.

II

Você come para defecar. Acredite. Tudo o que você ingere vira bolo fecal. O antepasto, a entrada, os pãezinhos, o patê de fígado de ganso. Até o prato principal. Culinária francesa, italiana, japonesa, mexicana, brasileira: vai tudo para a latrina. E você se esquece do gosto que a comida tem enquanto está sentado no vaso sanitário, suando, fazendo força para se livrar da boa comida que virou merda dentro do seu corpo. E você se esquece do cheiro agradável do forno à lenha quando precisa se esticar e passar o papel higiênico no rabo para retirar as sobras fedorentas da sua própria excreção. Você come para defecar. Acredite.

III

Você lê livros de auto-ajuda para impressionar terceiros. Confesse. O que você quer mesmo é ter tiradas e ditos filosóficos para usar na mesa de um bar, enquanto sorve álcool para esquecer dos seus próprios problemas. Você quer impactar os outros com conselhos que não seguiria, só para ser conhecido como o psicólogo da sua turma, mesmo sem saber o que dizia Freud, Lacan ou Jung. Lá dentro, você sabe, ainda povoam perversões, transtornos, obsessões e desejos invertidos - daqueles que você teria vergonha de falar ao padre durante a confissão depois da missa de domingo. Você lê livros de auto-ajuda para terceiros. Confesse.

IV

Você viaja para se cansar. Admita. São horas até chegar ao destino escolhido. E os minutos demoram a passar. Os quilômetros demoram a rodar. Por terra, ar ou mar você fica enjoado, contorcendo a garganta com os engulhos e a ânsia de vômito. A cama não é tão boa, a comida não é tão saborosa, a pousada não é tão bonita quanto parecia nas fotos. E você, otário, gasta seu dinheiro com qualquer porcaria que lhe faça lembrar que o lugar onde você vive é feio, imundo e mal cuidado. E onde você gostaria de morar, os caiçaras lhe fitam com severidade, julgando os seus trajes e trejeitos como patéticos, ridículos, desajustados. Quando você chega em casa, quer tomar um banho e dormir, fatigado. Você viaja para se cansar. Admita.

© Eduardo Frota 2007