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A Ordem Natural das Coisas
por Eduardo Frota

I
Você se veste para tirar a roupa. Aceite. Um vestido novo, um salto alto. Uma gravata italiana, uma camisa cara. Você se veste para tirar a roupa. Grife, marca, etiqueta, status: nada disso importa depois. Porque o que você quer mesmo é ter alguém espremendo os seus peitos entre as mãos, ofegante no seu pescoço, falando sacanagens ao pé do seu ouvido. Ou então, alguém envolvendo com a boca o seu membro. Você quer ficar de quatro enquanto é açoitada no lombo. Ou então, olhar para o espelho enquanto come mais uma pobre virgem. Você se veste para tirar a roupa. Aceite.
II
Você come para defecar. Acredite. Tudo o que você ingere vira bolo fecal. O antepasto, a entrada, os pãezinhos, o patê de fígado de ganso. Até o prato principal. Culinária francesa, italiana, japonesa, mexicana, brasileira: vai tudo para a latrina. E você se esquece do gosto que a comida tem enquanto está sentado no vaso sanitário, suando, fazendo força para se livrar da boa comida que virou merda dentro do seu corpo. E você se esquece do cheiro agradável do forno à lenha quando precisa se esticar e passar o papel higiênico no rabo para retirar as sobras fedorentas da sua própria excreção. Você come para defecar. Acredite.
III
Você lê livros de auto-ajuda para impressionar terceiros. Confesse. O que você quer mesmo é ter tiradas e ditos filosóficos para usar na mesa de um bar, enquanto sorve álcool para esquecer dos seus próprios problemas. Você quer impactar os outros com conselhos que não seguiria, só para ser conhecido como o psicólogo da sua turma, mesmo sem saber o que dizia Freud, Lacan ou Jung. Lá dentro, você sabe, ainda povoam perversões, transtornos, obsessões e desejos invertidos - daqueles que você teria vergonha de falar ao padre durante a confissão depois da missa de domingo. Você lê livros de auto-ajuda para terceiros. Confesse.
IV
Você viaja para se cansar. Admita. São horas até chegar ao destino escolhido. E os minutos demoram a passar. Os quilômetros demoram a rodar. Por terra, ar ou mar você fica enjoado, contorcendo a garganta com os engulhos e a ânsia de vômito. A cama não é tão boa, a comida não é tão saborosa, a pousada não é tão bonita quanto parecia nas fotos. E você, otário, gasta seu dinheiro com qualquer porcaria que lhe faça lembrar que o lugar onde você vive é feio, imundo e mal cuidado. E onde você gostaria de morar, os caiçaras lhe fitam com severidade, julgando os seus trajes e trejeitos como patéticos, ridículos, desajustados. Quando você chega em casa, quer tomar um banho e dormir, fatigado. Você viaja para se cansar. Admita.
© Eduardo Frota 2007

