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O Assassino de três corações - 4

por Alexandre D´Assumpção

rua Rio mais um

Capítulo 3 – O fim.


Madrugada do terceiro dia.

Ela estava sentada comendo “Bolachas Mabel” enquanto assistia a televisão e decidiu trocar a maratona das “Menininhas Superpoderosas” por um canal de notícias. No flash, haviam descoberto o mais recente crime do “Assassino dos três corações.” Um casal havia sido encontrado no banco de uma praça, “encaixados”. Ela estava com dois corações desenhados no braço e ele com um coração partido e o nome de uma mulher tatuado. Poderia ter sido outro motivo ou um imitador. A tatuagem de Henna foi substituída por Hidrocor, numa tentativa quase colegial de imitar o famoso psicopata.

O comentário geral era que a cena fora inspirada numa música do Paralamas do Sucesso. “E a mocinha se perdeu olhando o sol se por... Mas que final romântico, morrer de amor.”

“Inspirador...” – Pensou enquanto ouvia a música.


A manhã seguinte. (segundo dia)

Vários dos seus amigos estavam sentados no pátio durante o recreio. Empolgada, ela contou todos os detalhes a cena da noite anterior. “Só se foi “feliz aniversário” !”- Implicou uma amiga sua, a Mariana, lembrando-se de uma piada onde a menina coloca dentro da vagina um balão de gás para enganar o marido. Em seguida, piadas sobre Hímens complacentes tiraram seu humor. Não seria a primeira briga entre as duas, inimigas declaradas, mas parecia a mais agressiva.

Um guardanapo e sabonetes de motel, lembranças da última noite. Pequenos troféus para uma grande vitória. Todos viram e comemoraram a mudança. Uma amiga mais espevitada chamou sua atenção para uma nova trilha, grande demais, obrigando-a a ver por cima para entender do que se tratava. Diferente das outras vezes, podiam ser lidos os textos: “Obrigado pela noite maravilhosa” e um desenho que lembrava uma rosa onde poderia se ler “Pra você...”

“Sempre carinhoso...” – Pensou – “O cavaleiro branco vestido numa armadura negra...” Comentou dando uma cotovelada em sua amiga e acompanhante curiosa.

Perto do final da aula, um vulto negro foi avistado nos arredores do colégio. Uma menina recebeu o recado e entregou para ela, que apesar da corrida, não conseguiu alcançá-lo.

“No esconderijo...” – Ele escreveu – “Vou estar lá com uma surpresa.”


A primeira parte da segunda noite.

Ela chegou no esconderijo depois de um dia atribulado. Nada como o encontro com o “o príncipe”.

Uma surpresa desagradável: A mulher da noite anterior estava sentada no sofá, casualmente comendo pipoca. Fora do transe, percebeu que o chapeuzinho era negro, não vermelho. Uma bela mulata, ainda assim o alvo de seus ciúmes. A antagonista.

Com um sorriso sempre misterioso, ele conseguiu convencê-la de que as novidades seriam bem-vindas. Antes de se decidir pelo que você realmente gosta, tem que experimentar um pouco de tudo.


Meio da segunda noite.

Acreditando se tratar de uma experiência válida, observou o casal durante algum tempo até finalmente decidir transformar numa “trinca”.

Até o momento, a situação lhe parecia completamente alienígena, algo que jamais praticaria. Até o momento. Respirou fundo e fez. “Não era tão ruim...” Pensou enquanto recebia os carinhos dos parceiros de dois sexos diferentes. O toque de outro seio tão diferente em tamanho e formato do seu e um beijo ainda mais macio, doce e delicado que o de “Peter”. Carinhos que só outra mulher - com corpo e conhecimentos completamente diferentes do seu - poderia dar.

O delicioso beijo a três precedeu o momento certo, quando de dentro de sua vagina, retirou um bisturi e perfurou a garganta de seu amante. O cansaço fez com que acertasse o ponto errado e ele ficou agonizando por algum tempo, uma cena chocante até para quem já havia vivido aquela cena outras vezes.

Paralisada, sua parceira sequer conseguiu gritar. Apesar da promessa de que aquela seria “uma noite dos diabos”, não esperava por aquilo. Foi uma presa fácil.

A casa de sua última vitima era um estúdio de gravação, a prova de som. Poderiam explodir uma bomba e nenhum vizinho perceberia até ser tarde demais. O lugar também servia para esconder as tendências “S&M” – entre outras subversões - da vítima “nas sombras”.

Na falta do marcador de Henna, utilizou “canetinhas”. Três corações. A tatuagem dele, com um coração partido e o nome de sua “ex-esposa” foi uma deliciosa coincidência.


Um pouco depois da madrugada.

menina por Marcela Gomes

Injeções de formol dadas cuidadosamente mantiveram os músculos na posição desejada. Em poucos minutos, a rigidez cadavérica faria o resto. Um casal se beijando... Poético. “Estou melhorando a cada dia...” Pensou enquanto – pouco antes de partir - dava os ajustes finais em sua obra de arte.

Em poucas horas “eles” estariam lá.

O final que remete ao começo.

Mariana, sua inimiga declarada que havia comparado sua virgindade com a piada, abriu a porta com um sorriso e um “Salamaleque” e um comentário bem seco: “Este quase conseguiu colocar tudo a perder...” e Larissa prontamente respondeu: “Não estava nos planos ele descobrir minha casa nem o colégio...”

A amiga sorriu e disse: “Eu decidi que era hora de apimentar ainda mais a brincadeira, testar os limites... Por isso dei as dicas.”

As duas se sentaram no quarto e Mariana ajudou-a a retirar a peruca preta, revelando seus verdadeiros fios loiros platinados. Um comentário seu de que desta vez gostaria de se parecer com a Geri Halliwell em sua fase ruiva causou uma gargalhada imediata e o comentário : “Esta é a Spice errada... Tenta a Emma Bunton que é a sua cara. Você não tem espelho em casa, Larissa?”

“Sabe o que é divertido ?” – Comentou Amanda – “Realmente acreditam que não nos damos bem... Ainda se perguntam o que nos tornou inimigas declaradas quando éramos tão amigas...”

“Que continuem se perguntando...” – Retruca Larissa.


Três anos antes...

Após toda a insistência, sua mãe havia permitido que ela dormisse na casa de uma amiga, e sem que soubessem, a namorada ocasional com quem havia descoberto o sexo.

Esta era uma das vantagens de se morar sozinha com um primo que nunca estava presente. A primeira vez aconteceu por mero acidente, um toque, um carinho mais “caliente”... O medo do trovão e do relâmpago...

Um vídeo bem plantado filmou as duas para a prosperidade. Foi uma idéia divertida comparar seu desenvolvimento, contudo, nem todas as idéias são boas. Uma quebra de compromisso levou seu primo de volta para casa no meio da cena. Boquiaberto, ficou congelado por alguns minutos com a visão de duas meninas de 14 anos se “esfregando”. Bons desejos não se realizam todos os dias, pensou enquanto as via “dançando” ao som do refrão de “2 become 1” das Spice Girls: “Tonight is the night when two become one...”

Colocou a valise de médico em cima da cama e avançou. Garantido pelo elemento surpresa, agarrou Larissa. Sempre desejou a prima e agora, ela não teria desculpas e ainda oferecia um “bônus”. Imobilizada, com sua virgindade perdida a força, agarrou a primeira coisa que seu braço conseguiu alcançar e um golpe certeiro na testa abreviou o ataque. Ele estava morto.

Com sangue de sua vitima nas mãos, e nos braços de sua amiga, completamente ensangüentada, percebeu o que estava em sua mão: Um bisturi de metal com ponta de diamante. Duro e pesado o bastante para perfurar um crânio.

Assustada com o que havia feito, começou a chorar. Havia tirado uma vida, cometido um pecado... Logo, descobririam e ela seria presa, trancada numa cela com um bando de tarados que a transformariam no “banquete de todos os dias” até que outra “carne nova” chegasse.

Sua amiga ficou chocada por mais algum tempo, olhando para o corpo inerte de seu primo, por quem – secretamente - também sentia algo. Tomada pelo desespero, pensou em se matar, quando teve outra idéia. Mais do que nunca, a partir daquele momento, as duas seriam cúmplices de tudo.

Com a cabeça fria, puxou de dentro de sua gaveta, seu conjunto de tatuagens de Henna e desenhou no braço de seu primo dois corações interligados por um partido.


“O grand Finnale”.

Momentos depois, as duas já o haviam envolvido num grande saco de lixo e estavam carregando o corpo para um lugar mais seguro.

Numa de suas “explorações”, Amanda havia encontrado uma casa abandonada e cheia de mitos e lendas sobre fantasmas e outras criaturas que rondavam a noite. Na verdade, conforme descobriram, o esconderijo de um ricaço que tentava a todo custo manter seus hábitos “anormais”.

Ela o havia conhecido um ano antes, quando sua paixão por criancinhas levou-o até seu colégio, sendo atraído pela mesma loira “Pré-pubere” que o matou acidentalmente com a arma carregada que estavam brincando depois de mais uma de suas noites de “diversão”.

Já eram amantes há quase um ano na época do incidente, o que lhe dava total acesso ao seu “salão secreto”, onde guardava não apenas o equipamento “S&M” como armas e todas os outros instrumentos que pretendia usar na sua tão planejada revolução. Uma de suas paixões, além de se divertir comprando roupas de diferentes estilos para “sua filha”, que sempre mostrava o quanto estava feliz com os presentes. Havia um armário cheio de indumentárias e roupas. Claro, também havia as roupas “mais ao gosto dele”, suas pequenas perversões.

Dentro dos dados em seu Notebook, havia páginas sobre Neo Nazismo, técnicas para iniciar revoluções e outros dados ainda mais curiosos como sua galeria de fotos de meninos e meninas em posições comprometedoras. Claro, dentre todos, ainda preferia as teorias de como se criar um “bicho papão moderno”, um estudo sobre a alma dos “Serial Killers” e como gerar histeria coletiva atacando as diferentes minorias. A própria mania de perseguição desta parcela da sociedade já funcionaria como um estopim para a “febre”. Atualmente, havia até colecionadores de itens mórbidos, pertences dos assassinos ou partes de suas vitimas.

Com Amanda deitada no seu colo, exatamente como ela fazia com seu “pai amante” – mas sem revelar este “pequeno detalhe” - contou-lhe a história como tendo sido de “outra amiga” e sugeriu que não mais colocassem seu primo no porão da casa, mas que seguissem a idéia do dono da casa criassem o “psicopata brasileiro”, uma idéia que cresceria além de suas expectativas, algo que ninguém acreditaria ter sido feito por uma dupla de adolescentes.

Desavisada, uma mendiga decidiu que aquela casa seria um bom lugar para esmolar e foi abatida a tiros ao avistar o cadáver. Com mais um corpo em suas costas, Larissa sugeriu que fosse feito algo “artístico”, inspirado na idéia do dono da casa e os corações partidos poderiam ser um tema perfeito. “O assassino dos três corações” nascia naquele momento.

Usando alguns dos infindáveis adereços de tortura encontrados no “quarto de tortura”, encontraram garras, com os quais prenderam os mamilos do “casal” e formol, que ajudava a trabalhar com a rigidez cadavérica.

Carregaram os corpos e colocam-nos numa pedra, onde para deixar tudo ainda mais curioso, usaram um consolo duplo para unir ainda mais suas intimidades. “Um trabalho de mestre.” Concordaram as duas.

No dia seguinte, enquanto os telejornais narravam a primeira aparição de um novo “lobisomem”, as duas iniciaram uma briga que geraria uma inimizade de anos, ao menos aos olhos de todos, o que provou ser diferente da verdade mais “intima”, que apenas as duas conheciam.

Quem iria imaginar que duas amantes adolescentes criariam um mito urbano que superaria todas as expectativas? Nos dois anos seguintes, vários loucos se inspiraram nos ataques do assassino e tornaram suas investidas ainda mais divertidas e criativas. Criada pelos telejornais, a idéia de um homem de olhos negros parecido com um dos “temidos” Góticos inspirou-as, criando um biótipo para o vilão, assim como para algumas de suas vítimas. Elas gostariam de conhecer alguns de seus seguidores, mas não tinham tanta certeza da segurança da idéia. Não importava... Ainda havia outras idéias de onde aquela veio e a qualquer momento, a original poderia ser abandonada em prol de alguma novidade ainda mais “picante”.


O epílogo que dá um detalhe curioso sobre a primeira noite.

O homem de cabelos negros estava assistindo à TV quando viu uma inserção sobre o “Assassino dos três corações”. Sorrindo, teve uma idéia... Um monstro moderno, oculto nas sombras poderia ter qualquer rosto, ainda assim, tinha sua descrição. Longos cabelos negros, alto, misterioso... “Porque não deveria...” – Comentou com sua voz assombrosa, que muito lembrava a do cantor Peter Steele do grupo “Type O negative”.

Um sorriso cínico fez com que largasse sua companheira bêbada e a deixasse cair, quase sufocando com seu próprio vômito e pedindo por ajuda. Não lhe deu atenção, virou-lhe as costas e foi até uma loja de instrumentos médicos. Um bisturi serviria bem para o que pretendia fazer.

Horas mais tarde, depois de ter decidido trocar os “inferninhos” GLS por uma danceteria da moda, cruzou os olhos com outro grão de café no meu do milharal oxigenado. Soube como se fazer percebido pela menina que em muitos detalhes lembrava a atriz Cristina Ricci. Aquela “poser” destoante seria sua primeira vitima. Que problema uma simples garotinha poderia lhe causar?


O fim ?

Rio rua mais um

© Alexandre D´Assumpção 2007

quatro fotos de menina por Marcela Gomes © Marcela Gomes 2007

outra fotos por autor © Alexandre D´Assumpção 2007