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O Assassino de três corações - 2
por Alexandre D´Assumpção

Capitulo 2: - O meio da história.
A madrugada seguinte.
Sábado de manhã, com as pernas ainda trêmulas da “noitada” e meio “sonada”, ela entrou em casa na ponta dos pés e calçando as pantufas de coelhinho bem guardadas na mochila na noite anterior.
A mãe ainda estava dormindo... Roncando e destilando um “mix” de sonhos eróticos balzaquianos e pesadelos maternos. Por alguns momentos, alternou entre a culpa e a felicidade de saber que pelo menos nos sonhos, tudo estava bem para ela. Segundos depois, lembrou-se da noite anterior e se indagou quando aconteceria novamente. Apagou a luz e fechou as cortinas. Independente da hora que acordasse, sua mãe seria recebida com um café da manhã especial. Pagaria sua culpa desta maneira... Ela nunca saberia e ficaria feliz com a filha dedicada.
No banheiro, recolocou o aparelho ortodôntico com cuidado. O “arreio de burro” estava quase quebrando por causa de uma briga com sua “Nemesis". Seu sorriso estava em jogo, principalmente porque quase não tinham dinheiro para pagar a manutenção do aparelho, quanto mais um novo. Dívidas familiares...
Final da noite anterior.
“Três numa primeira noite...” comentou “Peter” enquanto jogava a última camisinha no lixo. Ele havia “faturado” uma virgem e apesar de todo o seu estilo “fechado”, ela conseguia perceber o “sorriso invisível”. Um belo presente para os dois. Ela se levantou e começou a ver seu reflexo no espelho com ares de menina e de mulher ao mesmo tempo. Alguns dizem que as meninas mudam quando “dão”. Movimentos, gestos, sorrisos... Ao menos, era o que os amigos sempre falaram. Lendas urbanas em que ele acreditava piamente naquele momento em que via aquela menina – antes tímida - brincando com seu corpo. “Gozado, ela não sangrou...” – Pensou enquanto a observava com um sorriso matreiro.
“Sempre há espaço para uma primeira vez.” – Pensou ela apertando seus seios e se imaginando uma “mulher fatal” como a Angelina Jollie . Virando-se para o lado, percebeu que ele havia dormido. “Não era lenda, eles realmente fazem isso...” – Pensou com um sorriso terno.
Começo da noite.
A menina preparou um suco para a mãe temperado com “Haldol 500”. “Bons sonhos, mamãe...” Pensou enquanto derramava duas pílulas maceradas dentro da jarra. Um dos nomes para sua atitude era: “Boa noite,Cinderela...” Ainda não tinha certeza se sua criadora havia sido a mesma amiga que disse que sua mãe dormiria por três dias, assim como a dela. O tranqüilizante era uma das novas modas entre as “mulheres modernas”. Ela estava entrando para um grupo extremamente seleto. Foi o que a amiga disse com um sorriso misterioso. Sua confidente quebrava vários “galhos”. Sabia o que fazia.
Mal a mãe fechou os olhos, a menina invadiu sua caixa de camisinhas e retirou vinte. Melhor prevenir do que remediar. Não era o momento para uma gravidez ou algo ainda pior. “O sonho de todos os homens, certo? Uma mulher prevenida, a que vale por duas.” Saiu cantarolando ao ver sua mãe já no segundo sono.
Fechou a porta ao som de “Erótica, Erótica... Your hands are over my body...” A noite prometia.
No fundo da casa, uma Barbie com os cabelos tingidos com tinta plástica preta, outra loira que havia escurecendo os cabelos para ficar na “contramão da moda”. Ele sabia seu “segredo nefasto”...
Olhos azuis num tom que lentes não poderiam imitar liam cada detalhe do bilhete colado com “fita banana” no vestido de bruxa da boneca, uma citação ao seu apelido. Ele havia feito seu trabalho de casa direitinho. Tinha os dados e sabia como rolá-los. Um verdadeiro jogador.
A sensação de estar sendo manipulada era divertida, excitante... Coisas de um homem interessante.
Final da segunda noite.
O saco preto é pesado demais para alguém de seu tamanho. Não era a primeira vez, já havia se acostumado. Seus braços estavam “em forma”, as competições de “Taco” no colégio garantiam isso. Não demoraria mais que o tempo necessário.
Enquanto executava o serviço, lembrava-se de “Peter”. Sabia que depois de ter conseguido o que finalmente queria, não iria revê-lo. Homens...
Olhando para a lua e para um banco de jardim perfeito para o final da noite. Banhados pelo pálido luar no parque dos sonhos de sua avó. As cores pálidas de seu sonho de amor perfeito. Um casal acordará sentado ali trocando juras proibidas de amor perfeito.
Uma primeira parte do meio da primeira noite.
Novas setas de pedra e um novo caminho. Um caminho para ele, com o prêmio no final da estrada dos tijolinhos amarelos. Uma distinta figura de sobretudo e cabelos negros esvoaçantes como a noite a esperava. Para contrastar, um sorriso perolado... O homem dos sonhos de qualquer “poser”.
Sussurrada em seus ouvidos, a música “Black number one” causava o “Frisson” esperado. Seu coração palpitava. Uma dança improvisada no jardim de um vizinho desconhecido. Sem nome ou rosto, apenas a sugestão, o perigo no meio da noite, a aventura, a adrenalina.
Uma janela aberta, a invasão e a certeza de que não havia ninguém – além deles - dentro da casa. Confortável demais para um bairro tão pobre.
Uma agenda, um plano de viagem para quinze dias e um lugar garantido para seus encontros. Numa busca por curiosidades, encontraram uma sala de torturas medieval. Roupas para sadomasoquismo e submissão. Cumplicidade mútua, um sorriso fechando o acordo com um “sim” silencioso. Um bom lugar para momentos mais “propícios”. Um “notebook” ligado, esquecido numa viagem às pressas. Os motivos não importavam, era o esconderijo que precisavam.
As mãos habilidosas de um “Hacker” desvendavam segredos com grande velocidade. Números de contas bancárias e cartões de crédito abriram portas para a diversão. Cinema, bares, motel... Lugares para se ir com o dinheiro dos outros. A festa não podia parar. A menina se sentia “Bonnie” ao lado de “Clyde”. Em sua vida secreta, poderiam fazer qualquer coisa.
Num dos quartos, várias Polaróides explicitas de mulheres que poderiam ser filhas e netas do dono da casa, um velho de 60 anos. Pedofilia... Estavam pisando em ovos e não se importavam muito. Nada duraria mais que uma noite, uma contravenção a mais para o que parecia ser um grande álbum.
Roupas do seu tamanho foram encontradas no armário, uma vantajosa surpresa. Por alguns segundos, ela se indagou o quanto garotas ainda mais jovens que ela poderiam ficar mais interessantes quando vestidas com “roupas de mulher” e se perguntou: “Quantas não haviam feito a mesma pergunta?”
Um retoque na sombra deu um tom ainda mais sombrio aos olhos dele, quase cadavérico. “Peter” parecia extremamente assustador naquele momento. Ela ficou com um pé atrás, mas sua mão estendida foi a senha para a mudança de opinião. A noite estava para começar.


