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A Broca Literária

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O Assassino de três corações

por Alexandre D´Assumpção

Capítulo 1: O começo.


O final da tarde.

A menina olhou para o sol brilhando, colocou óculos escuros e sorriu. Ao seu redor, as amigas de colégio imitavam a mais recente coreografia da Britney Spears. Ela se distanciou delas e se sentou na escadaria da entrada do colégio, onde ficou olhando para os peixes de um lago artificial por alguns segundos, até finalmente decidir puxar de sua pasta da “Kipling” seu diário e a caneta, que retirou cuidadosamente das mãos do macaquinho.

Enquanto escrevia, alguns colegas se aproximavam e sorriam para ela. Sua reposta foi um sorriso maroto. A desaprovação que gerou novos sorrisos. Sua agenda foi tomada de suas mãos por um colega mais atirado. Ela sorriu e olhou para o menino por cima dos óculos. Olhos azuis usados para o mal. O menino parou e os elogiou, sua chance de retomar o objeto. Seus segredos deveriam ser mantidos. Não é esta a regra de todos os diários ?

A sineta avisou o final do recreio. Ela voltou para a sala de aula e cochilou. Nos seus sonhos, a noite anterior voltava em tons mais intensos.


A noite anterior.

Sua mãe havia dado uma hora certa para que sua carruagem virasse abóbora, entretanto, com os primeiros acordes de “Pop” do N´Sync, ela deu três passos para trás e voltou para a pista. Sua música preferida merecia as regras que iria quebrar e a bronca de sua mãe. Ao seu lado, amigas que tentavam ser Britney, imitavam suas coreografias ao pensar que poderiam encontrar seus Justins naquela noite. Uma música pedia outra e quando percebeu, ainda estava lá quando pediram “um minuto de silêncio” pela morte da Alijah. Parou para reparar no quanto todas se pareciam com ela, Cristina, Mariah, Gwen, Pinky e tantas outras que aparecem e desaparecem nas pistas. Não que ela se importasse.

Alguns amigos costumam chamá-la de “Wandinha”, tamanha sua semelhança com a atriz Cristina Ricci. Para não ficar tão mórbida, nem diferente de suas amigas, ela até já usou outro cabelo. No final, parou de se importar e entrou numa fase mais “alternativa”. Cantando a primeira estrofe de “Humanos”, do disco do Supla que comprou por causa da “Casa dos Artistas”, pensou que ser diferente também tinha suas vantagens. Algumas amigas reclamavam que seus “ficantes” acabavam beijando outras meninas, um incidente assassino. Claro, elas faziam o mesmo, mas quem tiraria seu direito de reclamar?

Nesta noite, ela estava seguindo sua moda pessoal desde que “desencanou”: Vestir-se conforme os personagens de sua semelhante. O modelito da noite seria “O oposto do sexo”. Destoando entre várias nuances do mesmo tom, seus tons mais escuros se sobressaiam. Além do sorriso, sua reposta óbvia era a música da “Baby Spice”: “What I am”, sua preferida dos Karaokês.

Noites suburbanas. Todos sonhavam com o domingo para dançar e “ficar” os mesmos “criloiros”, “Rodney D´s” e fotocópias de “boy bands”. Meses sem beijar na boca. “Ficar com quem” ? – pensou enquanto todos pareciam apenas mais do mesmo.

Leis quebradas com “etílicos” em latinhas de refrigerante. Sem problemas com a fiscalização. Poderia ter sido o Álcool, mas era verdade. No meio de todos os “covers” dos “Backstreet Boys”, alguém tão destoante quanto ela ganhou o “spotlight”.

Os olhos profundos de Marilyn Manson e os cabelos negros cortados como os de Alice Cooper misturados com um meio sorriso safado. Deslocado, começou a olhar ao seu redor, procurando algo até que seus olhares se cruzaram. Faíscas voaram, os dois “fecharam curto”.

O tempo deixou de fazer diferença e ela tentou alcançá-lo por todo o resto da noite. Ciente disso, ele iniciou um delicado jogo de sutilezas que apenas os dois percebiam. Uma linguagem quase que subliminar surgiu naquele momento. Olhares, gestos, sorrisos, provocações com quase ficantes e a famosa dança ao redor da “vitima”. Em seus ouvidos, uma voz de trovão – semelhante a do Peter Steele – disse suavemente: “Vem”!

O convite físico, rápido e selvagem veio em seguida. Ser arrastada por um misterioso estranho para um canto escuro assustaria qualquer outra garota. Não foi o caso.

O beijo elétrico quase a sufocou. Seu algoz sabia o que fazia... Toques mágicos de um homem que conhecia todas as “travas” e suas “gazuas”. Ele a tinha nas mãos. Seus braços pareciam engoli-la, fazendo-a parecer ainda menor do que seu 1,56 m. Comparada com ela, aquele homem de 1,80m parecia ainda maior que a própria vida.

Uma pausa para respirar, outra chance para ouvir sua voz, que ao mesmo tempo soava quente e fria. Profunda e no tom certo. “Gostei de você. Qual seu nome ?” – Perguntou “Larissa...” – Respondeu tímida, desviando os olhos. Um sorriso seguro foi sua resposta. Todos os seus movimentos eram calculados, um profissional.

Ele se sentou na mureta onde momentos antes haviam dado um “amasso” e puxou um cigarro de cravo, que pelo cheiro, poderia ser de “outra especiaria”. Olhou para ela e deu tapinhas na mureta. Um convite silencioso aceito imediatamente. Ela tentou subir, sem sucesso. Ele sorriu e ajudou-a gentilmente. Seu pagamento ? Um sorriso tímido.

Entre uma tragada e outra, ofereceu-a, recebendo a única recusa da noite. Um novo olhar cínico foi sua resposta. O significado? Apenas ele sabia.

Perguntas básicas entre um trago e outro e a menina foi descobrindo – entre outras coisas - sua idade, 32 anos. O dobro da sua. “Homens mais velhos são mais sábios e experientes”. Pensou com um sorriso cúmplice que escondia o susto e o nó na garganta. Para respostas declaradamente nervosas, um carinho no rosto. (acalentador e ao mesmo tempo selvagem) Ele sabia como lidar com garotas. Experiência. Novos beijos, lisergia visual e uma leve dor-de-cabeça precederam uma surpresa desagradável: A “visita” de sua mãe. Puxada pelo braço com selvageria. Xingamentos e reclamações “a la carte”. Seu “Peter Steele” havia ficado para trás, o sonho forçosamente dava lugar para a funesta realidade. Enquanto pessoas passavam por ela, sua imagem ia diminuindo no horizonte, desaparecendo até sobrar apenas uma sombra, um ponto distante, quase invisível. Um sonho distante.


Começo da manhã.

A menina acordou com os olhos inchados e ainda úmidos das lágrimas da última noite. Um momento congelado no tempo. Dor em drágeas, raízes crescendo e esmagando seu coração tão pequeno quanto sua mão. Fragmentos levados pelo vento.

Olhou para sua mãe e abaixou a cabeça. Ainda não era o momento para palavras entre as duas. Na sua cabeça, um velho bordão: “Se você não tiver nada de bom para dizer...”

Enquanto escovava os dentes com a porta aberta, conseguiu ver sua intimidade sendo invadida. Socou o espelho com força e em seguida lavou as mãos para limpar o sangue e tirar os cacos. O sangue saído de suas mãos tingia de vermelho a pia branca. O arrependimento veio tarde demais.

Com os antebraços cortados, saiu do banheiro deixando um rastro de pingos telegráficos. Qualquer um mais atencioso conseguiria ler as mensagens: “Socorro !” e “Me deixe em paz!” Gritos silenciosos murmurados entre tacos de madeira e pisos brancos.

Esquecendo-se do bordão, sua mãe gritou “palavras de gilete”, cortando tanto seu orgulho quanto sua alma.

Seu temor tinha um nome: “O assassino dos três corações”, um “bicho papão” moderno inventado pelos jornais para punir menininhas mais “saidinhas”. O fantasma do medo já havia chegado até seu círculo de amizades. Havia comentários sobre avistamentos e as com idade para - como ela – “curtir a night”, estavam preferindo “matinês”. Medo.

Seu “modus operanti”, uma tatuagem de Henna feita nos dois amantes mortos. Em sua maioria, homossexuais. Três corações interligados, sendo que o do meio, partido, derramava uma lágrima.

Segundo sua mãe, ingenuidade – nos dias de hoje – sempre acabava sendo a “causa mortis” de alguém. Uma menininha de dezesseis anos jamais se desvencilharia da maldade de um homem mais experiente.

“Sou só uma garotinha idiota e cheia de sonhos que nunca se realizarão.” – Pensou enquanto enfaixava os braços, o prêmio por seu ataque impulsivo. Colocou a mochila nas costas e saiu tão silenciosa quanto pretendia se manter na presença de sua mãe.

Na saída, uma surpresa: Em cima do capacho de boas vindas de sua casa, uma rosa vermelha envolta num papel de caderno. Ao abrir, a mensagem: “Depois da sua aula!” Sorriso imediato. Havia reconhecido o estilo e sequer lhe passou pela cabeça a pergunta básica: “Como ?” Não importava... Não se lembrava de ter passado estes dados na noite anterior... Mas isso realmente importava? O aviso seco poderia ter sido dado por qualquer outra pessoa, uma brincadeira até, mas na sua cabeça, tinha sido escrito por “ele”. O homem proibido.

Voltar e se trocar seria uma boa opção, mas também significaria ouvir mais um episódio da lenda do assassino. Lembrou-se que a maioria dos homens sempre fantasiou com colegiais. Provavelmente ele não seria a exceção, o fetiche seria uma pimenta a mais para a história, um presente.


O final da tarde.

Um pedido para ir ao banheiro, uma desculpa para retirar as faixas feias e constrangedoras. Não gostaria que ele a visse assim. Se pretendia agir como uma mulher, antes de tudo, deveria se parecer como uma, não um bebê que se machucou no parquinho.

Minutos depois, pediu para as amigas batons e outros apetrechos. “Ele” viria buscá-la. Havia descoberto o “caminho das pedras”. (Ou para chegar a uma menina de sobrenome “Rocha”)

Durante todo o resto da aula, seu coração parecia querer saltar pela boca. Palpitações e “piscadelas úmidas” compassadas... O “tic tac” do relógio digital havia ganhado uma curiosa sonorização. Pediu “óculos escuros” para a amiga mais próxima. Rosa, tipo “gatinha”. Irônica, cantarolou: “Ooops! I did it again.” Imaginou-se a própria Britney vestida de garçonete. Outro fetiche de homens mais velhos que poderia ser usado num momento mais para frente.

Com o som da “sineta”, o “estouro da manada”. Hora de voltar para a aula e amarrar seu coração por mais algum tempo.


Momentos depois do final da tarde.

“Acho que me precipitei...” – Pensou depois de esperar por uma hora antes de decidir ir embora. Distraída, pisou numa pedra e xingou pensando em chutá-la. Foi quando percebeu o delicado detalhe: Aquela pedra fazia parte de um conjunto que tomava a forma de uma seta apontando para outra formação ainda maior, apontando para fora de seu colégio, onde um “buquê” de rosas a aguardava.

No cartão, um novo aviso: “A noite, nos fundos de sua casa.” Junto das rosas, uma caixinha de “Haldol”. “O homem prevenido vale por dois...” Pensou quase não controlando a sonora gargalhada que se tornou um sorriso sacana. Nenhuma mulher era mais importante do que ela naquele momento.

Rio Street Scene