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Aconteceu num dia quente de verão - 2
por Luiz Mendes Junior

O walkman da Panasonic era um modelo antigo. Ganhara-o num "amigo secreto" ainda quando cursava o segundo grau. Na época o rapaz já tinha um e não hesitou em deixar claro que o presente não o satisfizera. Nem chegou a agradecer à amiga quando o aparelho anterior deu pane. Felipe e seu Panasonic haviam compartilhado momentos memoráveis.
Precisava testá-lo. Abriu o compartimento de pilhas que estava vazio, como era de se esperar. Não se preocupou, só necessitava de duas pequenas. Abriu o controle remoto da TV e fez o devido transplante.
Deixou o aparelho sobre a cama e colocou os fones de ouvido. Ajustou o botãozinho que estava em "tape" para "radio" e começou a sintonizar as estações. Finalmente poderia entender o que acontecia em sua vizinhança, ou quem sabe esse estranho fenômeno tivesse proporções ainda maiores? Descobriria dali a alguns segundos.
Sintonizou as FM uma a uma, enquanto ouvia apenas ruídos de má transmissão. Continuou girando o seletor passando por suas estações preferidas, conseguindo identificar apenas o ruído. Numa delas escutou algo semelhante a uma voz humana, porém indecifrável. Tentou fixar-se na estação, mas o som era muito ruim, talvez o aparelho não estivesse funcionando bem.
Após passar por todas as emissoras FM locais possíveis iria tentar as AM. Antes, porém, preferiu testar o toca-fitas do walkman que estava em perfeita ordem. Começou seu "tour" pelas AM enquanto continuava a ouvir os ruídos. Foi girando o botão devagar. Talvez apenas o rádio tivesse problemas ou quem sabe se tratava de algo pior? De repente, pôde identificar uma voz humana. Uma voz trêmula e assustada.
TSSSSSSSSSSSSSSSSSSS ALGUÉM! QUEM ESTIVER OUVINDO! POR FAVOR! ALGUÉM! SOCORRO! TSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS O QUE ESTÁ ACONTECENDO? ONDE ESTÃO TODOS? ALGUÉM PODE ME OUVIR? LIGUE PARA 3312724 AGORA! EU SEI QUE AS LINHAS NÃO ESTÃO FUNCIONANDO! MEU DEUS, QUE É ISSO NO CÉU? TSSSSSSSSSSSSSSS
O rapaz tentou ligar para o número indicado, mas seu telefone permaneceu mudo. Rediscou mais três vezes e tentou o celular inutilmente, enquanto continuava a ouvir o desespero do homem.
TSSSSSSSSSSSSSSS ESSAS VOZES.... O QUE É ISSO, MEU DEUS? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? ESSAS VOZES DE NOVO! O QUE VOCÊS QUEREM? TSSSSSSSSS O QUE VOCÊS QUEREM PELO AMOR DE DEUS? SOCOSSSSSSSSSSSS ALGUÉM PODE ME OUVIR? VOU DAR O ENDESSSSSSSSS DE NOVO! RUA DOS AÇORES SETECENSSSSSSSSSSSSS OLARIA! REPITO! TSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS SETECENTOS E CINQÜENSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS, RADIO PLUS! ANOTE E VENHA PRA CÁ SEJA VOCÊ QUEM FOR! TSSSSSSSSSSSSSSSS DEUS! ESSAS VOZES DE NOVO! QUEM SÃO VOCÊS? O QUE VOCÊS QUEREM? SAIAM DAQUI! ME DEIXSSSSSSSSSSSSS EU NÃO SSSSSSSSSSSSQUI! MEU DEUS! MEUS PÉS! ONDE ESTÃO MEUS PÉS? ALGUÉM ME TSSSSSSSSSS - dessa vez o ruído se mantivera constante; nenhuma voz identificável.
O rapaz anotou o que acreditava ser o endereço da rádio. Rua dos Açores, setecentos e cinqüenta, com talvez mais um algarismo, Olaria. Era bem longe de onde morava.

Continuou a procurar por estações. O wakman só podia detectar rádios próximas. Seu microsystem captava emissoras do mundo todo, mas precisava de seis pilhas médias, das quais ele não dispunha no momento. Ao menos agora sabia que não estava sozinho em seu drama e que se tratava de algo maior, de gravidade inimaginável. Até onde aquilo se estendia? Que vozes eram aquelas que o homem escutava? Seria uma catástrofe de nível nacional? Ou quem sabe até mundial? Além disso, o locutor parecia estar em perigo, falou de algo no céu, vozes, seus pés... Talvez já se encontrasse morto àquele momento. Quem seria o próximo? Felipe não parava de pensar na possibilidade de se tornar uma vítima. Onde se esconderia? A quem procuraria? Devia haver outros, muitos outros espalhados por aí e perdidos como ele. Vagando por ruas, escondidos em suas casas, talvez até armados. O tempo passava e a noite se aproximava. Verificou o relógio. Eram quase seis da tarde. Teria uma hora e meia ou duas até que tudo escurecesse. Gostou do horário de verão pela primeira vez.
Decidiu deixar o apartamento. Uma atitude que sabia ser arriscada, pois quando a noite caísse, ficaria às escuras. Mas a situação não seria tão diferente em casa, onde certamente estaria sozinho. Não devia haver muita gente na rua de qualquer modo e se encontrasse alguém agradeceria aos céus.
Tratou então de recolher tudo o que julgava necessário. Deu mais corda no despertador e o jogou na mochila. Levaria também o walkman. Pegou as pilhas de todos os controles remotos da casa e a lanterna do pai, que também seria importante. Incrementou seu arsenal com uma faca de caça que nunca usara, além de caderno e lápis, mais todo o dinheiro que pôde encontrar. Completou tudo com fósforos, isqueiro e alguns pequenos itens que poderiam ser úteis, incluindo as identidades dos pais.
Sua mochila estava pesadíssima. Abocanhou uma barra de Galak, deu uma última conferida no apartamento e trancou tudo. O carro deveria estar na garagem, só restava saber se o portão automático, que só Deus sabia se podia ser acionado manualmente, abriria. Infelizmente suas piores expectativas se confirmaram. Ah! Maldito progresso!
Pegou a bicicleta e zuniu pelas ruas, passando por lojas fechadas e carros estacionados. Seja lá o que aconteceu, deve ter sido de madrugada! Queria ter aprendido a fazer ligação direta ou possuir uma arma de fogo naquele momento. Felipe tinha o bairro inteiro à disposição, mas não sabia usá-lo. Seria bem mais fácil se a "catástrofe" se desse em horário comercial.
Enquanto pedalava, pensava na família e na namorada. Poderia checar a casa dela. Talvez fosse uma das "escolhidas". Escolhidas para que? E por quanto tempo? Decidiu verificar uma dessas lojas de conveniência que funcionam em postos de gasolina. Elas costumam atender vinte e quatro horas por dia. Talvez alguma estivesse aberta.
O palpite foi correto. Num posto próximo, havia uma loja que não estava fechada. Também podia ouvir o som de um alarme anti-roubo. Alguém tivera a mesma idéia. Por isso avançou devagar. Encostou a bicicleta perto de uma das bombas e se aproximou lentamente das portas de vidro escancaradas. Pôde ver duas prateleiras caídas com produtos comestíveis espalhados pelo recinto. Atrás destas havia um homem. Gordo, barbudo, velho e maltrapilho. Lembrou-se dos mendigos do centro da cidade. Deveria aproximar-se?
O indivíduo em questão se entupia com molho de cachorro quente, pães e waffer enquanto abria um dos freezers do canto para pegar refrigerante. Felipe acompanhava o espetáculo chocado e enojado. Aquilo não fazia parte de seu círculo. Como poderiam seres assim existir em plena virada do século? Tanto progresso e tanta miséria! Não fazia sentido algum. Ou talvez fizesse todo o sentido do mundo.
Optou por interromper o show com um grito. O velho virou-se assustado e largou tudo que tinha em mãos. Ameaçou fugir, mas percebeu que o rapaz ocupava o único acesso à loja. Recolheu-se trêmulo num canto.
Ói! Eu não queria roubar nada não! É que eu tava com fome e o mundo vai acabar de qualquer jeito! Cê me desculpa, meu sinhô! Mas eu só tava com fome! Não me leva não! o homem tremia e babava enquanto pronunciava as palavras.
Não se preocupe, eu não estou aqui para levar o senhor! Só quero fazer umas perguntas. o rapaz se mantinha cauteloso.
Então, por que gritou? Eu não sô surdo nem nada!
Quero encontrar pessoas. Quero saber o que está acontecendo. Você disse que o mundo ia acabar. Por que acha isso?
Porque Deus disse que o mundo ia acabar, ora! Cê nunca foi à igreja? Nunca ouviu falar que o mundo ia acabar no ano dois mil? estava um pouco mais à vontade e já pegava sua comida de volta. Os anjos desceram do céu e levaram todo mundo! Tá escrito na Bíblia!
Você testemunhou isso?
Eu vi a Santa Virgi descer do céu! Eu vi a Virgi Maria! Jesus disse que ia voltar! Ninguém acreditou em mim! São Tomé queria ver pra crer! São Tomé foi pro inferno! Juízo final, meu amigo! a exaltação era interrompida por uma mastigada.
Mas já estamos em janeiro de dois mil e um. Felipe respondeu triunfante.
Cê acha que Deus faz tudo certinho? Ele disse que o mundo ia acabar no ano dois mil e cumpriu! E ói que isso é só o começo, hein! O mar ainda vai subir e as estrela vão cair! Tudo isso vai virar poeira porque o homi desistiu de Deus!
Você viu alguém por aí?
Mas eu não te disse que vi a Virgi, homi? Quer alguém mais importante do que a Virgi? outra mastigada. O velho era todo o fogo e inferno em sua sentença. Já nem lembrava mais a criatura medrosa e acuada de antes.
Desculpe-me por interromper sua refeição. Acho que já me vou. Estou à procura de alguém e obrigado pelas sabias palavras. Deus deve ter algum lugar no céu reservado para o senhor. um bom advogado deve saber mentir e causar boa impressão sempre. É o be-a-bá da profissão.
Agora é tarde, meu filho! Mas vai com a ajuda do Senhor Todo Poderoso! E que ele tenha piedade de todos nós!
Amém. fazia tempo que não dizia essa palavra.

Mas antes de sair, Felipe se lembrou de pegar um bom número de pilhas médias e pequenas, além de mais chocolate, biscoitos e refrigerante. Teria de se desfazer de parte de sua bagagem original. Já estava a caminho da bicicleta quando começou a ouvir uns sons estranhos vindos de parte alguma.
Pareciam vozes. Diziam coisas sem sentido. Palavras indecifráveis. Lembravam qualquer língua de algum país do outro lado do globo dita de trás para frente. De repente, se deu conta de que não podia mais ver o sol e o céu ficara verde, embora ainda estivesse claro.
As coisas estavam piorando. Continuou observando ao redor e visualizou o que parecia ser alguém andando no fim da rua principal. Talvez usasse uma roupa preta. Quem sabe um terno? Uma possibilidade de trocar idéias sensatas finalmente! Como o homem andava em sua direção, decidiu esperar ali enquanto trocava o conteúdo da mochila.
Havia um problema, entretanto. As vozes, que a principio eram ouvidas num volume baixo, agora estavam mais fortes. As palavras, porém, permaneciam indecifráveis. Tentou perceber de onde vinham, mas pareciam emanar de sua mente. Talvez fossem esses os sons que tanto enlouqueceram o locutor.
O pânico retornara. Aqueles sussurros, que soavam como ecos do inferno, congelavam sua alma. Talvez o diabo quisesse lhe dizer alguma coisa. Seria mesmo o fim do mundo como o velho anunciara? E se era mesmo o fim, o que ocorreria depois? Já se arrependia de ter largado o catecismo e de todos os gatos e passarinhos que matara na infância. Poderia ter sido mais gentil com certas pessoas... menos arrogante. Poderia não ter desejado mal a um determinado alguém numa determinada ocasião; não ter abandonado a antiga namorada após conseguir o contato profissional que tanto objetivara; ou não ambicionado tanto e prejudicado pessoas em prol de metas mesquinhas. Seria justo que pagasse por seguir os ensinamentos do mundo? As circunstâncias diziam que sim.
Dirigiu-se ao homem que caminhava em sentido oposto. Ele tinha cabelos loiros, vestia terno preto, e aparentava uns cinco anos a mais que Felipe. O estagiário não esperava ouvir declamações religiosas desta vez.
Er... desculpe! O senhor também está ouvindo? Está ouvindo essas vozes?
O loiro permaneceu mudo enquanto continuava a andar em sua direção.
Está me escutando? Quero saber se também ouve essas vozes! o rapaz insistiu.
Ybstril psiiiitp boyd tsssboyyyydglush mayyyy foi a resposta.
Felipe largou tudo que tinha em mãos e correu para a bicicleta. As palavras do homem pareciam pertencer ao mesmo idioma das vozes que o atormentavam. Devia ser um espírito ou um ser de outro mundo em busca de sua alma. Em segundos, estava pedalando alucinadamente já a uns setenta metros do posto. O homem de terno continuou a caminhar e pronunciar as palavras bizarras. Por quanto tempo o rapaz estaria a salvo?
Rodou por ruas e avenidas enquanto pensava em adentrar uma delegacia ou um quartel para pegar armas. Seriam elas o bastante para conter a ira de Deus? Bom... ao menos poderiam funcionar com alienígenas.
As vozes continuavam a sussurrar. Pareciam querer lhe dizer algo, mas o que? Será que Deus não sabia falar português? Esse som o perturbava, dificultando a concentração. Teve a impressão de que um dos prédios a sua frente desaparecera. As coisas faziam cada vez menos sentido e começava a se indagar se era melhor simplesmente se render. Temia a dor física e a morte mais do que qualquer coisa. Seu instinto de sobrevivência jamais admitiria rendição.
Esperneou enquanto perdia o controle da bicicleta. As vozes não o deixavam mais pensar, estavam altas demais. Se não morresse, ficaria louco. De repente, notou que parte do asfalto sumia e em seu lugar havia um enorme buraco. Tentou frear. Tentou desviar. Tarde demais. Seu corpo já estava em queda livre e mal podia ver o fundo da cratera. Agora era só esperar pelo impacto e torcer para que não fosse doloroso.


